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Publicidade é boa militante

No entorno do Itabapoana, os atuais prefeitos das duas Bom Jesus e de São José do Calçado tentaram a reeleição, mas só o de Bom Jesus do Norte, Ubaldo Martins, saiu-se vitorioso. Este fato merece algumas considerações sobre o papel da imprensa, da mídia interiorana de um modo geral como influenciadoras dos resultados.
Eu seria um bobo pretensioso se dissesse, e o leitor um tolo, se acreditasse, que a divulgação do governo Ubaldo Martins feita com competência, em sintonia com os tempos modernos tivera influência única, vital para reelegê-lo; não foi bem assim. Antes de tudo pesou fortemente o trabalho executado na cidade nestes quatro anos, cuja eficácia e proveito social tiveram o reconhecimento do eleitor. Ademais, o grupo, historicamente vencedor foi, como sempre, harmonioso, coeso, com as peças se mexendo de modo inteligente e obstinado no difícil tabuleiro da disputa.
Não é tarefa fácil dobrar o inconsciente coletivo, o hábito quase instintivo do eleitorado em promover alternância quadrianual no Poder Executivo de sua cidade. Na melhor das hipóteses — isto é fato- — o eleitor de Bom Jesus do Norte aceitou, em outras oportunidades, eventuais indicações de nomes por parte de quem governava, mas jamais o continuísmo personalístico. Além disso, não se deve perder de vista na análise a capacidade do adversário, que mais uma vez justificou o porquê do renome que desfruta nos meios políticos, fazendo uma campanha exímia e insinuante, fiel às características.  E a despeito de tudo isso, Ubaldo venceu, e bem, com 508 votos de diferença, um feito, é lícito afirmar, principalmente se considerada ser essa diferença quase o dobro da obtida ante a mesma adversária em 2000, ainda mais estando ele naquela oportunidade no papel de pedra e não de vidraça, como agora.
Este portentoso desempenho foi resultante de um conjunto de atos, atitudes e ações virtuosas, entre elas pedaços de medula da publicidade, da divulgação presos a seus ossos. Desde o início de seu governo, em 2001, Ubaldo seguiu a regra de que publicidade é investimento com excelente retorno, seja no aspecto racional (o bom desempenho do produto, no caso as atividades do governo, gruda na memória das pessoas) ou emotivo (a população sente-se prestigiada quando a administração pública presta-lhe contas mais amiúde de seus atos). A publicidade informa, sugere, persuade, muda sentimentos e comportamentos. Com a velocidade estonteante da divulgação através dos meios de comunicação, dá-se a formação da opinião pública sobre os mais diversos assuntos, e entre eles as atividades políticas. Mas é preciso observar que a frequência é fundamental. Divulgar produtos e serviços é como tomar vitamina. A dosagem e a quantidade variam de acordo com os resultados esperados, mas uma coisa é certa: um comprimidinho de vez em quando não faz efeito nenhum. Esse foi, me parece, um equívoco cometido por Miguel Motta em Bom Jesus do Itabapoana e Jefinho, em São José do Calçado.
Principalmente o primeiro, não fosse o anacronismo de considerar de secundária importância a publicidade, esnobando-a até, talvez estivesse hoje comemorando números mais generosos nas urnas (em política tudo é subjetivo, mas o marketing bem elaborado é o oposto). Insumos aos montes ele produziu, com o auxílio prestimoso do casal amigo Garotinho, mas não soube como transformá-los em produtos finais bonitos, vistosos. O asfaltamento da estrada de Rosal, por exemplo, foi explorado publicitariamente num amadorismo de dar dó. A ninguém ocorreu que o ego de toda a população — não apenas o das comunidades serranas — necessitava de estímulos subliminares mais competentes para gerar recompensas estrepitosas nas urnas. Uma obra há mais de meio século acalentando os sonhos do bom-jesuense teria de ter tido um destaque retumbante sendo ele, Motta, quem esteve no lugar certo, no momento certo e nas circunstâncias ideais. Equívocos como esse seriam eliminados ou minimizados houvesse a convicção de que neste século 21, mesmo nas mais remotas regiões, a propaganda nunca justificou tanto ser “a alma do negócio.”
É óbvio, insisto, que apenas a publicidade não resolve, ela é como o fermento que só produz reações misturado a outros ingredientes. Mas na era em que vivemos, parece claro, não se pode mais negacear sua companhia, duvidar de sua eficácia.
Publicado em novembro/2004