Aqui eu guardo meus escritos.

Obrigado pela visita.

O medo venceu no Vale

Os números das eleições para presidente no Vale do Itabapoana desmoralizaram a esperança e fortaleceram o medo e a resignação de uma população que resolveu apostar no “deixa tudo como está para ver como é que fica”. Exceto em Bom Jesus do Norte, onde o trabalho do PT local e o empenho do prefeito Ubaldo Martins no segundo turno parecem ter convencido a maioria de que Lula seria a melhor opção (embora tenha vencido por uma pequena diferença), Apiacá, São José do Calçado e Bom Jesus do Itabapoana não quiseram arriscar e tentaram surpreendentemente manter uma situação reconhecidamente ruim, mesmo admitindo-se que José Serra pouco tem a ver com isso.

Grosso modo, duas interpretações – sem possibilidade de fugir ao maniqueísmo – podem ser dadas ao fato de Lula ter perdido aqui: uma, que esta parcela do eleitorado foi sábia em descartar um candidato cujo partido que congrega desde a esquerda moderada até os batráquios xucros, xiitas e xaatos tenha tido desta vez a preferência de capitalistas ferrenhos e historicamente descompromissados com as causas sociais de seus co-irmãos. Talvez o macarrão amoleça quando entrar na panela, pareceu ser a interpretação no inconsciente coletivo desses eleitores. A outra interpretação tem o agravo de conter o pernicioso elemento do preconceito, aquela velha história do operário que não cursou uma universidade e que não possui a sensibilidade para apreciar música de câmara, portanto incapaz de conduzir o país com competência.

Bom Jesus do Itabapoana, principalmente, deu um show de rejeição a Lula. Nada menos do que 2806 votos válidos foi a diferença pró Serra, quase 15% do total. Em circunstâncias normais esta diferença não seria assim tão extraordinária; no entanto, difícil entender os motivos pelos quais um candidato reverenciado nos quatro cantos do país (em alguns estados com mais de 80% da preferência dos eleitores) tenha sido repelido neste município, especialmente tendo contado com o apoio dito incondicional de Anthony Garotinho (candidato a presidente derrotado no 1º turno, mas campeoníssimo em Bom Jesus/RJ) e de sua esposa Rosinha (eleita governadora do RJ ainda no primeiro turno), casal que caiu nas graças desta mesma população e por isso foi generosamente sufragado nas mesmas urnas hostis a Lula.
Esta curiosa remada contra a maré, de toda sorte, não foi boa para as lideranças municipais do Vale do Itabapoana porque, de duas, uma: não se engajaram efetivamente, com a obstinação de um perdigueiro, em favor do que a imensa maioria dos brasileiros considerava como mudança, ou, se o fizeram, viram arrefecer a faculdade de congregar os eleitores às suas causas. E esta presumível perda de prestígio pode ser um pequeno sinal do cenário que este eleitor prepara para 2004.

Publicado em outubro/2002

Sadomasoquismo e exorcismo na busca do vil metal

Madrugada de 20/4. Na Rede TV, sucessora da Manchete, a apresentadora do programa “Na Cama com Monique”, Monique Evans, apresenta cenas de sadomasoquismo. Deitado de costas no chão com uma coleira no pescoço, um rapaz tem sobre si, sentada em seu rosto, usando um biquini de napa, ornamentada com muitos metais característicos dos adeptos dessa tara sexual, uma “dominadora” com a área dos genitais na boca do rapaz. Ela traz nas mãos uma vela vermelha acesa, deixando pingar gotas fumegantes de parafina no peito do “dominado” ao som de frases ofensivas e rebolados frenéticos na cara do sujeito. A veterana apresentadora, com a naturalidade que caracteriza a apelação dos programas televisivos instiga os parceiros e fala: “não vale soltar um pum na cara dele, hein?”. “Você lavou a ´xana´ hoje?”, pergunta olhando para os demais convidados, uns quatro ou cinco, com a observação de que “tem gente que prefere com ´ela´ sujinha.”

