Aqui eu guardo meus escritos.

Obrigado pela visita.

As formigas e o verme

Ele chegou com ar preocupantemente grave, olhos baixos e um tremor nos lábios denotando forte emoção. Mais próximo de mim levantou em súplica os olhos embaçados pela idade:

— Por favor. Ajude minha neta.

— Hein?

— Ela está no chão da cozinha se esvaindo em sangue.

Não podia perder tempo com explicações. Saí com o velho puxando-o pelas mãos o mais depressa que seus passos curtos podiam por uma viela de São José do Calçado. Subimos a rampa que dava acesso à residência dois quarteirões depois do meu, onde moravam ele, a filha e a neta de 11 anos que fazia os trabalhos da casa enquanto a mãe trabalhava como doméstica em Bom Jesus. Na cozinha, uma cena dantesca: a criança raquítica, que aparentava menos idade da que realmente tinha, no chão, em posição fetal, mãos em concha nos genitais ensopados de sangue, gemendo, olhos vítreos de pavor fitando o nada. Recuperei-me do choque e imediatamente liguei para o hospital. Já na ambulância, o diagnóstico: estupro.

Desnecessárias as considerações sobre a selvageria do crime e dos traumas psicológicos da vítima. Um homem corpulento, foi só o que a criança conseguiu identificar, com cerca de 30 anos, bafo insuportável de cerveja. Pegou-a de surpresa quando o avô jogava o baralho rotineiro na praça próxima para matar o tempo da aposentadoria. Tapou-lhe a boca, ameaçou-a. Grandessíssimo covarde!

Ah, leitores, deixem-me apresentar: sou Gentil dos Anjos Flores da Purificação, 37 anos. De vez em quando apareço por aqui com esse pseudônimo consoante minha personalidade dócil. Sim, dócil. Sou um sujeito amistoso, possuo instrução superior, adoro minha família. Tenho muitos amigos, vou à missa todos os domingos com minha mulher e o casal de filhos, uma menina com 12 e um rapaz com 14. Mas vejam este emaranhado de incongruências que é a personalidade humana.

Minha cidade é pequena, próxima de Bom Jesus. Todos conhecem todos. Aos domingos costumamos bater uma bola no campinho mantido pela prefeitura perto de onde moro. Num desses domingos, achei que o Pacheco estava meio doidão; chegou a me dar uma canelada com seu corpanzil. Doeu pra burro. Ao se desculpar, um bafo rançoso de cachaça provavelmente misturada com cerveja e algum tira-gosto acebolado. Cruz credo! Depois do jogo, como costumávamos fazer, paramos no boteco do Ranulfo. Uns seis ou sete de nós molhávamos a conversa sobre a roubalheira no governo Lula da Silva, prometendo que por nós ele voltaria para Garanhuns e de lá jamais sairia.

De repente passou uma mocinha de uns 15 anos e percebi que o Pacheco a fitava com um olhar estranho. Depois de várias cervejas e algumas purinhas para complementar, o Pacheco, que já estava meio chumbado, chegou a um adiantado estado etílico — a senha para que meus amigos se despedissem. Mas eu e ele ficamos para uma saideira proposta por mim. Dado o seu estado, foi fácil disfarçar que eu também bebia com a mesma sede.

— Gosta de meninas novinhas, Pacheco?, perguntei, de chofre.

— Ahnn?, arregalou os olhos.

— São bonitinhas em sua inocência, concorda?

— Que conversa é essa, Gentil?, falava como um autêntico bêbado que estava.

— Pode se abrir comigo, Pacheco, temos as mesmas preferências.

— Para com isso, disse, sem muita convicção.

— Vai dizer que não…, eu insistia, não deixando seu copo esvaziar.

— Ah, Gentil. Isso é chave de cadeia…

— Pô, cara. Não confia em mim? Pode se abrir. Sou seu amigo e gostamos do fruto proibido. Não é legal ter alguém com quem compartilhar as mesmas predileções?

O brutamontes fitou-me ainda meio desconfiado:

— Não sabia disso. Está falando sério?

Forcei uma expressão lasciva em resposta, olhar contemplativo que rompeu a última fronteira de sua sobriedade. Ele grunhiu:

— De 10 a 15.

— Como?

— Depois de 15, não gosto.

— Ah, seu safardana, que coincidência. E prefiro pegar elas de surpresa.

