Aqui eu guardo meus escritos.

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Antes que o mal cresça…

O recente episódio das pessoas que passaram mal após comerem produtos deteriorados de uma famosa lanchonete da cidade é mais um aspecto negativo a aumentar a percepção de que as duas Bom Jesus infelizmente já padecem de quase todos os males de uma grande cidade brasileira. Roubos, assaltos, latrocínios, homicídios, suicídios são fatos sombrios que vêm aumentando a cada dia, e proporcionalmente ao número de habitantes seus índices podem estar encostando aos de grandes centros. Fora isso, outros tipos de ilícitos e contravenções são fatos a integrar o cotidiano das pessoas, despertando a nostalgia de tempos de sossego não tão distantes.

A prostituição é uma das mazelas que traz grandes danos à sociedade. A chamada profissão mais antiga do mundo de há muito perdeu sua aura de romantismo, sua característica de comércio estabelecido em áreas fixas para se espalhar em qualquer canto. A prática é hoje em dia mais nociva porque incorporou um sentido de maior perversão dos instintos, entre eles a pedofilia. Não raro encontram-se adolescentes e até crianças em bares e botequins das duas cidades se prostituindo, sendo exploradas sexualmente sem que as autoridades tomem conhecimento.

Jogos de azar, que por si já se constituem contravenção penal, são outros malefícios sociais que têm entre seus participantes menores de idade. O alcoolismo é outro estropício social intenso em Bom Jesus. Não por acaso os dois municípios contam com tantos bares, bodegas e biroscas, o que os torna talvez detentores de um recorde desagradável, indesejável mesmo: campeões desses estabelecimentos por metro quadrado. É sintomático isso.

A droga é outra praga que demarcou seu território e vai se enraizando como um câncer dos mais periculosos. Ainda que muita discrição obviamente a rodeie, sabe-se que ela está entre nós corroendo o tecido social que, como em qualquer lugar, levam ao caos e a desordem. Seria demasiadamente irreal e utópico desejar viver numa cidade totalmente asséptica, livre dos tormentórios inseridos no contexto do homem nos quatro cantos do mundo. Mas uma condição de vida mais amena em relação às grandes metrópoles é a maior vantagem (e que vantagem!) da vivência interiorana, e não se pode permitir que os problemas rivalizem em intensidade e periculosidade com os de cidades grandes a neutralizar essa vantagem. À própria sociedade cabe a tarefa de pressionar as autoridades para estarem sempre alertas e atuantes para a situação não fugir ao controle.

Publicado em julho/2000

Violência em Bom Jesus do Norte é inquietante

A população de Bom Jesus do Norte está apavorada com a onda de violência que vem assolando o município, notadamente de um ano para cá. Assaltos, furtos, tráfico de drogas, estupros e latrocínios (assassinatos com objetivo de roubo) vêm paulatinamente reduzindo a sensação de cidade pacata e tranquila. Episódios assustadores ainda estão frescos na lembrança, como o assassinato do aposentado Dico por um fugitivo da Clínica de Repouso após invadir sua casa, à noite, presumivelmente para roubar; o do proprietário da carrocinha de cachorro-quente, saqueado após morrer a tiros em tentativa de assalto; o estupro simultâneo à violenta agressão de uma criança de 12 anos, grávida; o sequestro da família do gerente do Banco do Brasil de Bom Jesus/RJ, mantida em cativeiro perto da Ilha do Vicente por ladrões de banco; Invasões e furtos no comércio, como ao Supermercado 5 Irmãos, Mercadinho da Família e Frangão; tráfico de drogas em quantidade gradativa e alarmantemente crescente, evidenciada pelas últimas ações da polícia que chegou a apreender, dia destes, 1 kg de maconha prensada, e rotineiramente trouxinhas, papelotes, traficantes e viciados.

Esta sucessão de fatos medonhos anulam a suposição de mera coincidência pelo número proporcionalmente exorbitante de crimes, de natureza amplamente variada, considerando-se que vêm ocorrendo numa cidade em cujo perímetro urbano não vivem mais que 8 ou 9 mil pessoas, entre mulheres, crianças e idosos. Recentemente (no dia 5/2) mais um caso de latrocínio foi registrado, reforçando o clima de medo e apreensão dos habitantes. O cidadão Elizeu Evangelista foi encontrado morto em sua casa por asfixia e pedrada na cabeça. O dinheiro que trazia consigo sumiu, fato que evidencia o motivo do crime, deixando a comunidade de cabelo em pé.

