Aqui eu guardo meus escritos.

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Fe$ta de Ago$to: cobrar ingressos não é justo

Quando garoto, fato que mais me deprimia era a falta de dinheiro para ir ao Cine Monte Líbano vibrar com os djangos e os ringos. Ao campo do Ordem e Progresso nas tardes inesquecíveis de futebol, então, ficava deprimido. Membro de família pobre (muito), temperamento introvertido (sempre), nunca tinha a coragem de pular muros ou dar um jeito de burlar os bilheteiros, ações que meus amigos tiravam de letra, na maior naturalidade. Que raiva sentia de mim mesmo quando após horas de preparação psicológica, de ponderações mil, via aquelas duas mãos em concha (escadinha) rentes ao muro do estádio e a algazarra de vozes juvenis incentivadoras mas, ao colocar o pé no “cadafalso”, coração acelerado, suando em bicas, desistia melancolicamente na hora de atingir o nirvana, despertando xingamentos dos outros moleques.

Bom era quando meu pai Oswaldo Vaillant me dava uns trocados ganhos no ofício suplementar, porém lamentavelmente eventual de garçom do Aero Clube; curtia numa boa a arte de Chiquinho Maravilha, Baduca, Haroldinho e outros craques, assim como a saga de Clint Eastwood com sua pistola de seis balas que disparava 60 de uma só vez, pagando meus próprios ingressos com a dignidade de um lorde. Lembro disso e imagino mais sensibilizado a decepção de muitas pessoas, muitos jovens, que não puderam assistir aos melhores shows da última Festa de Agosto por falta de grana para a entrada.

Diabos, uma gente que já não tem quase nenhuma opção de divertimento ter de descolar R$ 20 na bilheteria, fora R$ 2,50 por uma lata de refrigerante, R$ 3 para deixar o filho se empoleirar por dois minutos num brinquedo, e outros tantos para a cervejinha e o tira-gosto. Por baixo, R$ 100 para um casal e dois filhos, numa única noite, apertando o cinto, economizando. E esses R$ 100 significam, para muitos cidadãos, cerca de 10 dias de trabalho, vejam só.

Recordo um caso — acho até que é piada — de dois amigos (mui amigos) e suas respectivas amantes que se encontraram no estacionamento de um motel. Cúmulo da coincidência: cada qual estava com a mulher do outro. Passado o constrangimento inicial, um deles diz:

— O certo é irmos embora, todos. Mas o outro retruca:

— É ruim, hein. Vocês já estão saindo, e nós, chegando.

Moral da história: nem tudo o que parece correto é justo.

A promotora do evento e proprietária do Parque de Exposição não age errado ao cobrar ingressos. Ela não é uma instituição de caridade e precisa apresentar resultados financeiros positivos aos seus cooperados. Se a empresa investe, tem de ter o retorno desse investimento, é elementar. Todavia, é injusto que se tire proveito de uma instituição pública centenária, como é a tradicional Festa de Agosto, para auferir lucros num negócio inteiramente diverso das suas atividades tradicionais, desculpem os que têm erisipela ou eriçam pelos ao encarar o contraditório. Usar este ícone, este emblema com seu forte apelo tonificado pela comunidade bom-jesuense em 143 longos anos me parece usurpação. É quase semelhante a um pintor de paredes que porventura usar a escada da prefeitura (de todos os cidadãos) para executar trabalho para si.

Ora, dirão alguns, exibindo laivos de justiça social, “teve atrações também para quem não pôde pagar.” Sim, teve, mas não minora o sentimento de discriminação. Embora meus 52 anos se incompatibilizem com letras e ritmos dessas duplas de bons-mocinhos e grupelhos que se destacam apenas pelos trajes sumários, é, como diz o bordão, “disso que o povo gosta.” Neste caso específico em que, repito, o apelo era a festa popular com todo o seu simbolismo e sentido cívico, as atrações deviam contemplar a todos por igual. Tragam lá o Roberto Carlos, a Britney Spears em março, novembro ou qualquer outro fora agosto e cobrem R$ 1 mil, R$ 2 mil, R$ 5 mil pela entrada. Vai quem quiser e puder, nada contra. Aliás, até aplaudo, precisamos de atividades e eventos culturais mesmo. Mas não privem o povo daquilo que é seu, no mês mais sensível à sua religiosidade e convicções cívicas: é autoritarismo disfarçado e segregação revelada.

