Aqui eu guardo meus escritos.

Obrigado pela visita.

Carlos Borges Garcia: um bom-jesuense injustiçado

O ex-prefeito de Bom Jesus do Itabapoana, de 87 anos, é um personagem que não tem em vida o reconhecimento pleno que poderá ter na História, se inculcada nas pessoas por memorialistas com vontade férrea de alinhavar os remendos de consciência e os farrapos de informação e de cultura a que foi reduzida parte considerável da sociedade. Diferentemente de agora, em que a inversão de valores atinge o ápice da insensatez de cultuar ladrões e enxovalhar a retidão e o mérito, é possível que as gerações vindouras infiram o devido valor a esse homem indubitavelmente honesto, capaz, apaixonado por trabalho, mais ainda por sua cidade.

Muito já se escreveu e se falou sobre Carlos Borges Garcia, de suas fecundas realizações na iniciativa privada, sobretudo na administração pública. Aqui neste espaço fica registrada a convicção de que foi o prefeito mais realizador do município nos idos pregressos, aquele que imprimiu marca própria, inconfundível, em todos os quadrantes de Bom Jesus do Itabapoana e dos distritos, numa trajetória iniciada em 1962 (até 1966) como secretário de Obras do então prefeito Oliveiro Teixeira. De janeiro de 1967 a janeiro de 1971 foi vice-prefeito na chapa de Jorge Assis de Oliveira e prefeito quatro vezes: janeiro de 1971 a janeiro de 1973; janeiro de 1989 a dezembro de 1992; janeiro de 1997 a dezembro de 2000 e, por último, de janeiro de 2005 até outubro de 2006, quando se licenciou por questões de saúde.

Suas vigorosas arremetidas no quesito “Obras” o levou a construir a Secretaria de… Obras (Complexo Administrativo Adélia Bifano), para poder melhor interagir nas demandas bom-jesuenses, onde chegava religiosamente às 7 da manhã todos os dias. Nos tempos em que não se conhecia Dengue, Zika e Chicungunya, Garcia realizou a grandiosa conquista, para os padrões locais, da canalização do Valão Soledade, que acabou com o mau-cheiro e o visual deprimente de décadas (hoje, mais que nunca, de incalculável importância sanitária). Construção do Cais da Beira-Rio, Polo Industrial e Comercial da Nova Bom Jesus, Barragem de Pirapetinga, Passarela da Amizade, Praças e Logradouros, Escolas, Ginásios Esportivos, Laguinho, Urbanização, instituição do Transporte Universitário, entre outros, são feitos e implementos que formam a espinha dorsal do município, sua identidade cuja holografia é um estiloso CG .

Com um diferencial: ao invés do “rouba mas faz” que marca reputações de expoentes políticos deste e d´outros tempos imemoriais, Carlos Garcia poderia ter adotado o seguinte epíteto: Faz e não rouba. O dinâmico realizador foi um servidor e homem probo, de integridade moral irretocável, que até opositores ferrenhos reconhecem. Fosse ele forjado numa lavra de cidadãos oportunistas, dissimulados, adeptos do famoso jeitinho brasileiro, íntimos das firulas jurídicas, e principalmente tivesse enriquecido com a política, sua cassação e a do seu vice Paulo Sérgio Cyrillo muito provavelmente não tivesse acontecido. Ele foi punido por falar a verdade, sem rodeios nem subterfúgios: “Rifei um apartamento de minha propriedade. Um imóvel modesto, comprado com o resultado do meu próprio trabalho para angariar recursos para a campanha”. (A cassação se deu em março de 2008, com Garcia ainda em licença médica e Cyrillo no cargo).

Foi uma estocada brutal em quem fazia jus encerrar a carreira política de um jeito triunfante, esfuziante de consideração e apreço, mas que acabou de forma melancólica. Merecia Carlos Garcia ter-se recolhido ao recesso do lar e à algazarra de netos e bisnetos sem este absurdo dos absurdos que a desembargadora relatora do processo teria escrito no despacho sobre a rifa incidental: “É necessário zelar pela moralidade da administração pública… Admitir que um candidato tivesse financiado sua campanha com dinheiro sujo, e tenha acesso a um cargo eletivo desse modo, é considerar que o povo brasileiro possa ser representado por alguém desprovido de requisitos morais”, disparou a excelentíssima.

Acima da letra fria da Lei existem exemplos à mancheia de atos, atitudes e ações que a Justiça relativiza, chegando ao cúmulo de manter livre no país um cidadão que até um mês atrás seria preso pela Interpol no momento em que pisasse qualquer solo estrangeiro. Livre, dando cartas e jogando de mão na política. Já aqui, o sentido de gratidão, nos estertores, ferido de morte, recebeu recentemente, no dia 17/3 o tiro de misericórdia disparado pela Câmara de Vereadores ao rejeitar as contas de 2006 de Garcia. Foi a estocada final no “criminoso” que, além de se eleger com “dinheiro sujo”, sujou também as contas depois (embora o julgado, formalmente, tenha sido Cyrillo).

O “crime” apontado pelo Tribunal de Contas, que recomendou a rejeição referendada pelos vereadores foi a perda do prazo para entrega de documentos, burocracia que significou zero prejuízo para os cofres públicos. Mas o Legislativo, instituição eminentemente política que não é obrigado a cumprir tecnicidades produzidas pelo TC dobrou os joelhos e disse amem. Ao contrário de como fez em 2003, que em circunstância análoga foi contra o Tribunal e manteve o mandato do então prefeito Miguel Motta. Tomando emprestada a sentença de um jornalista, “tem gente que estuda cada vez menos sobre cada vez mais até saber nada sobre quase tudo”, a sensação que fica é que o mérito da matéria foi julgado com a severidade envernizada pelos interesses da política, que alguém já dizia ser a 2ª profissão mais antiga do mundo.