Uma das poucas vantagens que têm os que habitam uma cidadezinha interiorana é exatamente o que os bom-jesuenses-do-norte estão perdendo: a tranquilidade. E conquanto este município seja brasileiro, e naturalmente sujeito às mazelas que afligem a nação, particularmente a violência crua e brutal, não pode, não deve, nem tem o direito de assisti-la com tamanha complacência como se vê aqui. Esta complacência, antes que os arautos da indignação nem sempre espontânea discordem com forjada veemência, não é dirigida a nenhuma instituição de modo específico, a nenhuma autoridade individualmente, mas a um conjunto de entidades que, na prática, está desentrosado. Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público, polícias Civil e Militar precisam estreitar mais os laços de união para reunir forças suficientes a combater um inimigo insidioso, que quando consolida a delimitação de seu território se torna terrivelmente implacável.

É natural num primeiro instante a surpresa pela constatação de que algo tão assustador se apresente sem cerimônias nestas paragens até então pacíficas, mas é necessária certa agilidade para se recompor do desconcerto e, usando o linguajar do futebol, contra-atacar na certeza de que a melhor defesa é o ataque. Urge uma mudança da mentalidade um tanto ingênua pela vivência provinciana (no bom sentido), a fim de tornar igual a perspicácia do estado paralelo com o Estado de direito, sobretudo eleger a inteligência e a mobilização como as mais adequadas armas de combate à bandidagem. Aliadas a elas, medidas repressivas mais vigorosas e abrangentes, como por exemplo a abordagem a grupos de desocupados em atitude suspeita altas horas pelas ruas da cidade, rondas policiais assíduas e insinuantes principalmente nas áreas mais remotas, atuações incisivas do Ministério Público, disposição e criatividade do Judiciário para driblar as imperfeições e as condescendências anacrônicas da lei, integração mais efetiva do Executivo e do Legislativo, mobilização da sociedade com campanhas agressivas que estimulem a denúncia anônima. Uma forte integração, enfim, dos mocinhos, para enfrentar bandidos sanguinários em igualdade de condições.

Impunidade, omissão e tolerância com o crime são os fatores que mais o incrementam, a gota d´água no copo transbordante de desemprego, injustiças econômicas, preguiça de trabalhar honestamente e exclusão social.

Publicado em fevereiro/2003

A violência entre nós

Li uma reportagem que me impressionou tão favoravelmente que me lembro até o ano. Em 1997 foi divulgada uma pesquisa na Austrália dando conta de que no ano anterior havia sido contabilizado um romântico número de 312 assassinatos em todo aquele país de, na época, cerca de 20 milhões de habitantes. Algo em torno de 15 crimes em cada um milhão de pessoas, ou 1,5 para 100 mil.

Não estamos na Austrália, nem em 1997, e a comparação não vem muito ao caso, mas ajuda a ilustrar o que se vê atualmente em Bom Jesus do Norte, que em menos de um ano teve quatro casos de assassinato, sejam passionais ou latrocínios. Quer dizer, quatro para uma população estimada em nove mil. Isto equivale, em termos comparativos ao do exemplo, que teríamos cerca de 10 mil assassinatos se fôssemos uma comunidade de 20 milhões de bom-jesuenses-do-norte.

Obviamente os trevosos acontecimentos aqui são reflexos da calamidade social que grassa pelo país, mas extremamente preocupante pela quantidade exagerada, sinalizando que algo não vem funcionando a contento. O tráfico de drogas, que cresce num ritmo assustador, como em todo o Brasil, o que mais fomenta a violência. A população, aflita, espera que suas autoridades policiais e judiciárias a mantenha inteirada das ações e reações, torcendo fervorosamente para que sejam veementes, objetivas e urgentes. Enquanto há tempo.

