Aqui eu guardo meus escritos.

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Ídolos

No princípio os humanos adoravam ídolos de barro ou de metais. Depois passara a venerar ídolos invisíveis e abstratos. E no momento presente observa-se a supremacia do culto aos ídolos feitos à sua imagem e semelhança. E a mídia, notadamente a eletrônica necessita freneticamente fabricar esses ídolos, sem o que sua existência estaria relegada a um plano secundário. Isto explica a razão pela histeria que acomete multidões quando morrem pessoas idolatradas ou quando deles nascem os filhos.

Muitos dos que se consternaram ao exagero pelo falecimento do jovem cantor Leandro, da dupla Leandro & Leonardo, e de tantos outros artistas e figuras populares não o fariam com tamanho fervor até mesmo no caso do passamento de parentes diretos. É porque estes são pessoas comuns e aqueles, mitos indeléveis nas mentes alienadas pela maciça e muitas vezes imerecida glorificação pela indústria da comunicação de massa.

Veja-se o caso da recém-nascida primogênita da apresentadora Xuxa: a começar pelo nome, de forte apelo publicitário (não sei se deliberadamente ou não), foi imposta à menina uma mitificação mesmo antes de vir ao mundo, não importando se ela haverá de querer conviver no futuro com esta honorificação que poderá tornar-se um estigma para ela, a depender do desenrolar de sua personalidade.

O certo é que a indústria não poderia desprezar tão potencial projeto devido ao invejável “pedigree” da pequenina Sasha, o que torna a tarefa do endeusamento muito mais fácil e garantida, afiançando a oferta de ídolos para uma demanda sempre crescente. O problema é que a pressa de produzir a fim de calar essa insaciável demanda muitas vezes fabrica produtos de qualidade duvidosa, e o mais grave: ao se venerar à exaustão um outro ser humano igualmente vulnerável e com as fraquezas inerentes propositadamente ocultadas, a sociedade tende a esquecer outros valores mais verdadeiros e autênticos, causando o desequilíbrio e o equívoco nas relações humanas.

Bem-vinda, Sasha. De antemão, escusas pela nossa hipocrisia.

Publicado em agosto/1998

Inocência ultrajada

“O BRASIL ESTÁ DE OLHO! É o que diz a campanha publicitária oficial contra a exploração sexual de crianças no país, crime perverso a consternar toda a sociedade e que desnuda de forma crua a violenta injustiça social que nos assola. Um grande olho humano ilustra o cartaz.

O Brasil está de olho, mas a visão está deturpada pelo astigmatismo que o leva a formular débeis tentativas de combater apenas o efeito e não a causa desta calamidade. Há que se debruçar no cerne da questão, na célula-máter desta infecção que se insinua de forma voraz e atinge milhões de vítimas com seu efeito devastador. A sociedade não pode, jamais, perder a capacidade de se indignar com esta prática hedionda, havendo de censurar enfaticamente as camarillas farsantes que se revezam há decênios em Brasília e que nada fazem a não ser criar programas sociais caricatos e de enfoques eleitoreiros. Esses impostores jamais vão ao âmago da questão porque não lhes interessa conviver com um povo sadio e instruído, para que não desenvolvam a capacidade de desmascarar seus embustes apeando-os do poder que lhes seduz arrebatadoramente.

O olho é míope porque não vê, ou melhor, finge, que o que leva uma criança a se prostituir é a fome, não somente aquela que força seu estômago a roncar diuturnamente, como também a de Educação, de Saúde, de Justiça Social. Este olho, hipermetrópico pela indolência em olhar as necessidades básicas da maioria da população, transforma-se numa rapidez vertiginosa em olho de lince para enxergar na escuridão e trevas das injustiças os interesses obscuros e amorais de uns poucos.

Estes desmandos, olho omisso, resultaram na infecção que a imprensa diagnosticou. Se você não fosse tão frio e impenetrável, talvez tivesse perscrutado que a vontade de saborear um bife ou o desejo de possuir uma boneca é que leva uma menina ainda impúbere a vender seu corpo imaturo por 5 ou 10 Reais. Você, olho cruel, não tem condescendência nem com a infância, vítima inocente do seu arbítrio, por isso é o maior culpado por essa infâmia. E não me venha agora dar uma de arrependido, de diligente. Ou terá sido porque a situação chegou a tal ponto que se tornou necessário dar uma satisfação? Ou porque terá lhe doído realmente um pouquinho quando tocaram nesta ferida que jamais cicatriza, como de resto todas as outras chagas que, de tão intensas, lhe escapam ao controle?

