Ler no banheiro

Além de cigarro e café, sou viciado em ler. Comparecer à privada sem os óculos…, nenhuma chance de bom desempenho da atividade-fim, configurada em associação com os olhos, como em simbiose. Às vezes, num banheiro estranho, serve jornal velho e até bula de remédio. Certa vez, na falta de algo mais útil, me surpreendi com a carteira nas mãos lendo os meus documentos. Nunca mais esqueci os números do CPF e da identidade.
Minha estante foi estrategicamente instalada ao lado da porta da toalete (vamos mesclar uma palavrinha perfumada a este papo escatológico). Aproveitando, lembro que o Aurélio nos ensina que neste caso é a toalete mesmo, feminina, que quer dizer ‘compartimento com lavatório e espelho, que em geral tem um gabinete sanitário’. O toalete masculino é o ‘ato de se aprontar, de se pentear’, etc.
Encorajei-me a lhes contar esse meu hábito porque, eu já desconfiava, não é incomum. E quem sabe assim agindo eu estimule vocês a fazerem o mesmo, principalmente você que tem pouco tempo para o exercício da leitura. Aliás, não só da leitura, mas da cantoria, que, no entanto, são atividades que exigem exclusividade de espaço, uma não prejudica a outra. Pelo menos não tenho conhecimento de alguém que cante no vaso e leia no chuveiro.
Vejam só como ler no banheiro é uma prática mais corriqueira do que se pensa. Vi na internet outro dia que em algumas cidades europeias já é comum, em banheiros de estabelecimentos públicos, o tal do Loo Read, um artefato que enrola jornais nas paredes dos bathrooms. O freguês senta-se no trono e puxa o jornal, que depois de lido é novamente enrolado automaticamente à espera do próximo usuário. Se um dia você se utilizar de um destes artefatos, aceite um conselho: lave bem as mãos, he, he, he.
Os japoneses foram além. Povo culto que só, e sem tempo que só, criaram o papel higiênico literário, com livros inteiros impressos. Já pensou? Nem é mais preciso correr o risco de molhar o livro ou o notebook. Acredito que funcione assim: cada sentador de trono desenrola o papel (certamente rolos individuais), que deve ser reutilizado na outra tarefa (a sórdida), no tamanho da sua velocidade de leitura e tempo. Ou seja: se alguém entrar para aquela leiturinha básica e for ruim em ler de carreirinha, vai ter de usar trechos não-lidos do livro ou sair sujo, entenderam? (huumm…, essa foi de mau gosto).
Se você souber de um destes traduzido, me informe, combinado?
Publicado em novembro/2007