Ele não resistiu, se abriu totalmente, escancarou.

— Então sê também gosta, né? O que você diz pra elas não gritarem?

— Conta você primeiro.

— Simples. Tapo a boca delas, ha, ha, ha.

— Aquela de 11 foi você, Pacheco?

— A safada lutou muito. Mas depois sei que gostou, igual as outras. Peguei ela por trás, nem me viu.

Vontade de triturar o vagabundo ali mesmo. Mas me contive, levaria o planejamento adiante.

— Pacheco, que tal se nós…, cochichei no seu ouvido um harém imaginário cerca de 10 quilômetros dali.

Topou na hora, como que se refazendo da bebedeira, num esgar horrível de perversão. Pagamos o restante da conta e entramos no meu carro. Já estava escurecendo, e a pretexto de procurar alguma coisa, abri o porta-luvas. Discretamente acariciei meu trezoitão, assegurando-me de que não o esquecera. Numa estradinha de chão, depois de rodar uns seis quilômetros, já noite, parei para “urinar”. O miserável também desceu, sem disfarçar o frenesi pela festa que julgava próxima. Abri o porta-malas e peguei as algemas que havia comprado numa ocasião num brechó no Rio de Janeiro. Peguei também a lanterna. Dei a volta e entrei pela porta do carona, peguei o 38 e, por trás do desgraçado, apontei para sua nuca.

— Nem um pio. Aqui tem muitos urubus doidos por uma farra.

— Mas…

Dei-lhe uma coronhada para ilustrar que falava sério, com força calculada para não desacordar aquela imundície.

— Vamos conversar mais um pouco sobre menininhas, disse, colocando-lhe as algemas.

Manietei-o com a fita crepe que também carregava no porta-luvas, dando muitas voltas. Quase não pude controlar a náusea por aquele verme covarde, com os olhos saltando das órbitas pela estupefação, em indescritível pavor, ao contrário do miserável estuprador cheio de si, arrogante ao seviciar suas vítimas. Amordacei-o porque já estava perdendo a paciência com suas súplicas a Deus e a todos os santos. Derrubei-o para que ele pudesse passar de gatinhas, apoiado nos cotovelos, por baixo da cerca de arame farpado. Já em pé, fui empurrando-o com o cano da arma nas suas costas até uma pequena mata no meio do pasto, a uns 800 metros da estradinha, onde os pouquíssimos passantes, quase nenhuns àquela hora não nos surpreendessem.

Tudo se passava na minha cabeça enraivecida: o drama daquela criança inocente, frágil, marcada para sempre pelo desatino de um brutamontes filho de uma que ronca e fuça; minha própria filha, linda, desabrochando para a vida sem a percepção do que há de ruim neste mundo. Filha a quem dou minha própria vida, se necessário. Entrando na mata, ordenei que parasse. Minha intenção era matar o desgraçado depois de fazê-lo sofrer, mas ainda não tinha ideia como. Clareando o chão com a lanterna, vi um grande formigueiro, daquelas formigas pretas que mais parecem piranhas terrestres, tal a voracidade com que mordem. Aí me bateu uma ideia perversa. Desabotoei enojado sua calça e arriei sua cueca sórdida. Calculei mentalmente as distâncias em relação ao tamanho do infeliz e finquei três pedaços de pau no solo fofo pelas chuvas que caíam há uma semana, com a ajuda de uma pedra, dispondo os paus como os vértices de um triângulo. Obrigueio-o a se sentar e amarrei firmemente com a fita seus pés em dois dos paus, de modo que suas pernas formassem um V. No outro pau, coloquei seus braços algemados e igualmente os amarrei fortemente. Pronto. Ele estava sentado, nu, em cima do formigueiro, imobilizado.

Não quis ficar olhando o trabalho das formigas. Fui embora e programei o celular para me acordar às 3 da madrugada. Quando voltei, a lanterna me apontou uma cena macabra: seu pênis e testículos haviam se transformado numa pasta liquefeita. O semblante do infeliz não era bonito de ver. Falei ao seu ouvido:

— É bom estuprar menininhas, seu bastardo? Ato contínuo, aliviei seu sofrimento com um balaço na nuca.

No outro dia, a cidade em polvorosa. O velho foi até minha casa perguntar se eu sabia o que havia acontecido. Pisquei um olho e disse:

— Presente meu para sua netinha.