Vejo tantos políticos (principalmente nesta época de “piracema”), tantos empresários, tanta gente influente tirando vantagem, de alguma forma, da festa. Será que as calcinhas da cor do luto (desconfio ser reflexo condicionado de respeito à morte da verdadeira arte) do showbiz são assim tão dispendiosas que não possa essa gente abonada enfiar as mãos nos bolsos recheados para uma vaquinha e propiciar os shows para todos? Que fim levaram as parcerias e os patrocínios? Um cínico eh, eh, eh pelo equívoco monumental de quem achar que esta minha cara vermelha tem a cor de convicção político/ideológica. Chico Buarque, de sua mansão parisiense a cantar loas a Fidel torceria o nariz se me conhecesse. Mas na “festa do povo”, se não puder calcinhas pretas para todos, sem distinção, que venham outras vestes mais modestas trazer alegria geral. O Divino Espírito Santo agradecerá esse lustro de igualdade e sensibilidade em seu cetro.

PS – A palavra inovação deveria ser a meta, a essência, o norte. Que tal acabar com esta simbiose de festa com exposição agropecuária, pondo fim à fusão da iniciativa pública com a privada? Está claro que esse modelo está desgastado, exaurido. A CAVIL promoveria sua Exposição fora de agosto, cobrando ingressos ou não; a prefeitura faria a Festa de Agosto sem ônus para o povo. Simples. Mas please, por obséquio, levando os shows para longe do centro da cidade. Como? Onde? Ah, já estão querendo demais!

Publicado em agosto/2006

Abaixo à pornografia; reabilitemos a poesia, acalanto do coração e da alma

Existiu em Bom Jesus um sujeito folclórico, apelidado “Sola Reta”. Pense num bambu. Pois é. Sola Reta não gostava das provocações inevitáveis ao seu porte e tinha o talento incomum de dar o troco com frases rimadas. O bullyng que sofria era tanto que mesmo as colocações não ofensivas eram, por assim dizer, captadas de mau sentido. Embora não agressivo, bem no espírito folgazão, que mesmo as “vítimas” de primeira viagem aceitavam numa boa, as réplicas eram invariavelmente obscenas.

— Sola Reta, Sola Reta.

Retrucava de imediato, em milésimos de segundos.

— Tua bunda me aperta.

— Perna de pau.

— Comi tua mãe depois do mingau.

— Escada para o céu.

— Te fodi pra dedeu.

— Tronco de palmeira.

— Tua mulher, puta rameira

— Como vai você?

— Meu pau tu vai querê.

— Cara feio!

— Te como todo dia, mas ontem você não veio.

— Seu time levou uma surra no Maracanã.

— Já curei a mágoa com a gostosa da tua irmã.

E por aí afora, mas muito mais bem elaboradas e complexas do que os exemplos acima, inventados agora, embora semelhantes ao seu estilo. Era mesmo um poeta criativo na seara pornógrafa.

Mais edificante seria se ele respondesse com pedacinhos, que fossem, de poesias:

— O que pensa da política, Sola Reta? A corrupção no Brasil é tanta…

— Cesse tudo o que a antiga musa canta/ que outro valor mais alto se alevanta.

— Amo tanto a Inez…

— Por minha quero ter-vos e não posso/ por vosso podeis ter-me e não quereis.

— Quanta violência! O que acha do retorno dos militares?

— Andrada! Arranca este pendão dos ares!/ Colombo! Fecha a porta de teus mares!

— Sinto tanta dor, Sola Reta, tanta amargura.

— Só a dor enobrece/ e é grande, e é pura/ aprende a amá-la, que a amarás um dia/ então ela será tua alegria/ e será, ela só, tua ventura.

— Se uma loira te desse mole, o que você faria?

— Essa que eu hei de amar perdidamente um dia/ será tão loura, e clara, e vagarosa e bela/ que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela/ trazer luz e calor a est´alma escura e fria.

— E os políticos que prometem nas campanhas tudo fazer pela nossa gente?

— Mentem de corpo e alma, completamente/ e mentem de maneira tão pungente/ que acho que mentem sinceramente.

— Vou me mudar pra São João Del Rey.

— E eu vou-me embora pra Pasárgada/ lá sou amigo do rei/ lá tenho a mulher que quero/ na cama que escolherei.