Carlos Borges Garcia, um dos que mais lutaram por exceções à regra, emerge dessa “segunda profissão mais antiga” com a altivez dos simples e grandes homens. Seu nome triunfante paira solenemente sobre a traição, a maledicência e as injustiças, ridicularizando as nulidades reinantes. E se perenizará como um destacado verbete grafado em bela página da História de Bom Jesus nas mentes e nos corações dos justos!

“Quem comete uma injustiça é sempre mais infeliz que o injustiçado”. – Platão

Publicado em março/2016 

Carlos Borges Garcia: fragmentos de uma biografia autorizada

Uma união estável e feliz. Na foto clicada em 20/12/1951, o dia do SIM. A partir da esquerda, casais Agostinho Boechat e Iracema Seródio Boechat; Agenor Boechat e Carolina Borges Boechat (pais da noiva); os recém-casados Maria José Boechat Garcia e Carlos Borges Garcia; Ana Elzira Borges e Josino Garcia (pais do noivo) e Carmozina Borges e Alípio Garcia Campos

A direção do Jornal Repórter amadurecia há algum tempo a ideia de produzir uma matéria de teor biográfico com o ex-prefeito de Bom Jesus do Itabapoana, Carlos Borges Garcia. Duas dificuldades, no entanto, se nos deparavam: a personalidade reservada, comedida, a simplicidade, o homem econômico de palavras, em cujas poucas que se conseguem convencê-lo pronunciar vêm sem nenhum paramento de indignação, de rancor, de retaliação. No dicionário de Carlos Garcia não existem adjetivos negativos fortes, nenhuma palavra pejorativa. Seu gestual denota um homem sereno, calmo, compreensivo, que transmite paz e segurança ao interlocutor. E muito embora não seja intenção do jornal difundir catilinárias, acusações e desagravos fora do contexto, de forma gratuita, faltarão detalhes significativos pelo lado da maledicência e do oportunismo dos arrivistas que fazem da política um meio de vida. Respeitamos, todavia, o modo de ser do “seu Carlos”, cuja sabedoria pode escapar à nossa percepção, talvez nos instigando a lembrarmos que o silêncio às vezes costuma ser mais eloquente que milhões de palavras.

Por outro lado, esse seu modo de ser favorece o entendimento, é típico de vários líderes carismáticos e respeitados, daí a reputação conquistada de se ter transformado num dos homens públicos mais importantes para Bom Jesus em sua prolífica seara cultivada ao longo de tanto tempo em prol de sua gente. Por ironia pode também tê-lo prejudicado na torpe injustiça cometida contra si justamente naqueles que pareciam ser os seus últimos anos de labor antes de pendurar as chuteiras e desfrutar da aposentadoria mais que merecida. Fosse Garcia forjado numa lavra de homens oportunistas, dissimulados, loquazes e mentirosos, adeptos do famoso jeitinho brasileiro, íntimos das firulas jurídicas, e principalmente tivesse enriquecido com a política (coisa muito comum hoje em dia), a cassação do seu vice Paulo Sérgio Cyrillo (na verdade a cassação do próprio Garcia, já que ele, Garcia, se encontrava em licença por questões de saúde), nunca, jamais, em tempo algum teria acontecido. Ele foi punido por falar a verdade, sem rodeios, sem subterfúgios: “Rifei um apartamento de minha propriedade, sim. Um imóvel modesto, comprado com o meu próprio trabalho, para angariar recursos para a campanha.” Bastava que ele fizesse como um famoso político paulista (sem o sotaque, claro): “Esse apartamento não é meu; essa assinatura não é minha.” Pronto. Resolvido. “Neste último mandato a gente sofreu muito. Rifamos um apartamento que era nosso. A gente nunca esperava isso do Miguel Motta. Tivemos de gastar dinheiro com processo… Foi tudo tão lamentável…”, disse a esposa de Garcia, Maria José. (Mais detalhes do episódio, aqui).

A segunda dificuldade seria a de não ultrapassarmos a barreira da objetividade e o limite da adjetivação, que poderiam soar piegas, já que nos sobra em admiração o que em Carlos Garcia parece faltar em noção da plenitude de sua importância como cidadão temente a Deus, exemplar chefe de família, hábil empreendedor e acima de tudo um homem público de têmpera, íntegro, dinâmico, idealista, ético e realizador como poucos. Tal como outros grandes vultos bom-jesuenses, Carlos Borges Garcia confunde-se com a identidade de Bom Jesus. Ele e sua cidade querida — pela qual dedicou cerca de 60 anos de trabalho ininterruptos — formam um único ser, em simbiose. A História lembrará às futuras gerações o conceito de probidade, de lisura, de disposição para o trabalho, de atenção sincera para com seu povo. Essas gerações terão apenas de acessar no banco de dados da história política e administrativa bom-jesuense o verbete Carlos Borges Garcia, que estará grafado numa de suas mais belas páginas.

Carlos Borges Garcia, nascido a 15/11/1928 em Bom Jesus do Itabapoana (completará, portanto, na mesma data da Proclamação da República, dia 15 de novembro próximo, 81 anos de idade), é filho de Josino Garcia de Figueiredo e Ana Elzira Borges Figueiredo. Casou-se em 20/12/1951 na Igreja São José do Avahy, em Itaperuna, com Maria José Boechat Garcia, tendo tido com ela quatro filhos: Carlos Alberto, Luiz Fernando, José Antônio e Carla, todos complementando o primeiro nome com o sobrenome Boechat Garcia. Seus nove netos são: Vitor Galo Garcia, Artur Galo Garcia, Fernando Couto Garcia, Felipe Couto Garcia, Isabela Freitas Garcia, Gabriela Freitas Garcia, Lúcio Garcia da Fonseca, Carolina Garcia da Fonseca e Lígia Garcia da Fonseca, que por suas vezes lhes deram três bisnetos: Pedro Henrique, Maria Eduarda e Matheus.

