Aqui eu guardo meus escritos.
Obrigado pela visita.

O recente arranca-rabo envolvendo os senadores Antônio Carlos Magalhães e Jáder Barbalho dá bem a tônica da moral e dos bons costumes que permeiam a personalidade de boa parte dos políticos do mais alto clero deste país. Os dois maiores caciques digladiam-se com palavras que fazem corar o mais obtuso dos cidadãos, envergonham o mais salafrário dos vigaristas, ruboriza a ralé dos indignos.
Mas eles são excelências, ora bolas. E apesar dos xingamentos serem a vero, fica parecendo mais coisa de excêntricos, um capricho de milionários, que não tendo mais nada a conquistar no terreno pessoal (já que têm tudo o que querem), resolvem se divertir acirrando mutuamente as adrenalinas. Para os simples mortais, no entanto, é caso sério. Começa pela desilusão de saberem que sua vida é influenciada intensamente por gêneros dessa estirpe, que sua mais alta corte legislativa bem parece a casa da mãe Joana, e culmina com a tristíssima constatação de que os senadores ali estão para realizar o inimaginável, menos trabalhar pelos interesses do Brasil e dos brasileiros.
Quando duas prostitutas disputam a tapas o mesmo cliente, se agridem com palavras de baixo calão e perdem ambas chumaços de cabelos, a cena é deprimente, mas não causa maiores dissabores senão a elas próprias, evidentemente. Quando vossas excelentíssimas não economizam nos adjetivos que exprimem os piores instintos humanos, com a palavra ladrão se banalizando a tal ponto que chega a ser quase um elogio, aí quem se ferra é o povo porque sabe-se que neste débil país tudo oscila no humor dos seus políticos.
Fico com as prostitutas.
A briga particular dos dois bólidos não seria nada tão assombroso, não restasse a dúvida: e se ambos estiverem certos? Se são realmente, como eles próprios se acusam, ladrões, salafrários? Como é que fica? Veremos suas fotos estampadas em cada poste com a inscrição “procura-se”? Existirá alguém na face da Terra que ousará intentar ações jurídicas que os destronem dos respectivos reinos ricamente ornamentados com o sacrifício da imensidão de pessoas que vivem na fronteira da desesperança? Francamente!
Arnaldo Jabor não exagerou quando disse: “eu presenciava a baixaria dos dois brigões, com ladrão daqui, fujão dali, quando uma barata se aproximava dos meus pés. Pensei em esmagar bicho tão asqueroso, mas resolvi poupá-la porque é preciso que viva alguma coisa natural e pura neste Senado”.
É o cúmulo do escárnio para com o povo sofrido e desesperançado. Para quem tem vergonha na cara e apesar dos pesares ama o seu país, cada ofensa trocada entre membros de uma instituição como o Senado Federal, a mais alta corte legislativa e que teoricamente simbolizaria o equilíbrio, a tolerância e o fair play entre seus membros, dói na alma. Cada palavra de baixo calão que de lá se ouve é como um objeto pontiagudo ferindo de morte o lábaro que ostentamos estrelado, é a dignidade pública violentada, a desilusão consolidada.
A se confirmarem as denúncias, fica o gosto amargo da constatação de quão putrefatas se encontram as instituições brasileiras e a sensação de que a única solução para o Brasil seria uma faxina geral do sistema viciado que aí está, com o extermínio das ervas daninhas que impedem o florescer do otimismo e da esperança.
Publicado em dezembro/2000