Muda-se o canal. Na Record, o assunto é exorcismo. Um bispo da Universal, moreno, calvo, alto, bem articulado, rápido no raciocínio, esforça-se para convencer no papel do bom samaritano salvador de almas executando performances nos “possuídos” vitimados por “encostos”. Pessoas com as mãos para trás simulando rigidez cadavérica, dedos tesos para dentro, empenhadas em respirar com dificuldade pelo cansaço de carregar dentro de si ninguém menos que o diabo, executam um sinistro concerto de esgares numa coreografia patética. Todos acentuam o tom da voz (o diabo, quem não sabe?, fala grosso e abusa da ironia) atropelando as sílabas, com o máximo cuidado, porém, de se fazer entender. O bispo pergunta invariavelmente: “o que você quer com essa pessoa, diabo?” As respostas são as mesmas: “hum, hum, quero separar ela da família, tirar o seu emprego, fazer da vida dela um inferno”, e por aí afora. E o bispo, compenetrado, agarra a possuída criatura pelos cabelos e diz com impressionante autoridade: “sai dela, agora! Sai diabo, eu te ordeno”, acrescentando depois de uma bem calculada pausa para aumentar a já alucinante expectativa para o êxtase final: “saia, em nooooooome de Jesus”, logra o desfecho para júbilo da plateia extasiada.

Em comum nos dois episódios é que hoje em dia não mais existem ética e dignidade em certas formas delirantemente encontradas para ganhar dinheiro. Explorar e manipular a boa-fé das pessoas, no caso do bispo; afrontar os valores e os princípios morais, no caso da Monique já não passam de detalhes conservadores sem vez na predatória competitividade do dia a dia.

Publicado em abril/2003

Baile-cabeça

Bacalhau existe mas poucos lhe viram a cabeça. Mal comparando, na última Festa de Abril de Bom Jesus do Norte foi realizado um Baile de Gala no ginásio do Ordem e Progresso. Bocas de Matilde contam que foi “cabeça de bacalhau”! E mais: que só não foi um retumbante fracasso porque, ainda segundo Matilde, 80% dos presentes eram pessoas oriundas da vizinha Bom Jesus do Itabapoana.

O ipsilone é o seguinte: idealizaram o baile, dizem, como forma de arrecadar recursos para instituições filantrópicas, mas parece que o fizeram de forma amadorística, sem cuidar da divulgação, do apelo publicitário. Não sei se proposital (era um ambiente, talvez, para receber apenas a nata da sociedade?), ou resolveram de última hora, mais na base do improviso. O fato é que a iniciativa edificante mereceria aplausos ensurdecedores se o investimento fosse privado. Mas como fazer caridade com chapéu alheio é mais fácil, tomaram-se recursos públicos em nome do público para a realização do luxuoso evento que, segundo um dos poucos presentes, teve uma belíssima decoração, e que o baile, em si, foi apurado, escorreito (deixem-me gastar o Português).

São os tais negócios: para uns poucos o socialismo tupiniquim individualiza os lucros e pulveriza os prejuízos, não há empreendimento de risco para estes. Trocando em miúdos: pega-se dinheiro do contribuinte, investe-se em fábrica de guarda-chuva para nordestino, por exemplo, e, se num aborto da natureza der lucro, este fica no bolso do “audacioso empreendedor”. Mas se der prejú, que é o mais provável, este prejú é nosso, meu, seu, pois somos nós que abastecemos os cofres públicos através dos impostos, taxas e contribuições que recolhemos. No caso em tela, o lucro seria das entidades assistenciais, mas é pouco provável que a arrecadação tenha sequer empatado com as despesas.

Como é pressuposto que investimentos públicos devem beneficiar a coletividade, este baile contrariou este princípio, é evidente, pois o público que dele mais deveria tirar proveito, ainda que pagando, foi devidamente escanteado. Público, aliás, que deveria ser majoritariamente o bom-jesuense-do-norte, já que a festa da cidade, que estimulou a realização do baile, era sua. Raciocinando assim, pode-se afirmar que o não-convite público para o baile foi usurpação de direito, espécie de apropriação indébita de uma tradição histórica que pertence a todos.