“Sou prima do Carlos, mas quando eu tinha 14 anos, não o conhecia, porque eu morava em Itaperuna e ele em Bom Jesus”, conta Maria José (imaginemos a dificuldade de comunicação e de transporte da época, segundo ela, idos de 1948). “Aí vim à Festa de Agosto em Bom Jesus, fiquei hospedada na casa de uns amigos no Barro Branco. Então o conheci, ficamos paquerando, mas logo em seguida ele foi para o Rio de Janeiro e só voltou em 1950, mas sempre me mandando cartas. E no Carnaval de 1951 ficamos noivos e nos casamos no dia 20 de dezembro daquele ano”, completa ela.

Um fato muito comum aconteceu também com o casal: os três primeiros filhos foram do sexo masculino, e nada mais natural que esperassem uma menina para completar o quarteto. “A gente já nem tinha tanta esperança, mas quando veio a Carla, o Carlos ficou num contentamento tão grande que não se cansava de repetir: ´ela é linda, como é bonitinha´”, conta Maria José. Aliás, os pais viveram e vivem em perfeita harmonia com os parentes. “Meus filhos, netos, noras e genro são muito esforçados, estudiosos. Não temos nenhum atrito familiar”, revela o patriarca. “Os filhos, a família, são a nossa maior alegria”, complementa a esposa.

A investida de Garcia no lado empresarial foi no ramo dos materiais de construção (o quase fanatismo pela realização de obras não é mera coincidência). A OACIL, loja de materiais de construção diversos e a CEMACO, de madeiras, foram duas das instituições que ele comandou por muito tempo com extraordinário tino comercial. Foi presidente do Centro Popular Pró-Melhoramentos de Bom Jesus por três vezes e três vezes presidente do Hospital São Vicente de Paulo, instituição vinculada ao Centro (hoje cada qual tem a sua própria diretoria). Foi também presidente da CAVIL (Cooperativa Agrária Vale do Itabapoana) e três vezes presidente do Rotary Clube, tendo recebido uma bonita homenagem em 2006 pelos “50 anos de rotariano.”

Na política, iniciou sua trajetória em 1962 (até 1966) como secretário de Obras do então prefeito Oliveira Teixeira. De janeiro de 1967 a janeiro de 1971 foi vice-prefeito na chapa de Jorge Assis de Oliveira. Foi prefeito quatro vezes. Seu primeiro mandato foi de janeiro de 1971 a janeiro de 1973; o segundo, de janeiro de 1989 a dezembro de 1992; o terceiro, de janeiro de 1997 a dezembro de 2000; e o último, de janeiro de 2005 até outubro de 2006, quando se licenciou por questões de saúde no mandato consagrado pelas urnas para ficar até dezembro de 2008. Das campanhas que participou, só perdeu a de 1982.

“Quando foi prefeito pela primeira vez ele ficou muito feliz. Teve muitas alegrias”, conta Maria José. Mas ela diz que as decepções também foram muitas. “Às vezes, amigos da gente, que trabalham com a gente, se separam, sem mais nem menos.” E conta um fato que a marcou especialmente: “uma pessoa que trabalhava conosco, inclusive na loja, nos deixou por causa de um adversário político e está com ele até hoje. Não tenho nada contra, mas a gente fica…”, não consegue completar as palavras de tristeza e decepção. E continua ela: “nas campanhas a gente fica muito impressionada com algumas coisas, mas não vale a pena comentar. A falsidade na política é muito grande; de 1 a 10, dou 10 para a falsidade. A gente tem muita decepção. Hoje em dia é tudo por interesse, não é não Carlos?”, procura a concordância do marido, que faz um gesto de mão como quem diz “deixa pra lá”.  A esposa complementa: “a vida é assim mesma. Tinha uma pessoa que estava trabalhando conosco, era companheira há muito tempo, mas o outro (adversário) deu mais um pouquinho e ele fingia que trabalhava pra gente, mas estava trabalhando pro outro.”

Em compensação, Maria José cita o batalhão de amigos cultivados, que para eles são mais que preciosos. “Nós temos muitos amigos. Até hoje a gente anda na rua e as pessoas falam que o Carlos está muito bem, e que até pode voltar para a prefeitura ainda (risos). São tantos…”, dá uma pausa para consultar a memória. “Dos que já se foram, o médico Rubens Madalém foi um fiel amigo. O Jorge de Assis…, o Oliveira Teixeira…, o deputado Roberto Silveira, grande destaque na política…, ih.., são tantos que já se foram…, às vezes a memória não ajuda”, destaca Maria José. Dos amigos vivos, o casal prefere não citar nomes porque, sendo grande a quantidade, pode haver o risco da injustiça de uma omissão.

Sobre a política atual, Maria José é taxativa: “acho errado colocar uma pessoa que não ganhou (as eleições)”. E aponta um líder atual que admira: “hoje, se eu pudesse votar, votaria no Paulo Sérgio Cyrillo, porque eu o achei muito bom, trabalhou direitinho. É um bom candidato”. Sobre o próprio futuro político, Garcia admite: “Estou com mais de 80, próximo a 81 e já cansado para assumir função pública. Não assumirei mais.” Dá uma pausa e ressalta: “Mas gosto de participar.”

E a propósito do que disse o marido, Maria José relembra: ” Carlos todo dia estava às 7h da manhã na Secretaria de Obras. Depois ia para outros setores e ficava no gabinete. E quando voltava às 8h da noite, ainda recebia gente que vinha procurá-lo. E ele sempre atendia a todos com muita paciência. Até hoje ainda vem gente conversar com ele aqui em casa.” E censura: “É muito errado o prefeito não atender o povo. Na época da campanha agrada todo mundo, então deveria reservar uns dois ou três dias da semana para atender o povo, porque na hora de ganhar o voto… As pessoas ficam até mais satisfeitas com a atenção do que se dessem alguma coisa para elas. É uma falta de humanidade. A pessoa chega e não é atendida? O que é isso? Mesmo que para dizer um não, tem que receber as pessoas.”

Finalizando, Maria José economiza nas palavras: “a gente pede a Deus que nos dê saúde e um bom futuro para o nosso povo.”