— Casou como, Sola Reta. Você ganha tão pouquinho…

— Quadro paredes, uma cama e nada mais/ eram só o que consistia nosso ninho/ onde em ritmos e loucuras saturnais/ almas fundiam-se no ápice do carinho.

E assim por diante. Pena que tão poucos apreciam poesias, acalantos do coração e da alma.

Publicado em maio/2013

 

Bonjesino chorou incontrolavelmente pela cassação da prefeita de Bom Jesus/RJ

Buááááá, Buááááááá, chuif, chuiiiffff, if, if…

Que susto! Passava ontem em frente ao muquifo de Bonjesino, de fininho, evitando me encontrar com o brutamontes quando ouço a trovoada…, digo, a choradeira de volume tão elevado, tão entrecortada de soluços de tenor que me fez lembrar da expressão de Nelson Rodrigues: “de trincar catedrais.” Já dei a ficha deste amigo, coadjuvante imaginário em alguns dos meus textos, mas vale repetir que é um mulato de tamanho descomunal, simpático e bondoso. Além disso é ingênuo como uma criança, extremamente crédulo e apaixonado por Bom Jesus e os políticos da região.

Como dizia, eu passava em frente à sua casa, mas tinha compromissos e não podia jogar conversa fora, razão pela qual me esgueirava para que ele não me notasse. Porque, como sempre, teria de conversar interminavelmente com o velho amigo, depois escapar de ser morto por constrição, já que tentativa de assassinato, para ele, tem o nome de abraço. Mas, claro, não podia deixar de ver o que estava ocorrendo. Aproximei-me com passos apressados, transpus a única porta do barraco de dois cômodos e o vi sentado num banco feito de tronco de árvore, os dois braços cruzados sobre o peito, a cabeça encurvada neles.

— O que aconte…

Não deu tempo de completar a pergunta. O gigante deu um salto em minha direção, felizmente esquecendo do abraço; a ansiedade de falar era tão grande que o fez negligenciar involuntariamente as boas maneiras.

— Chefiaaaaa, buááááá…, humpft…, snifff…

— Calma, Bonjesino, que bicho te mordeu?

— Ah, chefia…, que desgraça! — falava e fungava de tal forma que pensei que ele fosse ter um colapso. — Cassaram a prefeita, chefiaaaaa… Cassaram ela, tadinha…, snifff, chuifff.

— Pare de chorar, Bonjesino, senão vou embora — ameacei, agora mais calmo após conhecer a natureza do problema.

— Ah, chefia. Ela não merecia…

— Que vergonha, chorar por causa de política… E afinal, Bonjesino, este choro está denotando uma contradição.

— Êpa, que contradição? — retrucou, as sobrancelhas já iniciando os primeiros traços de acento circunflexo invertido.

— Você não ama de paixão todos os políticos? Então? Assume outro no lugar dela e fica tudo bem.

— Perfeitamente, chefia. Entendi a malícia. Mas afirmo que todos os colocados, do primeiro ao último, estão perfeitamente aptos a nos governar. Todos, está entendendo, todos só aceitaram disputar a eleição depois que fizeram uma autoanálise, uma varredura minuciosa em seus íntimos e concluírem que cada qual tinha a capacidade de fazer o melhor pela cidade.

— Nenhum interesse pessoal? Sabe como é…, o salário é bom…, tem as mordomias…, tem a…

— Alto lá, seu jornalistazinho de meia-tijela. Alto lá. Que Deus não dê ouvidos às suas palavras maledicentes.

— Não seria a lesma lerda?

— Lesma lerda?

— Ahnn…, digamos…, todos eles não nos mandam ir tomate cru depois de eleitos?

— Tomate cru?

— Bonjesino, a ponte que caiu, você entende?

— Caiu onde?

— Baralho…

— Não gosto.

— O quê?

— Não gosto de jogar baralho. E para de mistério, chefia.

— Repito, Bonjesino. Se todos são bons, nada vai mudar, ô rapaz. O município vai continuar com esse intrépido desenvolvimento, mais um pouco e estaremos batendo a Noruega em nível de qualidade de vida.

O colosso levantou os olhos para cima à procura do Senhor, tornou a fitá-los nos meus e, com uma brandura desconcertante, tom professoral, disse:

— Chefia. Sua sorte é que até os condenados à morte contam com indultos dos governos. Nosso Senhor vai te perdoar tanta ironia.