Tudo errado, como se vê. Se era para levantar recursos para os velhinhos e/ou as crianças dos lares, tanto mais importante a divulgação, a popularização do evento. Matemática simples: mais gente, mais arrecadação. A maneira como aconteceu, inclusive, dá margens a dúbias interpretações: será que se quis na verdade reunir a sofisticação social usando a pobreza como justificativa? Como se um yupie ou uma madame resolvesse reunir seus iguais para uma festinha particular usando dinheiro público e deixando no caixa, como comprovante, a impostura da “ação social em prol dos menos bafejados pela sorte?” Ou será que realmente os objetivos foram nobres, mas faltou competência na organização?

Como em tudo há um lado bom, o episódio foi útil para iniciativas futuras, que deverão ser idealizadas de forma diametralmente oposta, com planejamento e intuição mais acurada para a boa relação custo/benefício, porque o dinheiro do povo não é capim. E parece sintomático que algo tinha de pairar inexplicável, pois nem toda a imprensa local, caixa de ressonância da sociedade, foi informada do baile realizado, repito, com recursos da municipalidade ou angariados em seu nome.

 

Nós somos da pátria a guarda

Ditadura militar? Quem já passou dos cinquenta não guarda boas lembranças do sinistro verde-oliva. No momento em que se vivenciava o arbítrio, a truculência e a opressão, o medo imperava como juiz supremo na sociedade. Mas a ninguém é dado olvidar que os sucessivos governos militares livraram o país do comunismo genocida, da maré vermelha que leva de roldão valores morais e paradigmas econômicos historicamente eficazes em nome de uma ideologia que se mostrou despropositada e em completo desequilíbrio conceitual com o desenvolvimento, o progresso e as conquistas materiais e sociais dos povos.

Não obstante a censura, que impedia a capacidade analítica, de obter informação e de percepção real dos fatos, o governo militar foi infinitamente mais honesto e competente, que nem mesmo as vivandeiras trotskistas, marxistas, leninistas (xiitas, xaatas e xuucras), no auge do delírio persecutório, vingativo, em frenesi pela desforra, ousaram negar. Também o senso de patriotismo, o orgulho pela pátria, a noção de civismo eram marcas registradas que de certa forma justificavam os tanques e os coturnos. Em contraponto, quando os cassetetes deram lugar às urnas, a única coisa que os brasileiros tiveram foi o direito de escolher o pilantra que os governaria, muito especialmente devido ao analfabetismo funcional que infelicita parcela substancial da população (e aí falharam também, miseravelmente, os milicos), tornando-a sem condições intelectuais de discernimento. E neste momento em que se começam a ouvir vozes mais estridentes dos quartéis é bom levar a sério, porque essas vozes ecoam o grau de podridão a que arrastaram o país. Vivemos uma cleptocracia, e dos três poderes da república, o Judiciário é o menos contaminado, mas já não se mostra tão infenso às hordas de larápios que se forjam no ventre da ignorância.

Não existem qualidades morais para Legislativo e Executivo governarem a nação. E se a Justiça não desempenhar a contento o importante papel que dela se espera como tábua de salvação, não haverá alternativas senão a intervenção militar, e nem se poderá arguir que seria uma ação ilegítima, porquanto a ação das forças armadas é prevista em situações de caos politico e social, e estamos perto disso. Não parece que o Exército de Caxias e as demais forças militares brasileiras simpatizam com o que se vê na Venezuela, em Cuba, na Coreia do Norte e em regimes desgraçados assemelhados, para ficarem de braços cruzados.

