Aqui eu guardo meus escritos.

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Nós somos da pátria a guarda

Ditadura militar? Quem já passou dos cinquenta não guarda boas lembranças do sinistro verde-oliva. No momento em que se vivenciava o arbítrio, a truculência e a opressão, o medo imperava como juiz supremo na sociedade. Mas a ninguém é dado olvidar que os sucessivos governos militares livraram o país do comunismo genocida, da maré vermelha que leva de roldão valores morais e paradigmas econômicos historicamente eficazes em nome de uma ideologia que se mostrou despropositada e em completo desequilíbrio conceitual com o desenvolvimento, o progresso e as conquistas materiais e sociais dos povos.

Não obstante a censura, que impedia a capacidade analítica, de obter informação e de percepção real dos fatos, o governo militar foi infinitamente mais honesto e competente, que nem mesmo as vivandeiras trotskistas, marxistas, leninistas (xiitas, xaatas e xuucras), no auge do delírio persecutório, vingativo, em frenesi pela desforra, ousaram negar. Também o senso de patriotismo, o orgulho pela pátria, a noção de civismo eram marcas registradas que de certa forma justificavam os tanques e os coturnos. Em contraponto, quando os cassetetes deram lugar às urnas, a única coisa que os brasileiros tiveram foi o direito de escolher o pilantra que os governaria, muito especialmente devido ao analfabetismo funcional que infelicita parcela substancial da população (e aí falharam também, miseravelmente, os milicos), tornando-a sem condições intelectuais de discernimento. E neste momento em que se começam a ouvir vozes mais estridentes dos quartéis é bom levar a sério, porque essas vozes ecoam o grau de podridão a que arrastaram o país. Vivemos uma cleptocracia, e dos três poderes da república, o Judiciário é o menos contaminado, mas já não se mostra tão infenso às hordas de larápios que se forjam no ventre da ignorância.

Não existem qualidades morais para Legislativo e Executivo governarem a nação. E se a Justiça não desempenhar a contento o importante papel que dela se espera como tábua de salvação, não haverá alternativas senão a intervenção militar, e nem se poderá arguir que seria uma ação ilegítima, porquanto a ação das forças armadas é prevista em situações de caos politico e social, e estamos perto disso. Não parece que o Exército de Caxias e as demais forças militares brasileiras simpatizam com o que se vê na Venezuela, em Cuba, na Coreia do Norte e em regimes desgraçados assemelhados, para ficarem de braços cruzados.

O problema de uma ação tão extrema é que geraria reações também extremas, mas tratar-se-ia de uma questão prática de custo-benefício. E esse custo, por mais exorbitante que fosse, não ensejaria dúvidas de que seria menor que o prejuízo do futuro da pátria hoje anímica, vilipendiada, estuprada, escarnecida por ladrões sem olhos de ver que para além de suas burras estufadas de dinheiro existem gerações que precisarão sobreviver a eles.

Publicado em outubro/2017

A pátria de chuteiras

Eu tinha oito anos quando ouvi falar de Didi, Garrincha e Vavá (Pelé machucado, mas Garrincha jogou para os dois, ou melhor, quase que para o time todo), quando fomos bicampeões; 12, quando o nome mais comentado era o do português Eusébio, que destruiu nossos sonhos do tri; 16, um rapazinho que tremia de emoção ao ouvir os nomes de Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino. Tri, cravadaço!; 20, quando fomos dizimados por Cruyff e seus companheiros holandeses; 24, quando quase morri de ódio daquela “entregada” que os peruanos deram para a Argentina, que precisava ganhar deles acho que de 3 ou 4 para eliminar o Brasil, e ganhou de 6; 28, quando aquele time maravilhoso do Telê Santana justificou a máxima dos retranqueiros de plantão de que time que joga bonito não ganha copa; 32, quando o Zico perdeu pênalti e a guilhotina dos franceses desceu sobre os nossos pescoços; 36, melhor esquecer Lazaroni e seus pernas-de-pau; 40, quando o que mais se ouvia era a tal de Curva Tamburello, que matou o Airton Sena. Mas fomos Tetra, apesar do Parreira. Quem haveria de parar Romário? 44, quando chorei de emoção pelo velho lobo, o Zagallo, naquela sua performance inesquecível, histórica, ao incentivar o time para a batalha dos pênaltis contra a Holanda na semifinal. Vai que é suuuuuaaaaa, Tafarel! Mas eis que logo em seguida, na final, a decepção quando Zidane e seus gendarmes deitaram e rolaram. Pu…, digo, Penta que partiu!; 44, eis o Felipão e o penta a quem de direito. Lembram-se daquele goleirão da Alemanha, o Oliver Khan, até então uma barreira impenetrável? Levou 2 do Fenômeno!; 52, outra vez a França, sempre ela sacaneando a gente.

