“Antes te houvessem roto na batalha”

Uma cena ocorrida em março/1999 jamais me saiu da memória. Foi quando meu companheiro de caminhada João Batista Ferreira Dutra morrera atropelado aos 35 anos, ao meu lado, quando nos preparávamos para atravessar a pista da rodovia Bom Jesus/Apiacá, altura do Loteamento Grande Vitória, em Bom Jesus do Norte. Chovia torrencialmente e queríamos evitar a correnteza que se formara no lado em que estávamos quando fui atingido violentamente, caindo a uns dois metros na valeta do acostamento e julgando haver vida após a morte, até me dar conta da insólita ocorrência: era o corpo dele que fora arremessado violentamente contra o meu — sofri leves escoriações. Ele jazia estatelado mais à frente, olhos no estupor da morte instantânea. Fomos socorridos uns 15 minutos depois. No extinto Hospital Jamile Said Salim, perto da minha casa, recebi os cuidados de praxe, observando o médico que atendia ao João enfiar uma seringa com líquido colorido em seu pescoço, agulha grossa e longa para atestar o que já sabíamos.
Faço deste preâmbulo uma analogia. O brasileiro hoje está como o Joãozinho naquela hora: nada o desperta para a morte cívica e política que se abate sobre si há décadas, mas que agora se desdobra com violência ainda maior. Nenhuma agulha parece capaz de reavivar a coragem, a autoestima, a honra cidadã ou o senso de dignidade pela pátria. Pelo contrário: a cada novo golpe político, traição ou escândalo, em vez de indignação, cresce a apatia. Como se as ações mais cínicas fossem remédios que entorpecem, e não veneno. Segundo pesquisas, metade da população idolatra “Nosso Guia!”, como diz Elio Gaspari.
O que dizer? Não basta mais roubar a fé e a esperança do povo; rouba-se também sua personalidade, sua dignidade, transformando-o em um zumbi que dança ao sabor de ventríloquos cruéis. A coreografia é absurda: uma inversão completa de valores, onde mentiras viram verdades e verdades viram mentiras. Que bandeira é essa que tremula hoje? Certamente não é a que Castro Alves poetizou, aquela que estremecia diante dos sofrimentos dos escravizados. A atual é pior porque debocha de todos. O poeta dizia: “antes a houvessem roto na batalha, do que servires a um povo de mortalha”. Pois é.
Não se trata aqui de defender rupturas, badernas ou golpes. Trata-se de apontar a contradição brutal entre a realidade do país e a indiferença de quem vive em gabinetes luxuosos, isolado da miséria que cerca milhões de pessoas. Saudades da velha ABI, da OAB verdadeiramente combativa, da CNBB firme, dos tempos de Ulysses, Tancredo e Teotônio, de autoridades íntegras. Nojo dos pseudointelectuais que tentam dourar a tragédia nacional com discursos vazios. Dói ver no que a grande mídia se transformou — meramente porta-voz de um governo que apostei com fervor em 2002 e pouco tempo depois já se revelara o mais profundo dos meus enganos. A pátria continua dominada pela corrupção e pela paralisia moral. O Estado Democrático de Direito cambaleia. Fomos empurrados de volta para o abismo por mãos anestesiadas, enquanto a iniquidade se espalha sem lenço e sem documento.
Minha geração não terá orgulho do seu papel na história. Talvez nossos descendentes consigam resolver nossa herança amarga, tomara. A nós restará a vergonha de termos sido alcoviteiros da amargura, por ação ou omissão. Desprezamos a democracia justamente quando ela mais precisava de nós!