 

DEPOIMENTOS

Um homem que marcou a história de Bom Jesus

Presidente da Cavil, José Fontes

“Conheço o Carlos há praticamente 60 anos. Em todas as eleições em que ele foi candidato eu votei nele. Tenho o maior respeito por ele como homem, chefe de família e principalmente como político. Especialmente nos dias de hoje, ele é um exemplo de político honesto, sério e principalmente competente.

Fui presidente da CAVIL de 1979 a 1985. Em 1985 decidi não assumir cargo nenhum na Cooperativa. E indiquei o Carlos em 1985, e como era propósito meu, não fui mais diretor da Cooperativa. Mas em 1991 cheguei uma tarde em casa e estavam lá na minha varanda o Carlos Garcia, prefeito de Bom Jesus do Itabapoana, o José Vieira de Rezende, prefeito de Calçado, o Tadeu Batista, prefeito de Bom Jesus do Norte e o Aladir Chierice, prefeito de Apiacá. Eu até me espantei com quatro prefeitos na minha varanda. Então eles disseram que foram me intimar a ser presidente da CAVIL outra vez, porque a diretoria havia renunciado. “Então pensamos em você assumir numa época em que a cooperativa está em crise.” Mas eu falei que não queria, que havia prometido à minha mulher. Então ela apareceu e disse: “por mim você está liberado. Aí meus argumentos foram por água abaixo.” Então eles disseram: “vá tomar o seu banho que só sairemos daqui depois de ouvirmos o ´sim´.”

Tenho uma ligação muito grande com o Carlos. Em dois mandatos eu era o presidente do PL, partido que mais deu votos a ele. Nós elegemos o segundo mandato do Carlos, o mandato seguinte do Moreira (ex-prefeito Álvaro Moreira, apoiado por Garcia) e o terceiro do Carlos. Ele é um homem que marcou a história de Bom Jesus. Em qualquer canto do município que você for você vai encontrar obras de Carlos Garcia. Foi o homem que mais vestiu a camisa de Bom Jesus. Só peço a Deus que lhe dê muitos anos de vida e à sua família, porque a imagem dele só nos ensina, ele é um professor, que Deus o mantenha por muitos e muitos anos ainda para continuar nos ensinando.”

Com ele era sim, sim, não, não

Ex-vereador José Antônio Rangel

“O Carlos foi uma novidade na política, porque era um cidadão com o pensamento dele, de fazer política séria. Não era elemento de agrados, de afagos, que normalmente os políticos fazem. Era sempre muito positivo, até meio autoritário. E ele estava certo. Porque na história de Bom Jesus, até hoje, é o único que conseguiu quatro mandatos de prefeito. Então é um homem que soube fazer política, soube fazer amigos. É um administrador extraordinário.

Um homem que tem sua vida marcada no Centro Popular, no Hospital, no Rotary (foi um dos fundadores), na CAVIL. É um elemento que viveu e vive pela comunidade, se sacrificou muito por essa comunidade, até sua própria família, para se dedicar às coisas de Bom Jesus.
Ele realizou muita coisa, andou em dia com os compromissos da prefeitura, fez muitas obras importantes, como a do Valão Soledade e aquela praça maravilhosa (da Bíblia). Acho que nenhum administrador consegue fazer uma obra desse porte. No seu primeiro mandato fez o cais da Beira-Rio, uma obra que até hoje marca a administração. Fui líder dele na Câmara, e tenho muito boas lembranças dele. Quero parabenizar o jornal, porque é muito bom homenagear um cidadão ainda em vida. O jornal vai marcar um grande tento.

Ele tinha umas tiradas interessantes, aquelas suas expressões, era muito franco, não deixava para amanhã. Com ele era sim, sim, não, não. Isso foi uma das coisas que marcaram sua vida e angariavam o respeito de todos. Quando ele dizia que iria dar um jeitinho você podia ficar tranquilo, mas quando dizia não, dizia com muita tranquilidade, não tinha cerimônia. Sou muito feliz por ser amigo dele de 30, 40 anos e até hoje tenho o prazer e a satisfação de ser muito ligado ao Carlos. Diziam até com muita ironia que eu era o testa-de-ferro dele. Mas não era. Eu sempre fui amigo fiel. Porque é uma pessoa que todos admiramos muito e Bom Jesus deve muito a ele. Todas as vezes que ele empunhava uma bandeira eu estava junto.”

É um homem exemplar na vida pública

Advogado e ex-vereador Luciano de Souza Nunes

“Comecei na política em 1970 e aprendi a fazer política com o Carlos Garcia. Aprendi a respeitar e a seguir os seus conselhos devido à sua integridade, altivez, sua probidade, um cidadão de serviços prestados que não tem outro igual. Tive uma fidelidade com ele desde 1970 até quando largou a política. Aliás, não sei se largou, de repente volta. É um homem exemplar na vida pública. Temos uma história em Bom Jesus que se chama Carlos Garcia. Ele foi penalizado por ser uma pessoa honesta, que não fez negociação com ninguém, com nenhum grupo político. Ele dispôs de um bem que pertencia a ele. E ele foi penalizado por ser um homem de bem, não mentiu, falou a verdade.

Quando a pessoa ia conversar com o Carlos Garcia, tinha de fazer um exame de consciência antes; se aquilo que ele ia conversar era para um bem individual ou um bem coletivo. Se fosse pedir algo para si, recebia um não na hora. Mas se fosse para a coletividade, o Carlos Garcia atendia e quando não atendia dizia o porquê.”

Foi o melhor patrão que tive

Ex-vereador Celso de Rezende Teixeira

“Trabalhei com Carlos Garcia por mais de 15 anos. Sem dúvida alguma foi o melhor patrão que tive em meus 48 anos de vida. Aprendi muito com Carlos Garcia através de seu exemplo de homem íntegro, honesto, bom chefe de família, empresário bem-sucedido e modelo de dedicação ao povo de Bom Jesus. Recordo-me que certo dia manifestei minha preocupação com os riscos que ele corria em avalizar para tantas pessoas. Ele me respondeu: ´Celso, não posso deixar de estender a mão a um companheiro que passa por um momento difícil e precisa do meu aval. Porque se por falta desse aval ele vier a perder o seu comércio, o seu ganha-pão, seus filhos, ao me virem passar, poderão dizer: lá está o homem que negou ajuda ao nosso pai. E isso eu não posso permitir que aconteça´, decretou Carlos Garcia.