Publicado em fevereiro/2003

Ignara burguesia. Ou, a cara da violência. Ou, se não corrigirem as injustiças, cercas eletrificadas e cães de guarda nada resolverão

A violência que invade os quintais da burguesia e das autoridades brasileiras deixando-as perplexas foi largamente anunciada durante muito tempo de opressão e de miséria. E a cena se repete. Sob estarrecimento, discutem-se atabalhoadamente medidas inócuas de combate ao crime, procuram-se fórmulas mirabolantes, pensamentos concatenam-se de maneira febril para encontrar a saída, mas a cegueira não permite admitir que só há uma única via, propalada quase sempre de forma hipócrita e dissimulada, que tem o nome de justiça social. Prometida sempre, mas jamais parida, sua ausência sedimentou uma escalada tão brutal da violência que a ela já não mais fazem frente carros blindados, seguranças fisiculturistas armados até os dentes, cercas eletrificadas, ferozes cães de guarda e toda a parafernália eletrônica.

Emergindo dos guetos e da promiscuidade, cenários onde era restrita, a violência ganha o asfalto e se mobiliza contra as classes sociais que mais a fomentam, mesmo de forma inadvertida e não deliberada, uma espécie de criatura que se volta contra o criador. A burguesia brasileira não é melhor nem pior que as de todo o mundo. É mais bronca e estúpida, porém, porque pela sensibilidade toldada custou a perceber os clamores a cada dia mais intensos da imensa parte excluída, o que inibiu a noção do grande perigo que a ronda diuturnamente. Em países mais desenvolvidos, a elite já percebeu de há muito que não é inteligente comer tudo e deixar os pobres famintos, e, por conseguinte, raivosos.

No Brasil, 10% da sociedade detêm 50% da renda nacional. Em nenhum país do mundo a concentração é tão brutal. Em Ruanda, por exemplo, os 10% mais ricos abiscoitam 25% e até na Tailândia o número não passa de 37%.  A virulência das desigualdades sociais no Brasil é mais perversa quando se sabe que uma grande parcela dos miliardários adquiriu sua riqueza na “mão grande” mesmo, tirando indiretamente a merenda das crianças, o remédio da turba adoentada e todo e qualquer arremedo de avanço social. Não é de estranhar, portanto, o nível astronômico da violência que nos assola. Muitos dos que estão na vivenda do crime o fazem por absoluta falta de opção, pela mera necessidade de cavar o seu sustento.

Não há emprego no país, já que os investimentos jamais contemplam programas de desenvolvimento. Eles vão direto para a especulação, para o ganho fácil, em última análise bancado pela miséria. Os parcos recursos de tímidos programas dito sociais, invariavelmente vão engordar a conta bancária dos privilegiados. Jamais chegam a quem deles realmente necessita. Esse negócio de dar R$ 15 de esmola para o filho frequentar o colégio (e gerar publicidade estonteante do governo) é o cúmulo da desfaçatez!

Não haveria chance de o chefão do crime arregimentar jovens nas favelas se estas não existissem. Não haveria a necessidade de muitos cidadãos obter seu sustento de forma criminosa se o pudesse fazer de forma legal.  Claro que o crime sempre existiu e sempre existirá. Mas da forma como ocorre no Brasil e noutras repúblicas onde um único banqueiro abocanha os recursos que calaria a fome de milhões, não poderia ser mais ameno, Os recentes assaltos e sequestros sofridos por pessoas notórias, da fina flor social brasileira, e até a morte de personalidades são sinais apavorantes de que a ruptura de uma convivência harmoniosa está ocorrendo de forma medonha.

A elite está percebendo, a fórceps, que a indignação pela estarrecedora injustiça social está pulando seus muros e exigindo retratação urgente, com a cara da violência fitando com rebeldia o tubo de ensaio grandemente responsável pelo exagero de sua escalada, instaurando o terror e a desgraça impiedosamente.

Publicado em fevereiro/2001

De alcóolatra a atleta; uma história incrível de superação

Itamar Mello de Araújo vai fazer 40 anos de idade no dia 16/2/02. Nascido, crescido, vivido e continuando a viver muito bem em Bom Jesus do Norte, ele, no entanto, conhecera fases negras na vida, daquelas que de tão brutais pareciam insolúveis e que o levariam irremediavelmente à morte prematura por uma cirrose hepática ou outra qualquer intercorrência relacionada à bebida alcoólica, consumida com voracidade e de forma incontrolável.

Na auge da juventude — entre os 17 e os 25 anos — o vício inclusive do tabaco lhe causara devastação física e moral tamanha que Itamar, quando acordava invariavelmente após porres homéricos, recorria imediatamente a um copo americano cheio de cachaça para se aliviar da tremedeira involuntária, especialmente das mãos. “Era meu café da manhã. A primeira coisa que eu desejava. Todo o meu corpo tremia, os nervos em frangalhos. Eu não conseguia atravessar a ponte para trabalhar no açougue em Bom Jesus do Itabapoana sem a bebida”, conta ele.