Em seguida fui prestar contas à Justiça. Contei tudo. E deste catre onde pago a dívida com a sociedade, e de onde escrevo estas notas, nada é mais confortante que o olhar de ternura daquele velho que vem me ver todos os dias.

Publicado em outubro/2006

Que falta de sorte!

“MACACO, 66”

Esta frase do entregador do jogo do bicho dita ao dono do boteco estremeceu Fagundes. Sentiu um friozinho, uma doce sensação. Desde às 13h estava de plantão no botequim do Ranulfo aguardando o jogo das 14h, o Paratodos no linguajar dos “corretores zoológicos”. Deu macaco, 66, justamente a dezena que Fagundes havia jogado. “Só falta ter vindo com o milhar e a centena que usei para complementar o número de quatro dígitos, e aí ganho uma fortuna”, pensava Fagundes com as mãos trêmulas de emoção. Se viesse, estaria rico, pois investiu o que tinha (R$ 60, miséria pouca é bobagem) e ganharia quase R$ 100 mil. Preparou-se psicologicamente:

— E aí Ranulfo? Deu macaco em 66?

— É… Bicho manhoso. Como se pode ganhar nesta porcaria com tudo repetido? Veja só, deu tudo seis, 6666!

Fagundes emudeceu. Quase teve um colapso. Não conseguia se mexer, ficou momentaneamente estático, pasmo, mas logo se refez e desandou a gritar e a pular feito… macaco. Em fração de segundos sua personalidade se transformou. O que antes era um homem cabisbaixo, tenso e calado em razão das vicissitudes da vida, transfigurou-se num sujeito falastrão, com ares de importância jamais imaginada em sua simplória existência. Pagou rodadas e rodadas de cerveja para as pessoas que iam chegando atraídas por aquele barulho todo. Em questão de minutos uma pequena multidão se aglomerou no boteco.

Fagundes rezava, beijava com ardor o pedaço de papel que significava doravante sua carta de alforria daquela vida miserável. Agradecia a todos os santos por terem lhe proporcionado aquele sonho da noite anterior, no qual era chamado de besta pelos amigos porque não tomara nenhuma atitude ao surpreender sua mulher com o amante. Viciado no jogo do bicho e inteligente como julgava ser, Ranulfo não apostou no touro ou no burro, como era de esperar, mas lembrando-se que a Bíblia diz ter a besta o número 666, aproveitou o embalo e acresceu do milhar 6. “Não deu outra”, pensou. “Sou mesmo um sujeito inteligente!”

Começou a traçar planos. Iria na revenda comprar um carro, tomaria um banho de loja e depois formaria um estoque de Viagra. “Quero ver a cara daquela vadia quando me vir ao volante do meu carrão, com tudo em cima, e mais tarado que noivo em véspera de casamento. Ela vai se arrepender amargamente de ter me trocado por aquele safado do Juca Nastrão”, pensava com uma fisionomia perversa e vingativa.

Antes de ir à banca receber sua bolada, Fagundes, num surto de generosidade, resolveu dar R$ 100 a cada conhecido que estava no boteco. Um deles se prontificou em sacar da poupança de anos a fio uns R$ 3 mil para emprestar ao novo-rico (aquele papel escrito 6666 era uma garantia e tanto.) Dinheiro distribuído, Fagundes aconselhou o pessoal a arriscar no gato no jogo das 18h, já que ele, o sortudo, nascera em 1955, e 55 é o felino.

— Você não vai jogar mais?, alguém perguntou.

— Hoje não. Estou com pena do bicheiro, escarneceu Fagundes, dirigindo-se ao encontro do dito-cujo. Lá chegando, empertigou-se com ares de importância nunca dantes imaginada, sacou do bolso o papel miraculoso e disparou:

— E aí, meu chapa? Preparado pra desembolsar uns R$ 100 mil?

Imperturbável, o bicheiro retrucou:

— Claro, esse é o jogo mais honesto. Vale o escrito.

— Então, aqui está. Faça os cálculos.

— Hum…, deixa ver…, hum…, você ganharia R$ 80 mil no milhar, mais R$ 12 mil na centena e R$ 1,2 mil na dezena.

Fagundes esfregava as mãos, abstraído do terrível verbo no futuro do pretérito.

