“Só a dor enobrece”

“A velhice começa quando se perde a curiosidade”, dizia José Saramago. Há tempos venho perdendo gradualmente a curiosidade, portanto…
O espetáculo do homem-alvo e do atirador de facas é uma das poucas situações que me despertam tal sentido. Quanta estupidez, quanto de instinto selvagem o ser humano ainda não se desvencilhou! Esse espetáculo estúpido venho acompanhando durante algum tempo. Admira-me a destreza da dupla, o atirador e o alvo. Ambos são implacáveis e audaciosos na defesa de seus princípios antagônicos. De um lado, lâminas funestamente reflexivas são agilmente arremessadas; as facas movem-se como raios e espetam a superfície onde o alvo acorrentado consegue escapar graças à sua capacidade contorcionista, que os religiosos afirmam ser pela proteção divina. Numa das vezes em que assistira a um episódio (este, real) fechei os olhos no momento em que uma faca cravara certeiramente na barriga do alvo, e concordaria com os religiosos se não fosse agnóstico.
Milagrosamente recuperado, o homem não se intimidou nem se intimida. Ao contrário, fortaleceu-se pela dor que, só ela, enobrece, segundo Manuel Bandeira. Valente, insiste em protagonizar embates com seu algoz que, até aqui, está tão desconsolado quanto o personagem de Gian Maria Volonté ao disparar freneticamente seu rifle no peito do personagem de Clint Eastwood na cena final de um desses westerns que fizeram muito sucesso no fim da década de 1960. Quando acaba a munição, o personagem de Volonté contempla, com assombro e desolação, o “mocinho” descartar uma chapa de aço maciço que fazia o papel de colete à prova de balas escondido embaixo da manta quadriculada.
E a constatação desse desconsolo inimigo massageia meu diafragma porque a superfície em que as facas deste texto são arremetidas chama-se Brasil, o alvo foi o então candidato e hoje presidente Jair Bolsonaro e o nosso Volonté das facas representa parcela majoritária da imprensa, da política rasteira que não aceita o resultado das urnas, dos sugadores do povo de modo geral e do ativismo político de parte do Poder Judiciário. Alguns desejam até mesmo a morte literal, à vera, do presidente, como por exemplo um jornalista da Folha, que afirmou textualmente tal desejo. Denominam-no genocida, como o triste magistrado e outros que “estão de mal” com quase 60 milhões de brasileiros que “votaram errado”; disputam pelada com cabeça de boneco com as feições do presidente grotescamente emuladas.
Esses inúmeros malabarismos são tentativas desesperadas de convencer que o país é o pária do mundo, de que absolutamente nada de bom acontece em terra brasilis. São espetáculos vulgares, deprimentes, coadjuvados pelas viúvas de um certo ladravaz ou gente simpática à ideologia comuno-socialista-trotkista-leninista-stalinista-cheguevarista-maoísta e outros istas que o diabo os carregou e que continue carregando. Ideologias estas deletérias, e, aí sim, genocidas, como nos adverte ampla literatura ao longo da história. Recomendo a leitura, por exemplo, de “O livro negro do comunismo”, de Stephane Courtois e “A grande fome de Mao”, de Frank Dikötter.
Lamento que essa circunstância de perseguição “facal” me entedie cada vez mais por falta de criatividade, de variedade nas performances a cada dia mais repetitivas, nulas de conteúdo inteligente e eivadas de mentiras e chavões sem graça. Em 2022 esse homem deverá ser reeleito em meio ao azougue de lâminas voando como nuvens de gafanhotos, e em 2026 indicará o sucessor, que será igualmente vitorioso.
E minha curiosidade amortecida irá definitivamente para o espaço sideral!
Publicado em setembro/2020