Aqui eu guardo meus escritos.

Obrigado pela visita.

Gentileza gera gentileza

Há uns cinco anos eu retornava de Itaperuna num ônibus da Empresa Brasil em horário de pico. Como eu o havia tomado na rodoviária, consegui um lugar sentado. Logo na saída daquela cidade, o coletivo encheu, muitas pessoas em pé. Na altura do cruzamento de Bom Jesus entrou uma idosa acompanhada de uma jovem. Incontinenti, cedi meu lugar à senhora (hoje não sei se o faria, sabe…, essas primaveras que teimam correr de forma alucinada já me fazem objeto e não agente da distinção!) Assim que levantei, a moça arregalou os olhos, colocou a mão na boca num gesto instintivo de surpresa, esforçando-se para acreditar no que estava presenciando.

Cá comigo, eu pensava em tempos um tanto, mas nem tão remotos, em que era impensável e absolutamente censurável uma pessoa mais jovem, sadia, não ceder seu lugar a uma idosa, a uma grávida, a alguém com criança de colo, a um portador de necessidades especiais, outrora simplesmente chamado de deficiente físico. A gentileza, lhaneza, amabilidade em todos os aspectos das relações humanas, antes predominantes, são hoje exceção. O egoísmo exacerbado da era em que vivemos é, a meu ver, uma das mazelas da humanidade.

Schopenhauer dizia que “todos sentem dor, mas ninguém sente a ausência da dor”. Egoísmo, narcisismo, arrogância são frutos dessa incapacidade de sentir a ausência, o que faz a dor, quando vier, ser mais intensa. Daí porque digo que este comportamento é pernicioso, porque vem de encontro ao próprio ser insensível. A charge do Júnior Lima retrata bem esse comportamento, principalmente por parte da juventude, que é a que mais não sente a ausência da dor.

Para encerrar: numa cidadezinha das redondezas, eu percebia a soberba entranhada em tantos aspectos do cotidiano, que até fiz um texto bota-fora do meu repúdio, de maneira bem-humorada. Leiam aqui e pensem se não é sua cidade que está retratada.

Publicado em julho/2013

Na Suécia, o mandatário maior arruma a própria casa. Que paisinho pobre, não?

 

Na Suécia não há corrupção nem mordomia para os políticos, disse a um amigo dia desses. Ele duvidou, achando que esse câncer insidioso, covarde e cruel faz parte da gênese humana e contamina o mundo todo (pessoas morrem em hospitais sem leito, crianças morrem de diarreia devido a água contaminada, ou melhor, lodo contaminado – quando há lodo – no Nordeste porque os recursos para pôr fim às desgraças brasileiras escoam nos sumidouros purulentos, putrefatos das mordomias e da corrupção). Então lhe mostrei uma reportagem dando conta de que lá não há luxo nem privilégios; deputados vivem em apartamentos funcionais de 40 m2, nenhum tem máquina de lavar (a lavanderia é comunitária e os deputados precisam marcar hora para lavar roupa). Alguns têm ainda menos espaço (18 m2), e para estes, até a cozinha é comunitária. Não há empregados domésticos, todos lavam a louça. O gabinete de um parlamentar também tem meros 18 m2, e nenhum tem secretária nem motorista particular.

Já o primeiro-ministro é um “privilegiado”: sua residência oficial é de 300 m2, mas não há empregados; o próprio é quem passa suas camisas e arruma a casa. A reportagem retrata uma nação em que tudo funciona, e bem. Farras aéreas não existem, já que nenhum político tem direito a passagens por conta do contribuinte. Todos precisam marcar seus voos na agência do Parlamento. Além do mais, se algum deles vacilar estará “no sal”, uma vez que a Justiça funciona pra valer e não existe imunidade parlamentar.

Claro que as realidades de Brasil e Suécia são distintas, a começar por aquilo que é preponderante para um país, que é a educação do seu povo. Mas a comparação entre a ralé que usa aviões da FAB e os cidadãos decentes que viajam em aviões de carreira, muitas vezes às próprias expensas, é grande demais para poupar os estômagos do vômito bilioso nosso de cada dia nos dai hoje!