— Ganharia, enunciou o bicheiro com exagerada ênfase, para em seguida disparar a sentença cruel: — seu jogo correu às 10 e o macaco veio às 14h. Vale o escrito, lembra?

Doloroso demais! A desgraça só não foi maior porque deu o gato às 18h. Em 5555.

Publicado em outubro/1997

Encontro

Há tempos compus o soneto abaixo, “Trapaças da sorte.” Talvez por causa dele minha felicidade começou. Ou minha desdita, dependendo da interpretação de cada um. Alguém o leu, isto é certo; mais que leu: interpretou com inteligência e sensibilidade, tal como eu desejava.

“Na luta pela vida eu tirei partido,/
Do trabalho e forças de vencer, tamanhas,/
Que conquistei lauréis, glórias, façanhas,/
Deixando de joelhos o desânimo, vencido./

Fui audaz, forte, corajoso, destemido,/
Rompi barreiras, cumes e montanhas,/
Senti a dor procaz corroer-me as entranhas,/
Mas não quedei, de mim nenhum gemido./

Só nestas horas em que bate a solidão,/
E em que pese o que eu levo de roldão,/
Ignorando se o bem ou mal me quer./

Penso em Deus com uma única ressalva:/
Não confiscou minha fiel Estrela-Dalva,/
Mas não me deu o amor de uma mulher!/”

Certo dia eu atravessava a ponte em direção a Bom Jesus do Norte matutando sobre este soneto que, como psicanalisaria Humbert, Humbert (by Vladimir Nabokov) é, sem dúvida, a obra-prima de um louco: rimas áridas, rígidas, sombrias e sem perspectivas. Quando chego à Praça Astolpho Lobo a vejo, e num átimo meu coração ameaça saltar pela boca!

Lindíssima, sentada próxima a um dos quiosques, cabelos longos iguais aos que José de Alencar, ao descrever Iracema, dizia serem mais negros que a asa da graúna, levemente ondulados. Batom vermelho-sangue, olhos claros, claríssimos, pele sedosa e alva como a face da manhã, um conjunto de perfeição física que contrastava com a indumentária da cor dos cabelos, não estou certo se uma túnica ou um vestido.

Aproximadamente 30/35 anos, nessa fase da vida em que as auras de mistério das mulheres as tornam mais irresistíveis e envolventes. Olhei-a; olhou-me. Senti-a; sentiu-me. Olhares profundos, dos que perpassam a alma. Muito tempo, mais de meia hora, olhos nos olhos, quase sem piscarmos. Viajei; viajou. Adrenalina pura. Limalha e ímã. Mas como não há bem que sempre dure, desaponto o leitor e a leitora ávidos por finalmentes, de preferência cenas tórridas em meio a lençóis de seda. Recomponha essa cara de tarado/a, dê-se ao respeito! Um vácuo na memória é o que restou a partir daí, só readquirindo estabilidade em São José do Calçado, onde me encontrava noutra ocasião. E lá estava ela! Na praça. No banco. Em frente à igreja de São José. Olhou-me de soslaio, sabedora com antecipação de que ali estaria eu, extasiado, hipnotizado. Aproximei-me… Que diabo de vácuo!

Agora estamos em Apiacá, eu e ela, ela e eu. Adivinhem onde? Acertaram. E desta vez me lembro direitinho, inclusive da autoadmiração em perceber a ausência da minha timidez velha de guerra, daquela que fazia Pablo Neruda passar ao largo, distanciando-se das garotas, fingindo um desinteresse que estava longe de sentir, num excessivo acanhamento, num ensimesmamento prolongado que levam a um sofrimento inseparável, pois que a timidez, ainda segundo o poeta, é uma condição estranha da alma, uma categoria e uma dimensão que se abre para a solidão.

Mas eu dizia: falei com ela. Confiante, garboso, sentindo o germe da grandiloquência anos e anos represado:

— Bela manhã…

— Belíssima, ela respondeu com uma voz doce, terna, serena.

— Não já nos vimos em Bom Jesus, em Cal…

— Psst, cortou ela. — Não fale… — ordenou como se começasse a entoar uma melodia maviosa, baixinho como cantigas de ninar.

— Mas…

— Psst. Apenas sinta este momento.

— Claro, claro, balbuciei.