O problema de uma ação tão extrema é que geraria reações também extremas, mas tratar-se-ia de uma questão prática de custo-benefício. E esse custo, por mais exorbitante que fosse, não ensejaria dúvidas de que seria menor que o prejuízo do futuro da pátria hoje anímica, vilipendiada, estuprada, escarnecida por ladrões sem olhos de ver que para além de suas burras estufadas de dinheiro existem gerações que precisarão sobreviver a eles.

Publicado em outubro/2017

“Só a dor enobrece”

“A velhice começa quando se perde a curiosidade”, dizia José Saramago. Há tempos venho perdendo gradualmente a curiosidade, portanto…

O espetáculo do homem-alvo e do atirador de facas é uma das poucas situações que me despertam tal sentido. Quanta estupidez, quanto de instinto selvagem o ser humano ainda não se desvencilhou! Esse espetáculo estúpido venho acompanhando durante algum tempo. Admira-me a destreza da dupla, o atirador e o alvo. Ambos são implacáveis e audaciosos na defesa de seus princípios antagônicos. De um lado, lâminas funestamente reflexivas são agilmente arremessadas; as facas movem-se como raios e espetam a superfície onde o alvo acorrentado consegue escapar graças à sua capacidade contorcionista, que os religiosos afirmam ser pela proteção divina. Numa das vezes em que assistira a um episódio (este, real) fechei os olhos no momento em que uma faca cravara certeiramente na barriga do alvo, e concordaria com os religiosos se não fosse agnóstico.

Milagrosamente recuperado, o homem não se intimidou nem se intimida. Ao contrário, fortaleceu-se pela dor que, só ela, enobrece, segundo Manuel Bandeira. Valente, insiste em protagonizar embates com seu algoz que, até aqui, está tão desconsolado quanto o personagem de Gian Maria Volonté ao disparar freneticamente seu rifle no peito do personagem de Clint Eastwood na cena final de um desses westerns que fizeram muito sucesso no fim da década de 1960. Quando acaba a munição, o personagem de Volonté contempla, com assombro e desolação, o “mocinho” descartar uma chapa de aço maciço que fazia o papel de colete à prova de balas escondido embaixo da manta quadriculada.

E a constatação desse desconsolo inimigo massageia meu diafragma porque a superfície em que as facas deste texto são arremetidas chama-se Brasil, o alvo foi o então candidato e hoje presidente Jair Bolsonaro e o nosso Volonté das facas representa parcela majoritária da imprensa, da política rasteira que não aceita o resultado das urnas, dos sugadores do povo de modo geral e do ativismo político de parte do Poder Judiciário. Alguns desejam até mesmo a morte literal, à vera, do presidente, como por exemplo um jornalista da Folha, que afirmou textualmente tal desejo. Denominam-no genocida, como o triste magistrado e outros que “estão de mal” com quase 60 milhões de brasileiros que “votaram errado”; disputam pelada com cabeça de boneco com as feições do presidente grotescamente emuladas.

Esses inúmeros malabarismos são tentativas desesperadas de convencer que o país é o pária do mundo, de que absolutamente nada de bom acontece em terra brasilis. São espetáculos vulgares, deprimentes, coadjuvados pelas viúvas de um certo ladravaz ou gente simpática à ideologia comuno-socialista-trotkista-leninista-stalinista-cheguevarista-maoísta e outros istas que o diabo os carregou e que continue carregando. Ideologias estas deletérias, e, aí sim, genocidas, como nos adverte ampla literatura ao longo da história. Recomendo a leitura, por exemplo, de “O livro negro do comunismo”, de Stephane Courtois e “A grande fome de Mao”, de Frank Dikötter.

Lamento que essa circunstância de perseguição “facal” me entedie cada vez mais por falta de criatividade, de variedade nas performances a cada dia mais repetitivas, nulas de conteúdo inteligente e eivadas de mentiras e chavões sem graça. Em 2022 esse homem deverá ser reeleito em meio ao azougue de lâminas voando como nuvens de gafanhotos, e em 2026 indicará o sucessor, que será igualmente vitorioso.

E minha curiosidade amortecida irá definitivamente para o espaço sideral!

Publicado em setembro/2020