Agora, 56 anos. Que verei doravante? O que vier já será lucro. O hexa? O hepta? O Octa? O enea? O deca? Tomara que papai do céu me deixe ver até icosacampeão (20 vezes, gente). A propósito, vejam que nomes! 11 vezes campeão: hendecacampeão; 12, dodeca; 13, trideca…, 21, undicosa; 30, triaconta; 100, hectoconta, ai, chega de consultar dicionário e viva a pátria de chuteiras, que deve parar um mês além das longas paradas regulares, que ninguém é de ferro.

A vocês que chegaram até aqui na leitura, minhas desculpas. Não foi por mal que os enrolei. Foi por necessidade. E para não fugir ao tema, estou na área. Se me derrubarem, é pênalti.

Publicado em maio/2010

“Só a dor enobrece”

“A velhice começa quando se perde a curiosidade”, dizia José Saramago. Há tempos venho perdendo gradualmente a curiosidade, portanto…

O espetáculo do homem-alvo e do atirador de facas é uma das poucas situações que me despertam tal sentido. Quanta estupidez, quanto de instinto selvagem o ser humano ainda não se desvencilhou! Esse espetáculo estúpido venho acompanhando durante algum tempo. Admira-me a destreza da dupla, o atirador e o alvo. Ambos são implacáveis e audaciosos na defesa de seus princípios antagônicos. De um lado, lâminas funestamente reflexivas são agilmente arremessadas; as facas movem-se como raios e espetam a superfície onde o alvo acorrentado consegue escapar graças à sua capacidade contorcionista, que os religiosos afirmam ser pela proteção divina. Numa das vezes em que assistira a um episódio (este, real) fechei os olhos no momento em que uma faca cravara certeiramente na barriga do alvo, e concordaria com os religiosos se não fosse agnóstico.

Milagrosamente recuperado, o homem não se intimidou nem se intimida. Ao contrário, fortaleceu-se pela dor que, só ela, enobrece, segundo Manuel Bandeira. Valente, insiste em protagonizar embates com seu algoz que, até aqui, está tão desconsolado quanto o personagem de Gian Maria Volonté ao disparar freneticamente seu rifle no peito do personagem de Clint Eastwood na cena final de um desses westerns que fizeram muito sucesso no fim da década de 1960. Quando acaba a munição, o personagem de Volonté contempla, com assombro e desolação, o “mocinho” descartar uma chapa de aço maciço que fazia o papel de colete à prova de balas escondido embaixo da manta quadriculada.

E a constatação desse desconsolo inimigo massageia meu diafragma porque a superfície em que as facas deste texto são arremetidas chama-se Brasil, o alvo foi o então candidato e hoje presidente Jair Bolsonaro e o nosso Volonté das facas representa parcela majoritária da imprensa, da política rasteira que não aceita o resultado das urnas, dos sugadores do povo de modo geral e do ativismo político de parte do Poder Judiciário. Alguns desejam até mesmo a morte literal, à vera, do presidente, como por exemplo um jornalista da Folha, que afirmou textualmente tal desejo. Denominam-no genocida, como o triste magistrado e outros que “estão de mal” com quase 60 milhões de brasileiros que “votaram errado”; disputam pelada com cabeça de boneco com as feições do presidente grotescamente emuladas.

Esses inúmeros malabarismos são tentativas desesperadas de convencer que o país é o pária do mundo, de que absolutamente nada de bom acontece em terra brasilis. São espetáculos vulgares, deprimentes, coadjuvados pelas viúvas de um certo ladravaz ou gente simpática à ideologia comuno-socialista-trotkista-leninista-stalinista-cheguevarista-maoísta e outros istas que o diabo os carregou e que continue carregando. Ideologias estas deletérias, e, aí sim, genocidas, como nos adverte ampla literatura ao longo da história. Recomendo a leitura, por exemplo, de “O livro negro do comunismo”, de Stephane Courtois e “A grande fome de Mao”, de Frank Dikötter.