Há de se combater, sim, olho incompetente, a concupiscência degradante de adultos degenerados com seres tão pequenos. Não se pode contemporizar com estes pervertidos que abusam, seviciam, corrompem, achacam e estupram nossas crianças. Mas a cura definitiva compete a você, olho impassível, lograr êxito. Quando houver vontade política você, com certeza, tirará os infantes dos meios promíscuos em que vivem, dando-lhes alimento, saúde, educação e lazer. Só assim não terão de trocar sua chupeta por alguns trocados conseguidos pela oferta em holocausto do seu pequeno corpo em desenvolvimento.

Livre-nos deste flagelo, olho roxo. Talvez ainda haja tempo para você curar o trauma que este soco violento lhe causou!

Publicado em agosto/2001

Grampo provinciano; ou, condomínio chamado Brasil

Triiimmmm

— Alô?

— É o Vicente? Souza falando…

— E aí, Souza? Tem passado bem?

— Não como você, Vicente. Você que é sortudo…, até já instalaram o seu telefone…

— Cinco anos de espera…, já era tempo. Mas não sou eu que estou bem nas pesquisas…

— Que nada, Vicente. Ainda preciso de mais três condôminos para garantir minha eleição de síndico aí do prédio.

— Xá comigo, Souza. Vai ser mole. Só vou precisar de sua colaboração depois…, sabe como é…

— Perfeitamente. Claro. Irrestrita.

— Então escute. O plano é o seguinte: sabe aquela mulher do 501?

— Sei… sei. Aquela que no lugar de palmas sacode as joias?

— Isso. Vamos dar isenção total do pagamento da taxa mensal de condomínio da sua cobertura durante toda a gestão do governo Souza, compreendeu?

— Claro, nada mais justo, Vicente.

— E tem mais. Conhece o Curriola, amigo do Chico Golpes?

— O dono do banco Sarka Tudo?

— Sim. Ele, o Curriola, juntamente com o dono do Banco Conte Cinfrões, que moram juntos no 171, vão votar em você. Só que eles precisam de uma forcinha…, tão com o apartamento penhorado…, coitados…, me ligaram hoje das Bahamas…, nem conseguem curtir umas férias direito, tamanha a preocupação.

— Claro, claro. Se depender dos recursos do prédio, os bancos deles não quebram…, ou melhor, se quebrarem pelo menos eles ficarão numa boa. Pra que servem os amigos, não Vicente?

— E tem também aquele empreiteiro que mora no 302, o dono da Superfaturadas ilimitada. O dele vai ser um contrato de manutenção do prédio com um pequeno ágio de 50%.

— Não é muito?

— Né não, Souza. É valor de mercado. Não vê a O K Nalha? Já reajustou sua tabela agial para 60%. Dizem que a Safardo Corneia já cobra 70%.

— Esse pessoal não brinca em serviço. Votinho caro, né Vicente?

— É…, mas compensa. Os condôminos comuns serão beneficiados em “nossa” administração. Vamos manter a estabilidade dos valores condominiais a qualquer custo, né não, Souza?

— Claro, claro…, humpt, humm…, humm…., mas Vicente, de onde vamos tirar para cobrir estes custos…, digamos…, eleitorais?

— Simples, Souza, simples. Não tem aqueles gringos que adoram emprestar dinheiro?

— Os do FOMI?

— Eles mesmos. Famosos Opressores Matreiros Internacionais.

— Mas os juros são bem salgados… Para pagar estes caras vamos ter de demitir gente…, acabar com a escolinha e a sala de primeiros socorros…, aqueles dois andares que projetávamos crescer vão para o espaço…

— E daí? Preço de condomínio quatro anos sem reajuste é o que importa, Souza. Vamos nos capitalizando com os gringos nas defasagens, pagando só os juros e empurrando com a barriga…

— Mas vai chegar num ponto, Vicente, que a coisa pode estourar…

— Desde que não estoure em nossas mãos…, o próximo síndico que se vire!

Publicado em maio/1998

Amor mortífero

Ela era jovem, rica e bela. E nada de paranoica ou débil mental. Mandou matar os pais por um louco amor, formando um drama real que supera as fictícias tragédias shakespearianas no ápice do delírio criador do dramaturgo imortal.

Que motivo é esse? Como o amor pode ser tão mortífero? Na impossibilidade de uma análise psicológica de mais profundidade, resta a impressão de que a juventude da era moderna não tem limites para nada, e que numa sinistra ironia os pais de Suzane Richthofen foram culpados de certa forma pela própria tragédia que os vitimou, já que vivenciaram e praticaram as regras de comportamento ditas modernas.