E ficamos nos olhando, nos admirando mutuamente, cada centímetro de nossos corpos perscrutados com a lupa de um arqueólogo que acaba de descobrir o mais fenomenal sítio arqueológico, com o frenesi dilacerante que impede seus dedos tocarem as raridades. Algum tempo depois, ela quebrou o silêncio:

— Serei tua. Pra todo o sempre. Prometo. De uma forma mágica, numa dimensão tão fantástica como requer nosso merecimento.

— Qual o seu nome, onde mora, por que… — uma cascata de perguntas ameaçava vir de minha mente aos borbotões, não tivesse ela ordenado outra vez:

— Tudo a seu tempo. Você terá todas as respostas, não se preocupe. Agora, faça o favor, vá. Eu o encontrarei em breve.

Um gesto tão carinhoso quanto vigoroso que ela fez me impediu de tocá-la. Ainda fiquei ali contemplando-a, com o peito transbordante daquele amor platônico avassalador, gemendo no íntimo por ter de me separar daquela mulher que se transformou como num passe de mágica em tudo o que para mim era mais sagrado, mais bonito, mais enternecedor desde os meus filhos.

Afastei-me relutantemente. Segui em direção à prefeitura de Apiacá quando comecei a ouvir um burburinho aflitivo. O conjunto de sons denotava ar grave, choros se misturavam a barulhos de passos apressados, ordens eram dadas, objetos removidos e manipulados freneticamente. Mas os sons foram se apagando gradualmente, e depois que se foram de vez, uma aura de bem-estar completa, total, se apoderou de mim.

E aqui estou, leitor, leitora, tendo suprimido, corado de vergonha, a ressalva a Deus no poema. Estou com ela, claro, fiel cumpridora de promessas, num lugar maravilhoso, divinal, onde receberemos vocês um dia com alegria e carinho.

Tudo a seu tempo.

Publicado em novembro/2006

Minha vida dá um filme

Minha Vida de Cachorro começou quando resolvi entrar para A Gang da Loba e fazer um Assalto ao Trem Pagador, onde despertei As Vinhas da Ira da Loucademia de Polícia por ter praticado o Golpe de Mestre. Depois disso passei a ser considerado O Proscrito, a exemplo de Lampião e Maria Bonita, de Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia e Josey Wales – O Fora-da-Lei. Nem o Batman aliado ao Superman me garantiram salvação.

Entrei  para o Sindicato de Ladrões, pedi ajuda ao Rambo e até O Cavaleiro Solitário se ofereceu, bem como Os 7 Samurais, mas de nada adiantou: continuaram com a Perseguição Implacável que nem mesmo O Predador com sua Bravura Indômita conseguiu impedir. Já estava me tornando um Farrapo Humano quando me pegaram e me levaram para Alcatraz – Fuga Impossível. Lá, conheci Arthur – O Milionário Sedutor, que estava preso por ter corrompido uma menina Bonitinha mas Ordinária. Conheci também Carrie – a Estranha, O Ladrão de Bagdá, o Ladrão de Casaca e alguns gays. Um dos que compunham A Gaiola das Loucas se engraçou comigo dizendo que foi Amor à Primeira Vista, uma Atração Fatal porque Os Brutos Também Amam. Fiquei com forte Desejo de Matar, um Instinto Assassino se apoderou do meu Coração Satânico e aquela parecia A Hora do Pesadelo. Virei O Anticristo que nem mesmo O Exorcista podia encarar. Minha Mente Diabólica tramava um Assassinato a Sangue Frio e eu já pensava em Um Corpo que Cai, porém refleti de como seria O Dia Seguinte, que por certo seria Um Dia de Cão e contemporizei:

— Não sou do ramo, mona. Sou daqueles que deixam Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, tenho Fanática Obsessão por A Dama de Shangai e A Condessa Descalça. Enfim, meu negócio não é Dança com Lobos. Prefiro O Beijo da Mulher Aranha mesmo que seja Atrás da Porta Verde com a Garganta Profunda. Pare com esses Contatos Imediatos do 3º Grau pois poderá se transformar em Uma Cruz à Beira do Abismo e ir para Além da Eternidade.