Muito me honra ter sido seu funcionário, seu parceiro político, dando minha parcela de contribuição em algumas conquistas eleitorais de Carlos Garcia, trabalhando com entusiasmo em campanhas memoráveis, tendo sido inclusive o tesoureiro de sua campanha a prefeito em 1998. Rogo a Deus que conceda muita saúde a Carlos Garcia, para que possamos continuar a contar com sua liderança em conquistas maiores para o povo bom-jesuense.”

É necessário que os nossos jovens que não conheceram o Carlos Garcia, tenham a oportunidade de conhecerem esse valor, esse patrimônio político

Ex-vereadora Maria Áurea Mansur Hobaica

“O Carlos Garcia é um modelo de político porque preenche todos os requisitos. Primeiro a família, o respeito, a religiosidade, ele e sua esposa são pessoas religiosas, de uma tradição familiar. Seu pai Josino foi um grande negociante, um grande político. O Carlos estudou, foi para o Rio (de Janeiro), aprendeu, foi o primeiro a conhecer e a produzir o leite B. Sempre grande empreendedor. Na época que o hospital esteve no auge, foi quando ele foi presidente do Centro Pró-Melhoramentos e do próprio hospital. Em tudo o que ele entrou, foi bem-sucedido, porque também teve a sombra da esposa. A mulher dele sempre deu aquela sustentação, aquele equilíbrio familiar. Nenhuma primeira-dama foi tão eficiente no trabalho social do que dona Maria José realizou. Ela é aquela pessoa dinâmica, sempre ao lado dele, mas sem interferir, sem se preocupar em aparecer. A preocupação dela foi sempre dar o equilíbrio.

O Carlos é um patrimônio político de Bom Jesus. Até quero cumprimentar o jornal pela feliz ideia, porque é necessário que os nossos jovens que não conheceram o Carlos Garcia, tenham oportunidade de conhecerem esse valor, esse patrimônio político. É importante que os jovens vejam que existem políticos honestos, idealistas. Eu me lembro que ele sempre falava: meu partido é BJI — Partido de Bom Jesus. Ele nunca teve a preocupação se era esse ou aquele governador (do estado). Ele queria se relacionar bem com todos para conseguir as coisas para Bom Jesus.

As maiores características de Carlos Garcia são a honestidade, a integridade, e ser um grande administrador. Ele gostava de fazer obras, foi um grande fazedor de obras. Até aquela parte que ele organizou no município, os distritos, os morros (Pimentel Marques não tinha ruas calçadas, ele fez escadarias, deu dignidade àquele povo). O objetivo maior dele era fazer por Bom Jesus. É muito difícil ter um político tão honesto quanto ele. Ele tinha um grande espírito de equipe. Ele decidia, mas tinha a qualidade de ouvir. Ele tinha o sentido de equipe. Muitas vezes voltava atrás nas decisões para ouvir seus colaboradores. Ele tinha conhecimento de tudo. Conversava com os secretários. Queria saber de tudo o que estava acontecendo. Quando ele chamava uma pessoa (para ocupar algum cargo) é porque era da confiança dele. Mas ele tinha de ter conhecimento de tudo o que se passava. E fazia questão de ouvir também o povo. Ele estava sempre disposto a atender e ouvir as pessoas. Ele não ficava só no gabinete. Ele visitava as obras, conversava com os funcionários, tinha uma dedicação, não gostava de ponto facultativo. Ele foi um grande administrador.”

A gente sente a falta de apoio que a Justiça negou a esse homem. Mas sua integridade é tão superior que ele não se importou com isso

Ex-servidor do Estado do Espírito Santo, ex vice-prefeito e ex-prefeito em exercício Paulo Sérgio do Canto Cyrillo

“Tenho um assunto interessante para comentar. Já há bastante tempo, antes de me tornar candidato a vice-prefeito, eu era funcionário da Fazenda do E.S., naquele momento eu era chefe da fiscalização no E.S., divisa com o R.J. Num determinado momento eu estava no Pitucão almoçando com alguns colegas chefes do E.S. e encontrei lá o prefeito Carlos Garcia. Apresentei meus colegas a ele. E quando o Carlos Garcia ia saindo ele me falou: ´Olha, Paulo Sérgio, seu lugar não é lá não, seu lugar é aqui em Bom Jesus (do Itabapoana). E depois fui convidado a ser vice na chapa dele. Ganhamos a eleição trabalhosa em 2004. Mas ele já vinha debilitado, até que num determinado momento ele me pediu que queria descansar um pouco. Assumi, toquei o barco, tentei melhorar o que pudesse. Mas em determinado momento recebo uma cassação.

Mas eu vi a Justiça caçando na verdade o Carlos Garcia, e aquilo me deixou muito decepcionado, porque Carlos Garcia sempre foi de uma integridade moral inatacável, indiscutível. E eu tive de entregar o mandato. Pela primeira vez na história de Bom Jesus um prefeito foi cassado, justamente um dos que mais lutaram politicamente pela cidade: Carlos Garcia. Foi um absurdo! E o maior dos absurdos foi quando uma relatora do processo, uma desembargadora, que, parece claro, não deve ter visto, muito menos ter conhecido Carlos Garcia, escreveu no seu despacho sobre a rifa de um apartamento dele — não tomou dinheiro de ninguém para comprá-lo. A relatora disse: ´É necessário zelar pela moralidade da administração pública. Admitir que um candidato estivesse financiando sua campanha com dinheiro sujo, e tenha acesso a um cargo eletivo desse modo, é considerar que o povo brasileiro possa ser representado por alguém desprovido de requisitos morais.´

Olha, isso é um absurdo! Se essa desembargadora refletisse no que ela escreveu, tenho certeza de que até ela iria se arrepender. Porque o Carlos Garcia sempre foi uma pessoa íntegra. E a prova disso é conversar com ele, ver o que ele tem hoje, tendo sido quatro vezes prefeito. A gente sente a falta de apoio que a Justiça negou a esse homem. Mas sua integridade é tão superior que ele não se importou com isso. Ele é uma pessoa humilde. Mas eu fiquei revoltado quando li aquilo. E não pararei de falar não. Vou aguardar um determinado tempo e aí vamos começar a cobrar. Não vou abandonar a política porque fui convidado por Carlos Borges Garcia, e vou continuar honrando o convite que ele me fez.”