Publicado em julho/2013

Turíbulo é para queimar incenso; coquetel molotov, para acender a insensatez

 

O cartunista Nani evoca a baderna que persiste na cidade do Rio de Janeiro por bandidos infiltrados nas merecidas manifestações contra o governador Sérgio Cabral. A polícia não sabe se age com o rigor que é necessário, caindo nas bocas de matilde de certos setores da imprensa e dos defensores dos coitadinhos depredadores e ladrões, ou não agir de nenhuma maneira (e aí também cair nas mesmas bocas de matilde que a acusam de inércia e pusilanimidade). Na charge, a PM está em ação, mas não precisava exagerar ao descer o cacete num religioso que está balançando o seu turíbulo, confundindo o objeto que libera fumaça com um coquetel molotov.

Coquetéis molotov são bombas incendiárias de fabricação caseira, feitas geralmente com uma garrafa cheia de gasolina ou outros produtos inflamáveis, com um pavio. Eles existem desde que foi descoberta a gasolina, mas o nome surgiu na Segunda Guerra Mundial. Soldados da extinta União Soviética (hoje Rússia) usavam esse tipo de arma improvisada para atacar soldados alemães. Algum deles deve ter pensado em batizar o artefato, então resolveram homenagear o então ministro das Relações Exteriores do seu país, Vyacheslav Mikhailovich Molotov (1890-1986).

Já turíbulo teria surgido depois do século IV, quando a tradição cristã adotou o incenso em seus rituais de consagração, e ainda hoje o queima para honrar o altar, as relíquias, os objetos sagrados, os sacerdotes e os próprios fiéis, e para propiciar a subida ao céu das almas dos falecidos no momento das cerimônias fúnebres.

Publicado em julho/2013

Pai e mãe entram em desespero ao ver filha morrer num hospital da Bahia

Um vídeo de arrepiar, de contrair todas as fibras de um ser humano que possua um mínimo de sensibilidade e uma gota de senso de solidariedade roda por aí nas redes sociais. O pai, estuporado, assombrado, desesperado; a mãe, convulsionada pela loucura. Ambos se abstraem da realidade, maneira única e instintiva de preservação, creio mesmo, das próprias vidas. Ela, chorando toda sua dor e mágoa, misturando oração e uivos lancinantes; ele, suplicando a Deus, acreditando que Ele ressuscitará a filha amada. Ao mesmo tempo amaldiçoa os políticos, e a balbúrdia de vocações aos céus, entremeadas com as pragas rogadas aos políticos infernais deste outrora sublime, ora nauseabundo Estado Brasileiro, é algo incrivelmente tocante, que decompõe as carrapetas mais resistentes para liberar uma aluvião de lágrimas. São cenas dantescas, chocantes, comoventes, de um dramatismo que o mais delirante autor ficcional é incapaz de produzir. Não há adjetivo nos dicionários que possam exprimir na plenitude o sentimento resultante da dor, misturada com raiva, com sede de vingança, com decepção, desesperança, fatalismo. Uma tragédia para além da exaltação criativa de Shakespeare!

Não tenho informações oficiais, tudo o que descobri foi lendo comentários de internautas sobre o episódio. Uma menina baiana que contrai o vírus da AIDS aos três anos de idade, em 1998, por um terrível erro do hospital que utilizou sangue contaminado numa transfusão; a sentença que condenou o hospital, mas o hospital que vem protelando o pagamento através de recursos, de firulas jurídicas interpostas numa Justiça lenta como cágado, culminando com a jovem morrendo sem ter visto a cor de um centavo sequer; e a própria morte da menina, que se tinha três anos em 1998, teria no máximo 18, isto é, na flor da idade. Sonhos, projetos de vida, tudo ruiu numa maca à espera de vaga numa UTI, que desgraçadamente não há porque… Não vou falar porque conseguiria exprimir adequadamente o que penso.