Lamento que essa circunstância de perseguição “facal” me entedie cada vez mais por falta de criatividade, de variedade nas performances a cada dia mais repetitivas, nulas de conteúdo inteligente e eivadas de mentiras e chavões sem graça. Em 2022 esse homem deverá ser reeleito em meio ao azougue de lâminas voando como nuvens de gafanhotos, e em 2026 indicará o sucessor, que será igualmente vitorioso.

E minha curiosidade amortecida irá definitivamente para o espaço sideral!

Publicado em setembro/2020

Às vezes aprendemos da forma mais traumática, como nos ensina o novo coronavírus

Não bastassem o martírio da H1N1, Dengue, Zica e demais desgraceiras, une-se a essa trama de horrores o novo coronavírus, que adentra o ambiente dos patógenos de modo triunfante e insolente como o mais perverso entre eles. Desnecessário alertar que os políticos eleitos este ano devem priorizar a Saúde Pública de modo a criar mais e melhores condições ao enfrentamento dessas pragas.

Como se diz que em tudo há um lado bom, a Covid-19 trouxe um novo desafio e deixa um legado de conquistas no setor, desde leitos, equipamentos diversos, pesquisas, até o fortalecimento das normas e convencimentos de atitudes preventivas, de higiene. Ou seja, é imprescindível não apenas preservar aquilo que a doença nos obrigou elaborar (a estrutura material, tecnológica e científica), mas também, e, talvez mais importante até, desenvolvermos a consciência de que coisa pior pode estar a caminho, e essa coisa pode não ser tão “compassiva” quanto o novo coronavírus, que “só mata” cerca de 3 a 5% dos adoecidos, segundo estimativas.

Ah, gente eleita, cuidar da higiene e do aspecto dos logradores públicos também é uma forma de prevenir: se não as doenças do corpo, pelo menos a doença da alma contaminada pelo que nossos olhos veem e nosso senso de capricho, estética e de bom gosto percebe.
Nossas ruas são em geral mal pavimentadas, com superfícies irregulares e esburacadas, calçadas intransitáveis ocupadas por toda espécie de tralha particular. Somente um gestor que reconheça o problema e que tenha honestidade de propósitos pode evitar futuro flerte com o caos (e promover o divórcio desse casamento bizarro com a feiura decadente). Há que se debruçar com carinho nessa questão, elaborar planos de ordenamento urbano e paisagístico. E a pergunta que não cala: dá para realizar serviços de calcetaria com qualidade, que resistam a uma chuva severa?

Publicado em setembro/2020

Criança bom-jesuense pode estar acometida de doença rara

Vítor com a mãe, no aniversário de seis anos completados em janeiro/2005, cerca de um ano após o aparecimento dos primeiros sintomas

Vitor Morais Figueiredo, 7, até quase os cinco anos de idade era uma criança normal, quando a partir daí a mãe Maria de Fátima M. Silva, 38, percebeu tremores nas mãos do menino. Na tomografia a que foi submetido em Bom Jesus os médicos descobriram uma pequena mancha no cerebelo de Vitor, momento a partir do qual começou a difícil provação da criança e de seus familiares. Numa rápida gradação Vitor foi perdendo os movimentos e parou de andar, o que ocasionou atrofia de seus membros. Também a fala foi fortemente prejudicada; a comunicação hoje é difícil, somente a mãe consegue entender os sons que o filho consegue emitir.

Filho de Maria de Fátima com Antônio Marcos G. Figueiredo, 36, Vitor tem uma distante descendência portuguesa (uma das bisavós tem a origem genética do povo luso). A Dra. Tânia Saad, neuropediatra carioca a quem o menino foi encaminhado disse que a “doença cerebelar Machado-Joseph” é o diagnóstico de elevadas probabilidades, já que os sintomas, o modo como as manifestações iniciaram e o grau de parentesco com portugueses, povo onde a rara doença congênita faz o maior número de vítimas parecem desvendar a equação para o desditoso diagnóstico.