Publicado em setembro/2009 

Um deserto sombrio de ideias. Continuamos a ver velhos santinhos com novas roupagens

A temporada de caça aos votos é a desenvoltura da dissimulação. Claro que não se pode desejar que de repente comecem a dizer “verdades desfavoráveis”, mas este senso pernicioso se sofisticou e se personificou tanto na grande maioria dos políticos, que uma e outros se tornaram indissociáveis. Mesmo a juventude (imaginem a velhitude) está cansada, extenuada com as obsoletas, anacrônicas e vãs promessas disso e daquilo, de extinção da pobreza, da violência, do analfabetismo funcional. Quantos milhões de iris cintilaram em épocas pretéritas apenas com a imaginação de quão lindas, maravilhosas e funcionais se tornariam suas cidades, seus recantos, prometidos por aqueles que produzem maravilhas somente para seus egos cêntricos e centros de seus egoísmos.

No mais, tudo continua a Deus dará, como sempre foi, é, e sempre será. Até a criatividade e o preparo intelectual havidos aqui e acolá foram abduzidos, para acentuar o desgosto da plebe que ao menos alimentava sonhos com enunciados palanqueiros bem alinhavados, consistentes, com um simulacro de conhecimento dos problemas e uma boa tese para resolvê-los. Mas qual! Continuamos a ver velhos santinhos com novas roupagens acenando merenda de qualidade (como se não fosse obrigação), aumento de servidores nos dois sentidos (salarial e inchação da máquina), terraplenagem, uma creche, umas pedras nas ruas, uma pracinha e um grande etcétera de minudências.

Não se ouve um discurso, um papo que seja amparado em convicções ideológicas, no pragmatismo realizador que deveria possuir todo homem e toda mulher que almejam cargos públicos. E sua excelência, o eleitor, continuará dando a sardinha para a foca antes de ela mostrar talento para realizar o truque. Pergunte a algum candidato aqui da região sobre os problemas macros de cada um de seus municípios. De como Bom Jesus do Norte pode amenizar os sintomas causados por sua alta densidade populacional urbana, por exemplo? De como sua vizinha homônima melhorará a infraestrutura de mobilidade e o que fazer para atrair investimentos? Vasculhem em algum outro município se algum candidato tem pronta uma diretriz, um plano de ações conjunturais capaz de tirá-lo do marasmo, da mesmice, transformando aquela foto vintage batida com flash incandescente em outra clicada numa Canon Eos digital.

Uma máxima para amplificar o ceticismo do articulista: “Se há algo que abala os formadores de opinião é constatar que quanto mais escrevem e falam, menos opinião formam”. Numa sociedade utópica, onde não existissem churrascos e cervejinhas, Flamengo, feriados e novelas…, talvez fosse possível mudar!

Publicado em setembro/2016

Análise do resultado das Eleições 2016 no ABC Capixaba e em Bom Jesus do Itabapoana/RJ

 

SÃO JOSÉ DO CALÇADO/ES

Parece que os eleitores de Zé Carlos (PMDB) intuíram que só uma vitória com uma grande margem de diferença seria condicionante para que ele assumisse. Bingo, vai assumir.

Condenado à perda do mandato decidida pela Câmara na sua primeira administração (se não me engano em 2011), com o detalhe de que naquela oportunidade o presidente da “Casa Cassadora” era o seu atual vice-prefeito Teté, Zé Carlos teve o recurso deferido pelo TRE/ES, que contrariou argumentação interposta pelo segundo colocado Cuíca. No entendimento da corte, a cassação que foi chancelada em 1ª instância do Judiciário não previa a perda dos direitos políticos.

Por que digo que a opinião pública pode ter influenciado a tomada de decisão dos doutos juízes? Insinuo, acaso, que suas excelências foram parciais? Que saltitaram nas botinas com solas de tachinhas em cima das leis e da Constituição? Não. Coloquemos de outra maneira: numa democracia, a vontade da maioria é soberana. E quanto mais expressiva essa maioria, mais soberana tende a ser sua vontade.

Decisões judiciais não advêm de ciências exatas como a Lei da Gravidade, que independentemente de quem vê, de onde vê, da hora que vê, os corpos caem inapelavelmente.

No Direito, a coisa é mais subjetiva, sujeita a interpretações de pessoas com conceitos e entendimentos os mais diversos, ainda que numa assembleia de vestais. Fosse diferente, não existiriam recursos, advogados, erros jurídicos, coisa e tal. E mesmo as togas em plenários refrigerados não estão imunes às emanações quentes das urnas, cuja influência pode ser sutil, imperceptível, por osmose.

A diferença de Zé Carlos para Cuíca (PDT) foi grande. Tão grande que se o município tivesse hipoteticamente mais de 200 mil habitantes, e fosse proporcionalmente projetada sua performance, Zé Carlos precisaria de meros 0,7% a mais de votos válidos para levar no primeiro turno.

Ele ganhou de Cuíca por 3.584 x 2012. Foram 49,3% contra 27.7% dos 7261 votos válidos (os demais candidatos, professor Ciro – PV e Bodoque – PROS obtiveram respectivamente 1489 e 176). Portanto, Zé Carlos assume, acima de tudo, com a legitimidade das urnas e com as bênçãos do PMDB do governador Paulo Hartung, que é diferente do de Cabral, Pezão e Paes, no RJ (e pesadelo de Sávio Saboia em Bom Jesus do Itabapoana/RJ).

