Aqui eu guardo meus escritos.

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Desagravo

Às vítimas do maníaco do parque – SP 1998

Impregnado de infinda maldade, tramavas,/
dar vazão ao teu instinto bestial, doente,/
saías a procurar, disfarçado de gente,/
as que criam em tu que, vil, blefavas./

Mártires da crueldade eis que, parvas,/
mercê da tua sanha, um verme repelente,/
que esganando-as jorravas uma torrente,/
de fel, esgoto, limo, pus e larvas./

Pelas pobres jovens, animal, hás de sentir,/
em lenta agonia, covarde, teu haurir,/
nos grilhões da paga do que aqui se faz!/

E que pouco te sejas o inferno ardente,/
onde irás sem dó, ó mísero demente,/
quedar-te ao inclemente anjo satanás!/

Produzido em agosto/1998 

Angústia

Minha alegria desta vida,/
jaz no sepulcro da solidão,/
pois banaliza a hecatombe fratricida,/
o homem, com a moral em extinção./

Traduzem o ocaso de uma era perdida,/
horror, perfídia, egoísmo e ambição,/
despertando a vindita, sepultando a saída,/
ao destino de um viver puro, alegre e são./

O uivo da dor já se faz profundo,/
e zombam os demos num ódio furibundo/
de vingança por passados segregados;/

E o nosso bem-querer no poço, ao fundo,/
liberta-los-á do seu covil imundo,/
deles tornando-nos cruelmente escravizados./

Data incerta de produção 

Nossa mãe

Nossa mãe que nos deu a vida,/
É altiva, sobranceira, não fraqueja,/
Nem nos piores momentos da triste lida,/
Estremunha, zanga, chora ou espragueja/

À essa diva e baluarte de nós tantos,/
Que nos alenta e nos protege dos perigos,/
Queremos bradar forte aos quatro cantos,/
És nosso orgulho, de ti somos amigos./

Não fora dos poderosos o egoísmo,/
Nem dos políticos a desídia e roubalheira,/
Não dependeríamos do seu ser, estoicismo./

Do vilipêndio a si, porém, nós aprendemos,/
Que nada desta vida é de ninguém,/
O tudo é amar o quanto temos./

Data incerta de produção 

Aquele voto

Oi, minha senhora. Prazer./
Estou aqui pra lhe pedir. Vote em mim./
Prometo tudo. Não sou chinfrim./
Pro seu marido, até emprego posso ver./

(depois de eleito)
Ih! Não tenho. Lamento. Nada!/
Passe cá em outra hora,/
Nada posso fazer agora,/
A mão inda não foi molhada./

E pensa: – Se ela não precisar,/
que bandeira empunhar?/
Preciso manter os meus…/

Sua miséria é meu quinhão,/
Quero logo o meu milhão,/
Famélicos que fiquem os seus…/

Data incerta de produção

Prefeitura sem prefeito. É sério, Bom Jesus/RJ não sabe quem vai governá-la a partir de 2009!

Que incrível sortilégio o de Bom Jesus do Itabapoana, cujo povo foi obrigado a votar em ninguém! (O TSE cancelou, praticamente às vésperas da eleição as candidaturas de Branca Motta e Paulo Sérgio Cyrillo). Pior: o povo parece estar conformado com tudo o que vem acontecendo, não faz um movimento sequer de protesto, de exigência em prol de sua cidadania. Está igual tronco de enchente, na marola de uma Justiça lenta, de interpretação complicada, sujeita a firulas mis de acordo com a sagacidade dos advogados que esticam a paciência até o limite de ruptura.

Faço aqui a minha parte. Só que a veia poética de má qualidade precisa se valer da preciosa inspiração de Patativa do Assaré – e também Dodô e Osmar/vi Dirceu atrás da grade/abre Marília, sou eu/sonhando num céu de fogo/libertas quae sera tamem/e um cheiro de tangerina/descascava Jorge de Lima/as invenções de Orfeu/rezava Murilo Mendes… Não, não, stop. Só o Patativa! É que me deixei levar pela linda canção de Zé Ramalho, “Xote dos Poetas”, que meu cérebro vinha cantando no ritmo destas teclas indignadas. Ah, e “Libertas quae sera tamem”, ou “Liberdade, ainda que tardia”, tem tudo a ver com Bom Jesus carregando seu pesado fardo.

 

Prefeitura sem prefeito
Patativa do Assaré

Nessa vida atroz e dura/
Tudo pode acontecer/
Muito breve há de se ver/
Prefeito sem prefeitura;/

Vejo que alguém me censura/
E não fica satisfeito/
Porém, eu ando sem jeito,/
Sem esperança e sem fé,/
Por ver no meu Assaré/
Prefeitura sem prefeito./

Por não ter literatura,/
Nunca pude discernir/
Se poderá existir/
Prefeito sem prefeitura./

Porém, mesmo sem leitura,/
Sem nenhum curso ter feito,/
Eu conheço do direito/
E sem lição de ninguém/
Descobri onde é que tem/
Prefeitura sem prefeito./

Ainda que alguém me diga/
Que viu um mudo falando/
Um elefante dançando/
No lombo de uma formiga,/
Não me causará intriga,/
Escutarei com respeito,/
Não mentiu este sujeito./
Muito mais barbaridade/
É haver numa cidade/
Prefeitura sem prefeito./

Não vou teimar com quem diz/
Que viu ferro dar azeite,/
Um avestruz dando leite/
E pedra criar raiz,/
Ema apanhar de perdiz/
Um rio fora do leito,/
Um aleijão sem defeito/
E um morto declarar guerra,/
Porque vejo em minha terra/
Prefeitura sem prefeito./

Agora vou eu no embalo do Patativa:

Como é triste a minha sina,/
De votar e não ter eleito,/
É porque não tenho peito,/
de mudar essa doutrina./
Quero dizer, consciência,/
De lutar pela cidade,/
Exigindo idoneidade,/
Sobretudo sapiência./

De quem?, perguntas então:/
De todos, respondo no ato,/
Quem quer mudar este fato,/
Tem que ter disposição./

Cidadãos de mui matizes./
Juízes, políticos, o escambau,/
Têm que deter o vendaval,/
Pra salvar nossas raízes./
E dizerem, igual ao poeta,/
Em desabafo valente,/
Dignificando nossa gente,/
Cujo progresso é a meta:/
“Nem mais um passo, covardes,/
Nem mais um passo, ladrões,/
Se os outros roubam as bolsas,/
Vós roubais os corações!”/

Falando assim aos fados adversos,/
Eles ficarão no seu lugar,/
Deixando de nos paralisar,/
Na busca do nosso sucesso./

E aqui paro esperançado/
De resolvermos os problemas,/
Um prefeito e adeus dilemas,/
Bom Jesus não mais travado!/

Produzido em 2008