Primeira criança?
Estudos da Unicamp (Universidade de Campinas/SP) apontam que “a manifestação clínica da doença varia de acordo com a população. No Brasil, a média etária gira em torno de 40 anos e, em alguns relatos, aos 25, mas não se tem registro em crianças, embora já presente no gene. A probabilidade de um portador transmitir geneticamente a doença é de 50%”. Logo, embora não se possa afirmar, é provável que a criança bon-jesuense seja a primeira a encabeçar a indesejável lista de acometidos infantis se o diagnóstico restar comprovado. Para tanto, a mãe do pequeno Vitor vem tentando fazer uma avaliação genética no Centro Fernandes Figueira, Rio de Janeiro, especializado na área genética; “a equipe da médica (Dra. Tânia) está empenhando-se em marcar. Ela está tentando passar na frente da fila quilométrica porque o caso do Vitor é bem delicado”, conta Maria de Fátima. Segundo ela, tanto Vitor quanto o pai, que também passou a ter alguns sintomas recentemente, devem ser avaliados: “o pai começou a sentir fraqueza nas pernas. Um tio-avô do Vitor e uma tia-avó provavelmente têm a doença e eles só ficaram sabendo depois de tudo o que aconteceu com o meu filho. Achavam que era problema de coluna”, explicou Maria de Fátima.

Machado e Joseph
O médico português Manuel Luciano da Silva é didático no detalhamento da doença: “houve, durante muitos anos, em certas localidades da Ilha dos Açores, uma enfermidade vulgarmente denominada Doença do Tropeção. O povo e até os médicos consideravam que esta doença devia ser devido a bebedeiras ou então causada por doenças venéreas trazidas pelos tripulantes de New Bedford, Massachusetts, que andavam à caça de baleias no Atlântico Norte e deixavam a marca do seu mal nos Açores. As vítimas desta doença foram, durante muitos anos, ridicularizadas injustamente. Em 1972 foram diagnosticados na área de Fall River os dois primeiros casos da Doença do Tropeção ou da Doença de Machado-Joseph. O primeiro caso a ser descoberto foi o de William Machado, descendente de uma família da Bretanha (província francesa) na Ilha de São Miguel. O segundo foi de uma família chamada Thomas e logo a seguir apareceu outro caso no norte da Califórnia numa família chamada Joseph, e daí o nome da doença: Machado-Joseph”, explica, acrescentando que a praxe científica é batizar com o nome do cientista uma doença que ele acaba de descobrir ou então do primeiro doente no qual foi detectada a nova enfermidade: “neste caso a ciência médica resolveu prestar homenagem aos últimos nomes dos dois doentes: Machado e Joseph”.

Sintomatologia
“O quadro clínico é dominado por falta de coordenação motora, atingindo a fala, os movimentos finos das mãos e provocando alterações oculares. Com o tempo, a doença se agrava. Os pacientes não se movem, têm dificuldade para falar e ficam confinados à cadeira de rodas. Eles passam a não comer, engolir e respirar. É uma doença dramática e sem cura”, diz o texto da Unicamp.

O Dr. Manuel adverte que a Machado-Joseph pode ser confundida com a esclerose múltipla, mas ela se diferencia porque os pacientes daquela não têm incontinência urinária ou fecal, como alguns acometidos de esclerose. Todavia ambas são derivadas, segundo ele, de uma espécie de “defeito na instalação elétrica do sistema nervoso”. E explica: “todos nós sabemos que um fio elétrico é composto por duas partes: por dentro contém um fio de cobre através do qual corre a corrente elétrica e por fora consiste de um invólucro de borracha ou plástico, que serve para isolar o fio elétrico, evitando curto-circuito. Uma fibra nervosa tem exatamente a mesma composição de um fio elétrico: por dentro o fio nervoso é composto por neurofibrilhas (fios fininhos) que conduzem a eletricidade humana, e por fora têm um invólucro isolador que é a chamada membrana Schwann (nome do cientista que a descreveu primeiro) que serve para evitar o curto-circuito ao longo do nervo. Se a membrana de Schwann é danificada, por exemplo por um vírus (como pode acontecer à borracha do fio elétrico estalar ou queimar-se), a eletricidade humana PERDE-SE ao longo dos tecidos e a pessoa fica parcial ou totalmente paralisada”.

Lucidez preservada
O mais dramático na maioria das doenças degenerativas, como a Machado-Joseph, é que ela leva a uma grande incapacidade motora sem nunca alterar o intelecto, isto é, a pessoa vai definhando perfeitamente lúcida, com as faculdades mentais absolutamente preservadas: “o Vitor sabe exatamente tudo o que está acontecendo com ele. Ele fica falando que se lembra de quando ia à praia, de quando andava, das artes que fazia, e que quando voltar a andar vai fazer isso e aquilo”, disse Maria de Fátima, mal disfarçando a emoção.

Publicado em outubro/2006