A moçoila entendeu que devia desistir de um Sonho de uma Noite de Verão. Em seguida me envolvi numa Grande Jogada com Um Assaltante bem Trapalhão, que havia cometido Assassinato no Expresso Oriente. Tramamos uma Fuga Audaciosa pois tínhamos nos tornado Uma Dupla Dinâmica: eu era Um Osso Duro de Roer e ele um Pequeno Grande Homem. Inspiramo-nos em Papillon para nosso Amargo Regresso daquele Inferno na Torre e pulamos no mar, onde fraturei Meu Pé Esquerdo. Mas isso não impediu que nadássemos 20.000 Léguas Submarinas mesmo perseguidos por um Tubarão, pela Fera do Mar e pela Orca-a Baleia Assassina.

Construímos A Nau dos Insensatos para essa Viagem Fantástica, avistamos O Naufrágio do Titanic e conhecemos O Destino do Poseidon. Fomos parar numa praia parecida com A Lagoa Azul e conhecemos Antártida – a Última Fronteira, bem como As Neves do Kilimanjaro. Pegamos carona no SOS-Submarino Nuclear e fomos parar na extinta União Soviética, onde aproveitamos para conhecer Os Girassóis da Rússia e O Mistério do Parque Gorki. Estávamos numa Sexta-Feira 13 e por ironia isso nos deu sorte, pois avistamos O Expresso da Meia-Noite que nos levou para Paris, Texas. Lá nos separamos e vi A Menina do Outro Lado da Rua. Quando perguntei seu nome, ela respondeu: — Eu, Cristiane F. – Drogada e Prostituída. Fiquei com pena e a levei para a casa de minha amiga Alice, mas quando bati na porta, responderam: “Alice não Mora mais Aqui”. Então arranjei para ela um emprego de babá para tomar conta de O Bebê de Rosemary e segui rumo ao Aeroporto para viajar até o Brasil ano 2000. Quando o avião estava no alto eles avisaram: “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu“. Resultado, A Águia Pousou, ou melhor, caiu! E eu fazendo parte de Os Sobreviventes dos Andes, ainda por cima tendo de vir Conduzindo Miss Daisy até o local da Operação Resgate porque ela tinha sido mordida por Nosferatu – o Vampiro da Meia-Noite. Chegando ao Brazil – o Filme tomei O Metrô da Morte onde só havia 7 ocupantes e eu estava parecendo Allien – o 8º Passageiro, quando alguém me perguntou se eu estava retornando da Sociedade dos Poetas Mortos. Respondi: não, sou O Fantasma da Ópera. O Cara, Sob o Domínio do Medo, viveu um verdadeiro Terror a Bordo.

Finalmente chegando à minha Casa do Espanto, minha Mamãezinha Querida desejou Feliz Aniversário para Mim porque era dia 4 e sou Nascido em 4 de Julho. Mas minha esperança de paz era tênue E o Vento Levou quando conheci Uma Linda Mulher e Amar foi Minha Ruína, porque ela era namorada de O Poderoso Chefão. Nossa paixão era tipo Romeu e Julieta e então lhe fiz uma Proposta Indecente; mais tarde desfrutei o que parecia A Primeira Noite de um Homem e quando estava prestes a entrar no Crepúsculo dos Deuses fui surpreendido pela Câmera Indiscreta do Cidadão Kane. Fui perseguido por Al Capone e levei vários tiros. Só não morri graças ao Dr. Jivago.

Fugindo da Máfia me mudei para Casablanca, pois aquilo era Garantia de Morte. E lá pareceu que as confusões Esqueceram de Mim. Qual nada! Entrei num Cabaret para conhecer o Cassino Royale e fiz amizade com lindas mulheres: Gilda, Ana Karenina, A Dama do Lotação. Só não gostei de Dona Flor e seus dois Maridos por ser tão tarada. Mas quem eu queria conhecer mesmo era Susan. Cheguei a colocar cartazes: Procura-se Susan Desesperadamente. Será que ela teria saído com Ringo, Keoma ou Django? Mas logo me esqueci quando vi um trio de deslumbrantes mulheres! Tratava-se de Hannah e Suas Irmãs, e quando as vi senti Laços de Ternura. Aquele trio era a resposta Por quem os Sinos Dobram!

Estava assim nessa Insustentável Leveza do Ser, bolando uma maneira de formarmos O Quatrilho para acalmar A Marvada Carne quando fui cercado por três brutamontes: O Homem que Matou o Facínora, O Exterminador do Futuro e O Homem que Burlou a Máfia. Eram os noivos das irmãs e me botaram para fora me fazendo ficar Dançando na Chuva. Mas criei coragem e lhes disse: Meu Ódio Será tua Herança, pois Da Terra Nascem os Homens. Dito isto saquei meu Brinquedo Assassino e acertei os Três Homens em Conflito. Depois peguei um Táxi Driver, dirigido por Blade Runner – Caçador de Andróides e atravessei A Ponte do Rio Kwai.