É impressionante a fragilidade dos nossos planos econômicos. À exceção do Real, todos os seus predecessores sucumbiram fragorosamente nas primeiras dificuldades, onde alguns não chegaram a 90 dias de vigência. O próprio Real, que se mostrava eficaz contra a mais terrível geradora das injustiças sociais — a inflação, já não se sente tão seguro à mercê dos especuladores, as turbulências do momento. Os motivos para essa fragilidade a gente sabe, e sem querer entrar em minudências pode-se resumir, convictamente, que é ocasionada pela negligência dos políticos que tergiversam quando convocados a deliberar sobre as reformas imprescindíveis para a sustentação da estabilidade monetária.
Sem essas reformas, quem tem a obrigação de proteger a moeda contra os especuladores é exatamente — até quando? — os que não a possuem. Ou a recessão, a estagnação e o desemprego não atingem somente a população pobre? A minoria abastada, apesar de também sentir um certo desconforto em relação à sua qualidade de vida não sofre tanto, uma vez que sempre encontra mecanismos de proteção. Toda vez que um burocrata da economia pega da caneta e rabisca seu jamegão autorizando a elevação dos juros, especialmente um aumento brutal como este mais recente, interfere imediatamente no feijão-com-arroz do pobre. E estas intervenções ou outras modalidades ainda mais perversas sempre ocorrerão em economias instáveis à medida da oscilação do bom humor internacional.
Se Bill Clinton acordar mal disposto, se Hussein resolve brincar de jogos de guerra ou se os tigres asiáticos num belo dia decidirem regredir à infância e virar gatinhos, nosso frágil e incipiente Real sofre as consequências, ou melhor, quem não os tem nem nunca teve. Acorda, Themer! Acorda, ACM! Acordem todos vocês, políticos, do sono da inércia, da veleidade e da incúria. Esqueçam por um momento seus interesses pessoais e pensem no Brasil como um todo. Consolidem definitivamente nossa economia, protejam-na contra a pirataria, dotem-na de estruturas que a façam segura por si só.
Feito isto, teremos dado um grande passo no sentido de dificultar, ou mesmo impedir, que um Nahas qualquer possa reduzir ainda mais os já escassos grãos de cereais que ainda conseguem impedir, a duras penas, o roncar dos estômagos de uma considerável parcela de compatriotas.
Publicado em novembro/1997

Com esta frase Castro Alves exprimiu seu espanto diante da realidade dos negros escravizados amontoados nos tombadilhos dos navios sofrendo os martírios mais cruéis pela insensibilidade e a ganância dos seus verdugos no célebre poema “O Navio Negreiro”.
O brasileiro comum, o que de fato labuta, cumpre seus compromissos, paga impostos, taxas e tarifas, dá e executa trabalho, contribui realmente para o progresso sacrificando-se duramente a vida inteira com poucos rendimentos e muitas obrigações pode invocar a frase do poeta para um desabafo do que lhe dois na alma. São sentimentos generalizados de repulsa, de indignação que beira à náusea, de revolta e ao mesmo tempo desesperança pela portentosa máfia que tomou conta do país e que nele grudou de tal forma que somente a divindade pode remover. Nenhum adjetivo pejorativo, nenhuma construção de frases e orações, ainda que partissem de Camões poderiam acrescentar muito para o entendimento da dimensão a que chegaram a corrupção e a safadeza. Elas atingiram um grau extremo que já não há a menor necessidade de dissimular, já não se preocupam em escondê-las.
Quando um presidente de um país faz um esforço hercúleo para alçar um tal Jader Barbalho ao trono mais nobre da mais nobre instituição política, que é o Senado Federal, e efetua as mais inacreditáveis lutas para evitar uma CPI da corrupção, tudo fica às escâncaras, visceral, rompe-se a última fronteira da esperança de que possa haver uma tábua de salvação, uma luz no fim do túnel. A decência, a ética e a moral estão irremediavelmente mortas, esquartejadas e insepultas, deixando um rastro de devastação, fedor e desesperança.
Numa analogia que não é assim tão desproposital, a imensa manada que somos nós, o povo, se tornou escrava de uma gente impiedosa, sanguinária. As circunstâncias em que vivemos de certa forma não diferem das de nossos ancestrais de cor negra porque apesar da mudança de cenário continuamos dominados, manietados por um sistema moldado numa especificação criada pelos poucos privilegiados que só têm olhos de ver seus escusos interesses pessoais, movidos pelo desvario da ambição. Os porões infectos dos navios negreiros eram resultado do mesmo senso que prevalece entre a casta política de agora, que só difere da de então pelos métodos modernos de escravizar, compatíveis com a evolução.
O ar viciado de Brasília, produzido em gabinetes cinematográficos com seus salazes ocupantes que usam privadas folheadas a ouro e pisam em legítimos tapetes persas, aflora daquela ilha da fantasia cercada de desolação por todos os lados e esmaece o horizonte da outrora pátria-mãe-gentil acuando, humilhando, sugando a energia vital dos súditos que, justiça seja feita, ainda podem contar com o circo onde se arrombam painéis, dignidade e respeito.
“Andrada! Arranca este pendão dos ares! Colombo, fecha a porta dos teus mares!”, delirou o poeta.
Publicado em maio/2001