— Responda, Bonjesino. Por que o choro, se outro monge carmelita irá nos conduzir pelos prados verdejantes do paraíso?

— É que…

Seu rosto se contorceu tal como os de crianças naquela careta que antecede o choro. Mas interrompi o novo vendaval que prenunciava.

— Vamos combinar…

— Tá bom. Não vou chorar mais — prometeu o gigante, passando o polegar e o indicador nos olhos e as costas da mão nas narinas para eliminar o fio translúcido de meleca que descia, sorrateira, até os lábios. Pigarreou e continuou: — Na realidade, chefia, não sei de quem tenho mais pena: se da prefeita, injustamente cassada, ou de quem vai entrar.

— Explique melhor.

— Quem entrar vai ter tanto problema até pegar o ritmo das coisas… Vai trabalhar tanto, coitado… Já ela…

— Tinha pegado o ritmo das coisas…, interrompi.

— Claro! Foram quatro anos, chefia. Quatro anos de sacrifícios. A mulher era um azougue. Pegava daqui, pegava dali…

Percebendo meu sorriso enviesado Bonjesino perdeu as estribeiras. Virou-me as costas e disse, seco, só faltando me expulsar literalmente:

— Boa-noite, chefia. Passar bem.

— Boa-noite, Bonjesino. Nada de chorar mais, hein? Já pensou se acontece como no período 2005 a 2008, em que tivemos nada menos que cinco prefeitos? De onde vai tirar tantas lágrimas?

Publicado em maio/2013

O velho do Restelo bom-jesuense

Aproveitando a deixa da presidente Dilma, que se referiu ao Velho do Restelo — personagem do poema épico “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões — escrevo este texto. A excelentíssima, em seu profundo saber e preparo asseverou que o Velho do Restelo era um…, velho e um pessimista, de carteirinha e crachá. Segundo ela, o ancião ficava na Praia do Restelo tentando desesperadamente fazer ouvirem sua cantilena monocórdia sufocada pela algaravia de patrícios eufóricos pela partida das caravelas que desbravariam terras desconhecidas: “não vai dar certo, não vai dar certo”, desfiava o arquétipo de velho, estereótipo de pessimista (Canto IV, de “Os Lusíadas”).

Dizia a presidente que seus críticos são como o Velho do Restelo. Estes, tal como aquele, são pessimistas, não enxergam o futuro radiante que os aguarda, certamente referindo-se subliminarmente ao maravilhoso, ao divinal, ao soberbo governo petista que prepara o alicerce para o paraíso. Serei velho, aos 59? Tenho de perguntar aos burocratas das nomenclaturas, que poderão me responder “pré terceira-idade” (se disserem que estarei chegando à ´melhor idade´ vou distribuir bengaladas em suas cabeças a três por dois, juro.) Sem dúvida já estou velho e no Restelo bom-jesuense a clamar firme aos quatro cantos: não vai dar certo, não chegaremos lá. “Por que digo isso?

Bem. A obviedade do crescimento vegetativo não cabe celebrar. Uma escola, um calçamento, um posto de saúde, um equipamento, são como arroz com feijão. Se uma casa é capacitada a abrigar no máximo 10 pessoas, 20 pessoas necessitam duas casas. Isso é crescimento vegetativo. Por outro lado, se há três casas para as mesmas 20 pessoas, seguramente elas viverão mais confortáveis. Logo, a terceira casa é um crescimento aditivo, não vegetativo. Nosso trânsito, por exemplo: em Bom Jesus do Norte o troço é surreal. A avenida principal, mais movimentada, não experimenta sequer crescimento vegetativo. Ao contrário: há décadas vem declinando paulatinamente porque os veículos de todos os tipos e naturezas, cuja quantidade cresceu exponencialmente trafegam nos mesmíssimos espaços onde antigamente um ou outro tílburi ou caleça, de ricos fazendeiros, trafegavam vez ou outra. Pior: a via acanhada, estreita, de mão dupla, ainda serve como pátio de revenda de veículos usados, depósito de material de construção, estacionamento em ambos os lados. Numa analogia, aquele logradouro que, repito, é o principal e mais movimentado da cidade, é uma casa onde cabem no máximo 10 pessoas e abriga 200!