O que faltou a Cuíca foi o entendimento contrário da Justiça, claro, que indeferiu suas aspirações. Mas tenho pra mim que se ele tivesse tido votos suficientes para reduzir a um tamanho ínfimo a derrota (como ocorreu, aliás, com o próprio Zé Carlos em 2008, quando ganhou de Alcemar Pimentel naquela oportunidade por exíguos 119 votos), a banda poderia ter tocado música diferente da “campeão, vencedor, ô, uô…”.

BOM JESUS DO NORTE/ES

Aqui, o esperado. Se a família do ex-prefeito, ex-deputado estadual e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado, Umberto Messias, é osso duro de roer desde tempos imemoriais, com o reforço de uma ala dos Batistas, que tem o médico Tadeu como seu mais ilustre componente da política, a candidatura de Marquinhos Messias (PSD), filho de Umberto, era pule de 10.

Ganhou com 2502 votos, contra 1777 do segundo colocado Toninho Gualhano (PCdoB), e 1118 de Marcão (PMDB), o terceiro. Em seguida, Salatiel de Oliveira, do PHS, com 162; Aluizio Teixeira, do PSDC, com 102 e Fabinho do Maneco, PRB, com 52. Destaque negativo para este último, que foi o candidato a prefeito menos votado entre todos os 78 municípios capixabas.

Não é certo, porém, relativizar o mérito do próprio Marquinhos, que demonstrou determinação em perseguir seus objetivos desde as eleições de 2008 quando perdeu para o Dr. Adson. Ali, sim, poder-se-ia presumir que, se ganhasse, teria sido por majoritária influência familiar, até porque, jovem demais, era inexpressivo e inexperiente.

Mas soube transformar aquele infortúnio angariando apoio constante e gradual, e como vice do tio (o atual prefeito Ubaldo Martins, irmão de Umberto) nas eleições de 2012, ganhou também certa experiência executiva, muito embora, desde a posse em 2013, vem fazendo pouco “barulho”, talvez pela própria característica da função de vice no sistema político brasileiro, que é quase ao de uma figura decorativa, ou pelo temperamento um tanto discreto, ou por outro motivo qualquer.

Então, por que a relativa pequena diferença em relação ao segundo colocado, não obstante esse forte apoio? No meu entender isso não se deu apenas pela quantidade incomum de candidatos (cinco desta vez), mas por “fadiga de material”, sem olvidar a campanha aguerrida de Gualhano.

Ubaldo se manteve aparentemente neutro, mas essa defecção não seria por si só uma catástrofe porque a família é campeã absoluta na governança do município desde o início da década de 1980, que começou com o próprio Umberto. Este, por sua vez, fez o sucessor. Em 1992, Ubaldo se elegeu; em 2000, 2004 e 2012, idem, idem. Portanto, em oito ou nove mandatos desde então, se não me engano, seis foram dos Messias, sendo quatro somente com Ubaldo.

Este é um desafio para Marquinhos, que tem tudo para governar bem se tiver a vontade de sacudir uma estrutura monótona sem divorciar-se da experiência familiar, notadamente a capacidade de aglutinação, a expertise política. Não por acaso sua vice é uma Batista (a professora Angélica), sobrenome que em tempos pretéritos vivia às turras com os atuais companheiros.

Umberto foi reconhecidamente um bom administrador. Ubaldo também, especialmente na gestão dos recursos. Em seus sucessivos governos, salários e obrigações com fornecedores não sofreram grandes abalos. É também um “amante das pedras”, proporcionando calçamento de logradouros em quantidade exponencial.

Em outros quesitos, vale lembrar que, no Estado, Bom Jesus do Norte é o município primeiro colocado no Ranking Nacional de Eficiência de Gestão, conforme pesquisa divulgada pela Folha de São Paulo em 26/8 do corrente. Por outro lado, enfrenta problemas de infraestrutura urbana. É um dos de mais alta densidade populacional, sintoma da reduzida extensão do território, um traçado urbano simplório e acanhado com a agravante de sua localização fronteiriça ao 2º maior estado da Federação, economicamente falando.

Sangue novo, ainda que com o mesmo DNA pode descortinar a solução dessa e de outras difíceis equações. Nas aeronaves, fadigas de material causam desastres. E a diferença de votos aquém das expectativas de Marquinhos em relação a Gualhano pode ter sido um aviso da necessidade de revisar conceitos para viabilizar voos mais longos com a segurança necessária.

APIACÁ/ES

A vitória de Fabrício do Posto (PP) em Apiacá/ES, que teve 2278 votos contra 1468 de Betinho Miranda (PMN) e 1253 do Dr. Roy (SD) foi resultante do sucesso da aglutinação das oposições.

Fabrício ganhou, mas quem também celebrou – e muito foi o ex-prefeito José Chierici e Kaká, ex-vice-prefeito do próprio Humberto Alves, o atual, na primeira gestão deste, que foi de fins de 2010 a 2012 (o eleito em 2008, José Chierici, foi cassado pela Justiça Eleitoral por compra de votos antes de completar dois anos de governo, cedendo a cadeira ao segundo colocado Humberto Alves de Souza – também de apelido Betinho, tal e qual o seu “afilhado” nesta última eleição, 2º colocado). Kaká inclusive emplacou sua mulher Rosane como vice de Fabrício.

Humberto Alves, depois de se eleger despertando em seus apoiadores a certeza de uma longeva parceria, deu um “cavalo de pau” em sua administração, de uns dois anos para cá. Demitiu secretários, entrou em rota de colisão com a Câmara, contrariou interesses poderosos e isso amplificou descontentamentos.

Além disso, sua retórica virulenta contra os oponentes, as catilinárias dirigidas principalmente ao grupo de José Chierici potencializaram a já normalmente feroz agressividade entre as facções. Os opositores, com as facas entre os dentes, consideravam uma questão de honra desbancar tão audacioso desafeto.