Não estou aqui a defender governos, sejam que diabo forem, e na verdade gostaria que toda essa gente infernal, com plumas, com estrelas, à esquerda ou à direita, no centro ou nas diagonais fosse para o diabo que as carregue. Enquanto o cidadão e a cidadã brasileiros não exigirem uma ampla, profunda reforma política, pouco irá mudar, seja Zé, João ou Chico o monarca de plantão. Mas raciocino com certa lógica, e ela aponta os responsáveis da hora a infelicitar mais os brasileiros, que desde 2003 (absolva-me, papa Francisco. Também dei um voto em 2002 àquele farsante, embora já no início de 2003 percebi a grande cagada que fiz) só o que fazem é ganhar eleições e subir nos palanques; subir nos palanques, ganhar eleições, que este negócio de governar não tá com nada, é conservadorismo, e o governo é “pogressista.”

Marketing, dissolução dos bons costumes, mentira, empulhação, roubalheira, ludibrio da boa-fé dos ignaros, a massa que os elege, é tudo o que fazem. Já nem digo educar o povo, porque é na ignorância que reside a galinha dos ovos de ouro dessa ralé. Mas ela, a ralé, é tão estúpida que vai matando até mesmo literalmente suas vítimas, vai roubando inclusive o bem mais precioso de um cidadão, de uma cidadã, que são os próprios filhos. Falo de lógica e exemplifico: aqui em Bom Jesus mesmo, há cerca de 10, 11 anos, tínhamos três hospitais de boa qualidade (Hospital Jamile Said Salim, em Bom Jesus do Norte/ES; Casa de Saúde Aurora Avelino e Hospital São Vicente de Paulo, em Bom Jesus/RJ). Hoje, temos meio, a metade de um. E este só não capitulou definitivamente devido às boas almas que o mantém na base das doações e de abnegados que tentam a todo o custo impedi-lo de fenecer. Falo do São Vicente, que sequer uma cirurgia de média complexidade pode realizar porque está com a UTI e o Banco de Sangue fechados há três ou quatro anos!

Leitor, leitora. Proponho-lhes lutar. Aproveitando o termo do momento, precisamos implementar uma jornada do esclarecimento. Com paciência e altas doses de didatismo, fazermos com que nossos conhecidos que tenham menor nível de informação entendam que estão alimentando o próprio verdugo. Tentem ajudá-los a mudarem os conceitos, a firmarem novas convicções. Está claro que precisamos derrubar esse governo, mas não simplesmente colocarmos outro diferente no lugar e tudo bem. Esse outro terá de entrar temendo a massa, comprometendo-se a revolucionar o sistema, sob pena de os retirarmos antes da hora com uma barulheira infernal nas ruas, nas redes, nas instituições. Não dá mais, gente, suportarmos tanto escárnio.

Só quem é pai e mãe pode aferir, mesmo assim superficialmente, se não passou pela tragédia, quão dilacerante é a dor da perda de um filho na mais tenra idade!

“Senhor Deus dos desgraçados!  
Dizei-me vós, Senhor Deus!  
Se eu deliro… ou se é verdade  
Tanto horror perante os céus…  
Ó mar, por que não apagas  
Co’a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?…  
Astros! noite! tempestades!  
Rolai das imensidades!  
Varrei os mares, tufão!…”

Somos os astros, as noites, as tempestades, os tufões que Castro Alves tão bem evocou.

Publicado em julho/2013 

Eu avisei, Dilma. Livrar-se do sufixo enta, que lembra anta, indicaria querer mudar ao menos para se livrar dos brincalhões

Claro que a presidente Dilma não leu o post deste escriba interiorano, no qual eu a aconselhava a dar uma guinada de 360 graus em sua gestão começando por abolir a besteira de fazer questão de ser chamada presidenta, com “a” de azar. Eu dizia também que ela deveria dar uma guinada de 360 graus na sua política de coalizão, romper as amarras da ortodoxia, do status quo reinante, única forma de poder continuar governando de verdade, e quem sabe até recuperar um pouco a popularidade varrida no turbilhão das manifestações (aqui).

Pena. Vai continuar a fazer a festa de chargistas e brincalhões da rede. Pior: continuará amarrada na boca do sapo da politicalha que oprime os brasileiros e inferniza o Brasil.

Publicado em julho/2003