Era um ciclo de horror. A cada dia o organismo pedia mais álcool, a degradação era tão grande que por vezes entrava em delírio e em coma. Não raro via monstros horrendos tentando devorá-lo, sentia-se perseguido por seres tenebrosos e chegou a tocar na maçaneta da porta da loucura. Tivera duas internações compulsórias na Clínica de Repouso de B.J. Itabapoana. Permanecera 20 dias na primeira vez e 65 na outra. “O tratamento lá foi bom”, reconhece Itamar. Com três anos de casado e uma filhinha de dois (hoje com 14), a mulher não resistira e o deixara. “Minha filha era órfã de pai vivo, minha mulher foi vítima da minha estupidez”, reconhece ele.

Em Araruama, para onde foi, a esposa ainda tentou uma reconciliação, na vã esperança de que em novo ambiente o marido pudesse se resgatar da maldição. “Não teve jeito”, confessou Itamar, “cheguei a tomar álcool puro, desses que vendem nos supermercados. Sem dinheiro, saía pelas ruas catando guimbas de cigarros para fazer o meu ´minrola´ (restos de tabaco enrolados em papel de pão)”, contou.

A radical transformação não foi nada fácil. Eliminar dentro de si a vontade da coisa foi um passo extenuante e sofrido que ele não lograria trilhar se não tivesse contado com ajudas preciosas, que prefere não revelar. Abandonou o álcool (tinha alucinações intensas e fissuras indizíveis), mas a continuidade do cigarro era uma espécie de muletas que o ajudava a capengar sem a bebida. Passou a caminhar, a correr. Certo dia, seguro de que queria fazer do esporte um contraponto a uma vida pregressa desregrada, de muita dor e sofrimento, abandonou também o fumo, “sempre contando com aqueles auxílios valiosíssimos”, faz questão de frisar.

O Itamar contemporâneo não é um atleta de ponta, detentor dos melhores rankings. Nem podia, até porque nem tem patrocínio, e os parcos recursos que aufere como empregado da loja de material de construção Matecol mal bastam para suas despesas pessoais. Só a força de vontade e a satisfação interior de ter se libertado da sarjeta, de ter vencido seu pior inimigo, e de ter se tornado uma espécie de exemplo de que para tudo há uma saída, bastando apenas querer, lhe dá ânimo para prosseguir.

Todo dia, chova ou faça sol, domingo ou feriado, lá está ele correndo seus 15 km ou fazendo os famosos “tiros”, que são corridas em alta velocidade de 400 e 1000 metros. Duas vezes por mês vai a Vitória/ES para competir ou se preparar para competições estaduais, como o Campeonato Capixaba, disputa esta que obteve o 2º lugar na categoria Veteranos, em 2001. Participou da famosa Volta da Pampulha, em Belo Horizonte/MG (18 km), e alcançou o tempo de 1h10min, ficando em 362º lugar em meio a 6.800 atletas; competiu na Meia Maratona do Rio (21 km), obtendo a honrosa colocação de 272º lugar entre mais de 7.000 corredores, com o tempo de 1h23min.

Em competições onde milésimos de segundos são tempos preciosos, esta 272ª colocação representou uma diferença de apenas 20 minutos em relação ao primeiro colocado, o queniano John Ntyamba (profissional das pistas), que fez com 1h03min. Entre outras disputas, Itamar participou da mais famosa competição internacional, a Corrida de São Silvestre, de São Paulo/SP, no ano passado. A 928ª colocação (se não tivesse errado o caminho algumas vezes certamente ela seria melhor), junto a mais de 17.000 corredores do Brasil e do mundo foi honrosa, dado o histórico de vida do atleta. Os mais de 16.000 competidores suplantados por Itamar jamais podiam supor que aquele “russo” de passadas largas que os superava estivesse intimamente tão feliz quanto o etíope campeão da Maratona, pois é também um vencedor!

Pela inspiração do seu exemplo, muitas vidas aparentemente perdidas podem ser resgatadas do vício, da dor e da exclusão social. Valeu, garoto!

Publicado em janeiro/2001