Muda, Brasil. Olha que vergonha disse o audacioso deputado Sérgio Naya: “O preço da Justiça está no canhoto do meu cheque”

Raciocinemos: Sérgio Naya é um dos que fazem as leis neste país; os finórios criadores da Imobiliária Política S/A (e bota anônima nisso), que compram, vendem e alugam parlamentares e mandatos, idem; os que metem a mão no Orçamento e nos precatórios, também.
Desviando-me da armadilha do repúdio ao Congresso como um todo — onde há honrosas exceções — havemos de perceber que tais frequentadores impregnam o ambiente com seu ranço de má vontade em alterar qualquer vírgula nas leis que possam contrariar seus interesses pessoais. Alguém por acaso espera que Naya sinta vontade de mudar o Código Penal, por exemplo, se com 10% de mudanças seu destino seria as grades? Ou que desejasse dotar o INSS de mecanismos ágeis para a arrecadação, se ele é um dos maiores devedores da Previdência?
A sagacidade desses tipos contamina em efeito dominó muitos dos seus pares aparentemente hem intencionados. É difícil resistir a sofismas bem concatenados de bandidos, sim, mas perspicazes. Além do mais, uma carona num jatinho particular ali, um apartamento aqui, um empréstimo sem juros e a fundo perdido acolá costumam reverter caráteres nem tão convictos.
Naya não será preso. Roubou, falsificou, corrompeu, matou, mas através de renomados advogados pagos a peso de ouro logrará escapar. Será mais um beneficiado pelas filigranas jurídicas num Código injusto — que ele ajudou a manter ou criar — mas não terá sido culpa dos profissionais da Justiça desaparelhada e obsoleta, vitimada também de alguma forma por seus truques. Sua crença na impunidade é tanta que, certa feita, dissera textualmente: “O preço da Justiça está no canhoto do meu cheque”, de acordo com o jornalista Salomão Scwartzman, que reproduziu a frase em seu programa do dia 3/3/1998 na Rede Manchete. Ou então, “falsifico mesmo”, frase reprisada dezenas de vezes pela Rede Globo.
O gosto amargo que fica de toda essa canalhice é que ele matou gente. Matou fisicamente, matou moralmente, matou economicamente, matou emocionalmente. Destruiu sonhos, projetos de vida, recordações! E ficará sem castigo porque, da mesma forma que determina seu próprio salário, determina também sua impunidade. A menos que… MUDA, BRASIL!
Publicado em Março/1998