Começou a dança dos cargos. Velha reprise repulsiva que corporifica a hipocrisia e a empulhação de um governo obcecado apenas no poder pelo poder. A fim de garanti-lo a qualquer preço, loteia-se o país em capitanias hereditárias e as distribui aos próceres detentores de uma coisa preciosa e mágica, que o maioral da banda busca com sofreguidão: o voto.
Você sabe para que serve o Ministério do Trabalho aqui no Brasil? Com certeza não é para criar políticas de incremento ao emprego; o da Saúde? Dengue, tuberculose e caos no atendimento público nos dão a resposta; o do Meio Ambiente? Quem sabe para impulsionar os lucros dos fabricantes de motosserras e, nas horas vagas, contemplar placidamente incêndios florestais ao mesmo tempo em que exercita a verborragia falaciosa da defesa intransigente da integridade territorial da Amazônia? O da Reforma Agrária? Serve, talvez, para fomentar desavenças públicas de Jungman com Rainha e, justiça se lhe faça, serve também para criar fontes alternativas de emprego: as das milícias paramilitares defensoras dos latifúndios improdutivos. No da Agricultura, não formulem a pergunta a um pequeno agricultor se imprecações fazem mal aos seus ouvidos. No dos Transportes, não critiquem perto de um mecânico de suspensões de automóveis; ele pode não gostar que ameacem sua fonte de renda; No da Educação, por uma questão de segurança da sua integridade física, não teça elogios perto de um professor da rede pública; No da Justiça…, quantos anos de cadeia pegaram os abastados incendiários do índio Galdino? Sérgio Naya, anões do orçamento, quadrilha dos precatórios, assassinos dos sem terra…, alguém está vendo o sol nascer quadrado? E o da Economia? Este, sim, é bom. Para os banqueiros, para os especuladores, para os empreiteiros. No momento, inclusive, queimam pestanas e neurônios para elaborar um plano subliminar a fim de engordar ainda mais as já polpudas contas correntes dos grandes usineiros (talvez como prêmio por terem quebrado o estado de Alagoas e envergado o Banco do Brasil), reativando o famigerado Proalcool.
E é o povo, como sempre, quem pagará a conta. Pensando nisso, relembrei uma famosa frase que teria dito a ex-ministra Zélia nos trevosos idos de 1990: “O povo é apenas um detalhe”.
Que os elege, – acrescento eu.
Publicado em outubro/1999

Euclides da Cunha já dizia que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Licença mediúnica ao autor de “Os Sertões” para mudarmos a frase. O brasileiro como um todo é, antes de tudo, um forte. Por muito menos do que essa tragédia moral que se abateu sobre ele, outros povos não teriam sofrido calados, sem atitudes, a tamanha torpeza de sua classe dirigente. Alguns petistas têm razão quando defendem a tese de que o partido não é o único malfeitor do Brasil.
O problema da política nacional é que ela está podre, decomposta, contaminada pelo verme da corrupção, do descaso pelo Brasil e sua gente. Com efeito, seria maniqueísmo debitar a uma única agremiação a perversidade da roubalheira, mas o PT acenava ser a tábua da salvação moral, o apanágio da ética. Vê-se, amargamente, que se iguala ao mais vil e abjeto, porque além de tudo fraudava desvirtuando a democracia e os ares libertários conquistados a duras penas.
Que coisa terrível pensar que a liberdade, a família, o trabalho, a vida, o futuro, enfim, tudo é regido por uma classe política da pior espécie, com poucas exceções! Como envergonha sermos contemporâneos dessa cáfila; como desespera a impotência ante o verdugo; como exaspera a falta de perspectiva e a incapacidade de mobilização para a tomada de atitudes.
Ulysses Guimarães dizia que entre os políticos, o mais bobo conserta relógios com luvas de boxe. E não é só lá. Um vereador aqui do Vale do Itabapoana, perguntado pelo jornalista sobre o porquê de a Câmara não ter mantido o salário anterior após a redução das cadeiras, em vez de incorporar proporcionalmente a sobra dos recursos aos salários dos edis, disse: “Para quê, para sermos chamados de bobos?”.
O município e sua gente, para este vereador, não passam de detalhes dos mais insignificantes. Escândalo em cima de escândalo! Henfil dizia, já naquela época, que deveria ser criada no Brasil a “Escandolbrás”, entidade que serviria para catalogar e administrar os escândalos municipais, estaduais e federais. Coitado. Se soubesse que o seu PT haveria de encabeçar a lista dos mais finórios escandalizadores, teria se rendido ao verde-oliva de alma, coração e mente. Agora, recém-saído do forno, o escândalo da Máfia do Apito.
Árbitros de futebol fraudando resultados da maior paixão do país é apenas a metáfora do tiro de misericórdia no coração do brasileiro: Querem acabar com o pão, já murcho, então vamos acabar também com o circo.
Publicado em outubro/2005