A pátria de chuteiras

Eu tinha oito anos quando ouvi falar de Didi, Garrincha e Vavá (Pelé machucado, mas Garrincha jogou para os dois, ou melhor, quase que para o time todo), quando fomos bicampeões; 12, quando o nome mais comentado era o do português Eusébio, que destruiu nossos sonhos do tri; 16, um rapazinho que tremia de emoção ao ouvir os nomes de Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino. Tri, cravadaço!; 20, quando fomos dizimados por Cruyff e seus companheiros holandeses; 24, quando quase morri de ódio daquela “entregada” que os peruanos deram para a Argentina, que precisava ganhar deles acho que de 3 ou 4 para eliminar o Brasil, e ganhou de 6; 28, quando aquele time maravilhoso do Telê Santana justificou a máxima dos retranqueiros de plantão de que time que joga bonito não ganha copa; 32, quando o Zico perdeu pênalti e a guilhotina dos franceses desceu sobre os nossos pescoços; 36, melhor esquecer Lazaroni e seus pernas-de-pau; 40, quando o que mais se ouvia era a tal de Curva Tamburello, que matou o Airton Sena. Mas fomos Tetra, apesar do Parreira. Quem haveria de parar Romário? 44, quando chorei de emoção pelo velho lobo, o Zagallo, naquela sua performance inesquecível, histórica, ao incentivar o time para a batalha dos pênaltis contra a Holanda na semifinal. Vai que é suuuuuaaaaa, Tafarel! Mas eis que logo em seguida, na final, a decepção quando Zidane e seus gendarmes deitaram e rolaram. Pu…, digo, Penta que partiu!; 44, eis o Felipão e o penta a quem de direito. Lembram-se daquele goleirão da Alemanha, o Oliver Khan, até então uma barreira impenetrável? Levou 2 do Fenômeno!; 52, outra vez a França, sempre ela sacaneando a gente.
Agora, 56 anos. Que verei doravante? O que vier já será lucro. O hexa? O hepta? O Octa? O enea? O deca? Tomara que papai do céu me deixe ver até icosacampeão (20 vezes, gente). A propósito, vejam que nomes! 11 vezes campeão: hendecacampeão; 12, dodeca; 13, trideca…, 21, undicosa; 30, triaconta; 100, hectoconta, ai, chega de consultar dicionário e viva a pátria de chuteiras, que deve parar um mês além das longas paradas regulares, que ninguém é de ferro.
A vocês que chegaram até aqui na leitura, minhas desculpas. Não foi por mal que os enrolei. Foi por necessidade. E para não fugir ao tema, estou na área. Se me derrubarem, é pênalti.
Publicado em maio/2010