Bom Jesus do Itabapoana, a lesma lerda, como dizia Carlito Maia. Uma praça aqui, um posto acolá, um asfalto alhures; crescimento vegetativo. Ou alguém pode indicar um projeto que supere as especificações do vegetativo a este velhote cegueta e pessimista que me transformei? Sobre a terceira ponte, o que temos? Do péssimo e limitado sistema de luz e força? De projetos sustentados, de ampliações viárias, que falam? As Bom Jesus vêm há tempos, mas há tempos mesmo carecendo de planejamento. Há uma teoria segundo a qual a música popular é hoje ruim e descartável devido à ausência da outrora ideologia da contestação, seja ao regime, seja aos costumes. Da mesma forma parece caminhar a política, que se nutre cada vez menos de nacionalismo e cada vez mais de personalismo porque acabou o amor ao torrão natal. Já não se bate mais no peito com orgulho, afirmando: sou de Bom Jesus. Lugar que, parafraseando o poeta, não sabendo que era impossível fomos lá e fizemos!

Se 10% das promessas quando em campanhas políticas fossem concretizadas eu abominaria as convicções do Velho do Restelo e passaria a beber da fonte de Pangloss.

Publicado em junho/2013

Vendem-se buracos em Bom Jesus. Reserve já o seu

 

Vejo na Internet que a cidadezinha alemã Niederzimmern, assolada pelas intempéries (muito gelo e neve), ganhou vários buracos nas ruas. A população foi reclamar com o prefeito, que não tendo recursos no caixa da prefeitura apelou com uma ideia original: vender os buracos. Isso mesmo que você está lendo: vender. Não no sentido de “papel passado”, mas vender sem entregar a mercadoria. Cada buraco custa 50 euros – o comprador pode examiná-los na Internet antes de fechar negócio. Quem comprar um buraco em Niederzimmern também tem direito a uma placa. A pessoa pode deixar registrada uma mensagem que permanecerá no local, mesmo após o conserto do buraco.

Como vários políticos nossos possuem o know-how das modernas técnicas de vender sem entregar a mercadoria (o mercado das promessas e das ilusões é o mais explorado por eles), poderiam aproveitar para vender algo mais concreto, digo, algo mais asfáltico, mais paralelepáltico, que é nosso imenso, nosso vastíssimo roçado de buracos. Tem para todos os gostos, de vários tamanhos, circunferências, profundidades, modelitos, estilos e tendências. “Um mais lindo que o outro, você não pode perder”, poderiam instigar na propaganda.

Eu, particularmente, adoraria comprar aquele buracão belíssimo que vai se formando nas imediações do Supermercado 5 Irmãos, em Bom Jesus/ES, depois que renovaram a rede de esgoto. Repararam o esmero de sua produção? Aprendam: primeiro, arranquem a camada asfáltica. Depois, as pedras. Revolvam a terra e enterrem os tubos. Depois do serviço pronto vem a restauração artística, o acabamento irretocável. Ao recolocar as pedras, o segredo do artesão, o talento do paisagista está em dispô-las assimetricamente, formando aqueles encantadores côncavos e convexos. Ah… meu sonho de consumo!

Também adoraria comprar um não-buraco. Explico: um não-buraco é um buraco metido a besta que resolveu renegar a numerosa classe buracal. Nasceu buraco, cresceu buraco, mas traiu seus iguais se transformando num não-buraco. Com a ajuda do poder público, se uniu às más companhias dos detritos sólidos e criou sua diferenciada natureza, como aquele que fica na esquina da Abreu Lima com Tenente José Teixeira, em Bom Jesus/RJ, antes tido o pomposo nome de bueiro.

Pretendo ser este texto uma espécie de pré-contrato se resolverem copiar a ideia do prefeito alemão, isto é, faço desde já uma reserva de mercadoria. Mas não me inveje; há buracos para todos. Ao sair de casa, repare que na sua própria rua tem ao menos um buraquinho. Na pior hipótese, uma cicatriz feita pela cia. de água e saneamento, pensa que descuidam da paisagem? Mesmo pequenos, respeite-os como crianças que crescerão saudáveis e robustos, para na vida adulta dar a satisfação do porte atlético, da sua presença marcante a compor o lindo panorama do seu bairro, da sua cidade.

E viva os asfaltos de R$ 1,99, os de baixa renda, que produzem belos e primorosos buracos!

Publicado em novembro/2010