O poder material destes trevosos tempos passaram a ser o único valor a nortear grande parcela de seres humanos. Conforto, consumismo, luxúria, hedonismo, peitos siliconizados, bundas proeminentes substituíram dignidade, moral e solidariedade. E esta cultura é transmitida dos pais para os filhos.

A evolução comportamental sempre foi vista com reserva. Como se escandalizaram, por exemplo, os pais da juventude transviada da década de 1960 com as barbas e os cabelos compridos de seus filhos, ausência de banho, sexo livre e a consagração da utopia de um mundo sem peste, fome e guerras. Mas aqueles pais, embora tivessem o dissabor de testemunhar a ruptura de um padrão estabelecido, o que é sempre traumático, tiveram atenuantes em relação aos de hoje porque os movimentos de outrora tinham o Paz e o Amor como abordagem principal.

Atualmente imperam os pit bulls, os robôs sem alma e sem coração forjados nas academias de artes marciais, os pequenos tiranos que por terem tudo julgam que a tudo podem, até incendiar pessoas em praça pública, assassinar garçons, matar espectadores no cinema e assassinar os pais.

Os meios de comunicação, em especial a TV, têm enorme parcela no atual padrão estabelecido. A televisão brasileira vem formando uma geração com mutações genéticas que a torna dependente de violência e notícias ruins. A diversão dominical é exatamente achar graça na desgraça alheia, rir-se à toa de tombos e tropeções nas famosas pegadinhas. Os comunicadores, na mais desavergonhada ironia mostram que as pessoas que ainda têm bom coração e se dispõem a ajudar o próximo não passam de um bando de otários, que trocam pneus e são zombados, ajudam deficientes físicos que levantam e saem andando, e tantas outras situações criadas para expor as pessoas ao ridículo, destruindo o balizamento da ética e da razão.

O amor de Suzane é fruto dessa poção diabólica, cozida no caldeirão da permissividade, da dissimulação, da insensibilidade, da crueldade, da impiedade, da iniquidade. O ápice deste amor para quem nunca conheceu limites teria de ser lavrado num clima de erotização maior imaginado por suas mentes frívolas: o sacrifício dos próprios pais de um dos parceiros!

Publicado em dezembro/2002

Apocalipse Now

Começo este amargurado artigo evocando Castro Alves em seu célebre poema Vozes D´África: “Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes? Em que mundo, em que estrela tu te escondes, embuçado nos céus?”

O fatídico 11 de setembro jamais será esquecido, no qual tivemos a forte impressão de termos sido definitivamente desprezados pela Potestade. Será por todo o sempre o capítulo mais tenebroso da história da humanidade, sem ocorrências precedentes nem pósteros. O furor do ódio materializado no paroxismo da insensatez e da loucura ficará impregnado nos recônditos mais longínquos deste nosso Planeta, que de um azul vistoso transformou-se rubro pelo mar de sangue de dezenas de milhares de inocentes, e da vergonha perante o universo.

Foi uma tragédia largamente anunciada pelas divergências inconciliáveis que nos assolam. E outras virão porque chegamos a um tal nível de intolerância que qualquer gota transborda e causa efeitos devastadores, inacreditáveis. O fanatismo religioso, o preconceito racial, as diferenças políticas aquecem-se de forma incontrolável e chegam com facilidade ao ponto de ebulição. Tal qual determinados tipos de bactérias e vírus, o ódio, este sentimento pernicioso, intrinsecamente humano, reproduz-se de várias formas e tem a faculdade incomum de dotar-se de criativos mecanismos de autopreservação que tornam inúteis todas as tentativas de combatê-lo. E quando a ele se une inteligência, ousadia e o desprezo pla própria vida, tudo parece irremediavelmente perdido.

O ódio racial, o ódio político, o religioso, o social, em todas as suas modalidades e diferentes formas e sutilezas é sempre mais destrutivo e gera-se na ignorância e no egoísmo desenfreado que parecem ter atingido o ápice em nossa contemporaneidade. O crescimento inversamente proporcional de sensatez em relação a insanidade, de estadistas em relação a oportunistas políticos, de pastores em relação a vigaristas contribuem para a implementação deste subalterno sentido com toda a virulência que lhe é inerente. A carnificina de Nova Iorque no 11/11 não supera em números absolutos as das grandes guerras e outros holocaustos humanos, as com certeza será lembrada como a mais chocante de todos os tempos pela desvairada devastação num único dia!

E dela fica tão-somente a esperança de que não seja o início do fim, e para tanto façamos nossas as palavras do poeta: “Não basta inda de dor, ó Deus terrível?! É, pois, teu peito eterno, inexaurível de vingança e rancor?”

Publicado em setembro/2001