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Baile-cabeça

Bacalhau existe mas poucos lhe viram a cabeça. Mal comparando, na última Festa de Abril de Bom Jesus do Norte foi realizado um Baile de Gala no ginásio do Ordem e Progresso. Bocas de Matilde contam que foi “cabeça de bacalhau”! E mais: que só não foi um retumbante fracasso porque, ainda segundo Matilde, 80% dos presentes eram pessoas oriundas da vizinha Bom Jesus do Itabapoana.

O ipsilone é o seguinte: idealizaram o baile, dizem, como forma de arrecadar recursos para instituições filantrópicas, mas parece que o fizeram de forma amadorística, sem cuidar da divulgação, do apelo publicitário. Não sei se proposital (era um ambiente, talvez, para receber apenas a nata da sociedade?), ou resolveram de última hora, mais na base do improviso. O fato é que a iniciativa edificante mereceria aplausos ensurdecedores se o investimento fosse privado. Mas como fazer caridade com chapéu alheio é mais fácil, tomaram-se recursos públicos em nome do público para a realização do luxuoso evento que, segundo um dos poucos presentes, teve uma belíssima decoração, e que o baile, em si, foi apurado, escorreito (deixem-me gastar o Português).

São os tais negócios: para uns poucos o socialismo tupiniquim individualiza os lucros e pulveriza os prejuízos, não há empreendimento de risco para estes. Trocando em miúdos: pega-se dinheiro do contribuinte, investe-se em fábrica de guarda-chuva para nordestino, por exemplo, e, se num aborto da natureza der lucro, este fica no bolso do “audacioso empreendedor”. Mas se der prejú, que é o mais provável, este prejú é nosso, meu, seu, pois somos nós que abastecemos os cofres públicos através dos impostos, taxas e contribuições que recolhemos. No caso em tela, o lucro seria das entidades assistenciais, mas é pouco provável que a arrecadação tenha sequer empatado com as despesas.

Como é pressuposto que investimentos públicos devem beneficiar a coletividade, este baile contrariou este princípio, é evidente, pois o público que dele mais deveria tirar proveito, ainda que pagando, foi devidamente escanteado. Público, aliás, que deveria ser majoritariamente o bom-jesuense-do-norte, já que a festa da cidade, que estimulou a realização do baile, era sua. Raciocinando assim, pode-se afirmar que o não-convite público para o baile foi usurpação de direito, espécie de apropriação indébita de uma tradição histórica que pertence a todos.

Tudo errado, como se vê. Se era para levantar recursos para os velhinhos e/ou as crianças dos lares, tanto mais importante a divulgação, a popularização do evento. Matemática simples: mais gente, mais arrecadação. A maneira como aconteceu, inclusive, dá margens a dúbias interpretações: será que se quis na verdade reunir a sofisticação social usando a pobreza como justificativa? Como se um yupie ou uma madame resolvesse reunir seus iguais para uma festinha particular usando dinheiro público e deixando no caixa, como comprovante, a impostura da “ação social em prol dos menos bafejados pela sorte?” Ou será que realmente os objetivos foram nobres, mas faltou competência na organização?

Como em tudo há um lado bom, o episódio foi útil para iniciativas futuras, que deverão ser idealizadas de forma diametralmente oposta, com planejamento e intuição mais acurada para a boa relação custo/benefício, porque o dinheiro do povo não é capim. E parece sintomático que algo tinha de pairar inexplicável, pois nem toda a imprensa local, caixa de ressonância da sociedade, foi informada do baile realizado, repito, com recursos da municipalidade ou angariados em seu nome.