Deu certo. Embora Humberto Alves tenha gerenciado bem o município (pelo menos até que se prove o contrário), o envolvimento diário nas escaramuças tomou-lhe o tempo de fazer o que melhor ele sabe, que é a política no varejo. O discurso vivaz, grandiloquente, a maestria na enunciação de ideias, a perícia em manusear feitos e números, o sorriso franco, a maneira cativante com que dá um tapinha nas costas, um abraço de paquiderme, parece que foram sacrificados em prol das agressões aos adversários.

Também pesou o desgaste natural de uma gestão continuada, que Humberto tentou reverter mudando paradigmas políticos. Mas pesou a mão. No caso por exemplo de ter perdido a maioria na Câmara por, segundo ele, recusar-se a dar seu beneplácito às costumeiras demandas dos vereadores, e de sacrificar determinados grupos de pessoas para hastear a bandeira da austeridade, esperava que a população, de forma geral, refletisse isso nas urnas em favor de Miranda, o que não aconteceu.

BOM JESUS DO ITABAPOANA/RJ

Em Bom Jesus do Itabapoana, Roberto Tatu, do PR, partido do ex-governador Anthony Garotinho, venceu o candidato da situação Sávio Saboia (PMDB). Tatu teve 10.895 votos; Saboia, 7958. Em 3º, Paulo Portugal (PP), com 1987 e em 4º, Samuel Júnior (PHS), com 1386. O estigma do PMDB do Rio, que viu seu atual prefeito sofrer a humilhante situação de nem chegar ao 2º turno, fez vítima também por estas bandas.

E que se note: Anthony Garotinho, a maior estrela do PR, perdeu em 2014 a eleição para governador e agora perde em Campos dos Goytacazes, sua cidade natal. Atualmente dirigida por sua mulher Rosinha, pela segunda vez porque reeleita em 2012, ali a derrocada foi tão retumbante que seu candidato Dr. Chicão perdeu no primeiro turno para Rafael Diniz, do PPS. Mas teve em Bom Jesus do Itabapoana o prêmio de consolação, com Tatu, que foi apoiado também pelo ex-prefeito Paulo Sérgio Cyrillo, pai do vice eleito Cyrillo Filho.

Destaque na campanha de Tatu para o marketing bem planejado e executado pelo bom-jesuense Marcelinho Almeida, suporte importante para a vitória pela competência no uso das redes sociais, rádio e outras mídias. O vocabulário simples e objetivo atingiu o eleitor de maneira clara, tornando fácil a absorção das mensagens.

Mas de janeiro em diante é que a porca torce o rabo se não for cotó. O novo prefeito terá de se desdobrar para ao menos manter o município nas condições atuais. Tarefa árdua principalmente por força das condições econômicas do Estado do Rio.

Ele herda de Branca Motta uma gestão organizada, apesar dos pesares, constatação fundamentada, entre outros fatos, na reversão do caos administrativo que ela enfrentou em sua primeira gestão, com o detalhe de que naquela época o Brasil estava com sua economia “bombando”.

E Sávio Saboia foi um secretário de Cultura e de Saúde dos mais atuantes e realizadores, o que força Tatu a conseguir gente de igual capacidade ou, de preferência, maior.

Se manter essas condicionantes já será difícil, imagine a pressão que o novo governante sofrerá principalmente por parte dos servidores, há muitos anos sofrendo com ausência de reajustes e que depositaram suas esperanças em Tatu!

Vai ter que usar todo o vigor da juventude, a capacidade de trabalho, a força moral dos quase 3000 votos à frente de Saboia, firmemente unido com as forças que o apoiaram e com a simpatia do Poder Legislativo.

No entanto, tais dificuldades, se superadas, serão o princípio ativo do sucesso de sua carreira política. São em cenários assim que costumam destacar-se os verdadeiros líderes, e Tatu tem essa preciosa oportunidade.

Publicado em novembro/2016

Educação em frangalhos. Sem trocadilho com a charge

O analfabeto funcional sabe ler e escrever, mas não sabe estruturar nem interpretar um texto. Muitos conseguem concluir a universidade, mostrando que o saber não é o mais importante para a obtenção de um canudo neste país em que um ex-presidente da República se vangloriava de sua ´apedeutice´. Esta charge, do cartunista estrangeiro Dan Collins retrata um fazendeiro tratando de suas galinhas, também parceiras sexuais. Pois bem: fato nada engraçado é que a charge serviu como ilustração para trabalho escolar de crianças paranaenses com idade média de… 6 (seis) anos! (Aqui)

Há uns dois anos isso ocorreu, fato amplamente divulgado. Foi um erro, claro, não se pode imaginar uma mente tão doentia a ponto de submeter crianças em tenra idade a algo tão escatológico. Por outro lado, mostra a quantas anda o ensino público, tão ruim que fica à mercê de equívocos inacreditáveis, inaceitáveis e grotescos assim. 

Pais, mães, tutores em geral de estudantes da rede pública brasileira já nem se surpreendem mais com a péssima qualidade do ensino. Um exemplo do descomprometimento em ensinar, bem pertinho de nós, bom-jesuenses: depois que acabou a Copa do Mundo — quando os alunos tiveram um mês inteiro de recesso — a Escola Estadual Euclides Feliciano Tardin (Horto) resolveu pintar salas de aula. Resultado: alguns alunos foram dispensados durante duas semanas para não serem prejudicados pelo cheiro de tinta. 

Sejamos justos: não são o Horto ou outras escolas especificamente as culpadas pelo péssimo ensino, é reflexo da política educacional brasileira. Desgraçadamente o nosso país é um dos que destinam mais verbas para a Educação, mas um dos piores na gestão dessas verbas. Qual será o futuro do Brasil com alunos que hoje não encontram estímulo para aprender, e escolas que não têm capacidade para ensinar? 

Publicado em julho/2014

Leia Também

Compartilhe o Blog

Contato:

jose.silva311@gmail.com