Ufa, já estou sonolento com essa Psicose de ficar lembrando nomes de filmes que o leitor não deve estar achando a menor graça. Por isso vou ficando por aqui, até porque Adivinhe Quem Vem Para Jantar? Querem saber O Nome da Rosa? É A Noviça Rebelde, que vem aqui saborear comigo Um Peixe Chamado Wanda. Depois da janta contemplaremos o Luar Sobre Parador, depois vamos fazer uma Jornada nas Estrelas, verei se ela tem A Marca da Pantera…, uah, hum, faremos Invasão de Corpos…, depois… zzz…, contemplarei, zzz…, A Bela Adormecida… zzz…, pum. ZZZZZ…

Publicado em novembro/1998

Posse de perdedores, uma esculhambação à democracia

Em Bom Jesus do Itabapoana/RJ, todos sabem, a segunda colocada nas Eleições 2008 (Branca Motta) assumiu a prefeitura, referendada pelo Supremo Tribunal Federal. Assim como em Bom Jesus, basta pesquisar na Internet que se encontrarão vários outros municípios brasileiros em situação semelhante. E não só nos municípios, como também em alguns estados, como na Paraíba e no Maranhão, por exemplo, os segundos viraram os primeiros governadores.

Entendendo que isso é uma anomalia contrária à Constituição, e mais que isso, um desrespeito ao eleitor, o Senado Federal pretende rever este conceito e proibir doravante que tais excrescências se repitam. Tomara que suas excelências, perdidas num labirinto de desgraças éticas encontrem um meio de se desvencilhar da lama em que patinam para poderem defender, como seria a premissa básica de suas funções, a cidadania do povo brasileiro.

A prefeita Branca Motta talvez seja a que tem mais legitimidade em relação a tantos outros segundos colocados que se veem por aí, porque sua derrota se deu pela pequena margem de 51 votos. É bem provável que haja cidades que tenham prefeitos governando respaldados em meros 20% de votos obtidos.

Mas seja a diferença de 1 voto ou de 1 milhão, a vontade do eleitor é (ou era) soberana, e a Letra da Lei também devia ser. Ocorre que numa Justiça que se assemelha a uma tartaruga míope, decidir com rapidez e promover outra eleição, como reza o bom senso instituído na Carta Magna, é algo praticamente impossível. Daí aparecer o famoso jeitinho brasileiro que se transfere das camadas populares para os mais altos escalões jurídicos, em simbiose danosa à Democracia.

É óbvio que se o ganhador desrespeitou as regras, que seja impedido. Mas novas eleições têm de ser realizadas para que o povo defina quem fica em seu lugar. Ademais, seguindo a lógica, jamais o vencedor irá questionar o segundo colocado na Justiça, mas o segundo, eventualmente, sim (talvez tenhamos de mudar no futuro a palavra eventualmente para sistematicamente). E se este também tiver cometido alguma irregularidade, talvez até mais grave? A Justiça pune um criminoso eleitoral entronizando outro ainda pior!

As posses ilegítimas, embora legais, podem firmar jurisprudência. Não a jurisprudência no sentido lato da palavra nos meios jurídicos, mas jurisprudência figurativa nas cabeças dos políticos perdedores. Não seria exagero intuir que nas próximas eleições haverá ainda mais recursos de teor restritivo aos primeiros colocados se essa estupidez persistir. Pior: a criatividade dos perdedores pode chegar a tal nível de excelência que seria capaz até de produzir documentos falsos, denúncias mentirosas, engodos e escaramuças jurídicos idealizados por bons advogados. Neste caso as eleições se tornariam inúteis, e o eleitor incapacitado de impor sua vontade.

Em analogia ao que se dizia na época do poderoso Santos de Pelé & cia, de que aquele time imbatível nem precisaria entrar em campo (a vitória era certa), pode chegar o momento em que o eleitor nem precise ir às urnas. Os 11 membros togados decidirão, numa canetada só, quem administrará o futuro de sua cidade e, por extensão, o bem-estar e o destino de seu povo.

Publicado em setembro/2009