Aqui eu guardo meus escritos.
Obrigado pela visita.

Apiacá City
O velho pistoleiro Keres Joseph amanheceu com a expectative da desforra. Ele, que ganhara o duelo em 2008 de Betin the Kid, mas não pôde desfrutar por ter sido afastado pelo Xerife Superior Eleitoral, desta vez não podia se confrontar com o rival diretamente, já que foi suspenso por eight years seu direito de duelar. Então Keres Joseph cerrou fileiras ao lado de Carl Magnum Oliver, mais conhecido como KK (Kid Killer), oferecendo a este sua experience para ajudar a liquidar Betin.
Mas Betin também havia reforçado suas hostes com o temível pistoleiro Allan Dirck, que havia dominado Apiacá City em outras ocasiões e, como Keres Josef, acumulara large experience em combates. Ao fim do bang-bang, Betin the Kid e Allan Dirck festejaram uma vitória que, embora difícil, não foi tão sangrenta como a de 2008, quando Keres Joseph o vencera, mas tombara frente à Electoral Justice, que alegara suposta adulteração nos canos de suas pistolas naquele renhido combate.
Good the North Jesus
No condado de Good the North Jesus eu previ que o clã Umbert Mess não iria se desunir e guerrear entre si. E acertei. Por outro lado, imagino o grau de tensão interna que levou Ubald Sea Tins, brother de Umbert, a liderar a tropa onde o seu sobrinho Mark Mess desempenhou o papel secundário, já que não era segredo que Umbert queria porque queria o filho Mark como protagonista principal. But, the union of family, como eu havia antevisto, prevaleceu, com Ubald Sea Tins e Mark Mess multiplicando forças para encararem o valentão Pedro Keys.
Keys era um adversário mais temido do que o grisalho Doctor Ad Masterson (El Gringo). Este, que havia derrotado o próprio Mark Mess em 2008 não estava agradando na gestão de Good the North Jesus. Enfraquecido perante os electores, Ad Masterson exigiria menos munição e escaramuças de Ubald e Mark, que o aniquilariam mais facilmente. No entanto, a ilusão da fácil batalha desvaneceu-se quando Ad Masterson foi afastado das functions cerca de six months before de completar o mandate, quando Keys, que era o vice, assumiu. Keys, que já era bom de briga, se fortaleceu com a oportunidade, não a desperdiçando; em pouquísimo time, o condado se desenvolveu com forte intensidade. Além disso Keys havia se aliado ao experiente pistoleiro e médico Ted Elbah Tist, fatos que pareciam indicar que mais four years como xerife pareciam favas contadas em favor de Pedro Keys.
Só que Ted Elbah Tist não pôde ele próprio ficar na linha de frente juntamente com Pedro Keys, o que conferiria precisão cirúrgica nos disparos contra os adversários. Ted foi obrigado a enviar em seu lugar o jovem filho Djangorson, que evidentemente não possui a mesma experience, embora tenha demonstrado coragem e good potential. Mas foi um duelo interessante, que exigiu de Ubald, Umbert e Mark amplo encadeamento de forças, as mais díspares, para vencerem.
Good the Itabapoana Jesus
Em Good the Itabapoana Jesus, five contenders prepararam-se para a guerra, mas apenas four tinham chances. Marcel Linn, que além de não levar o menor jeito para cowboy, entrou na disputa com uma garrucha enferrujada, o que o alijou da disputa figurativamente antes mesmo de iniciada. O old man Paul Port, bem como o young, Sam Júnior, tiveram bom desempenho, mas também falharam. Não reuniram condições de duelar de igual para igual com as duas forças amparadas pelo atual governor Serg Cab All e o ex-governor Anthony Little Boy. Falo respectivamente da vencedora White Mott e do segundo colocado, que foi o representante de Paul Cyrill.
Interessante é que pouco antes da disputa, the Justice havia impedido o próprio Cyrill de duelar. Mas ele cedeu seu Colt para Robert Tatoo numa última e desesperada tentativa de se fazer representar na contenda. E quase deu certo. White Mott disparou meros 108 tiros a mais que Tatoo.
San José del Calçado
Já em San José del Calçado, o pistoleiro barbudo Joseph Carl provou do próprio veneno. Em 2008 Carl ganhara a disputa quase que por milagre do lendário Blue Eyes All Mars. A vitória de All Mars naquela oportunidade parecia tão certa, que ao tombar por escassos tirinhos que Carl deu a mais, All Mars perguntou, agonizante: “who are you?”
E agora, a vingança de All Mars foi executada por uma woman, igualmente com poucas balas de diferença. Lili Ann, esposa do ex-xerife Jeff Spad Bulls lançou-se na disputa, onde concorria ainda o ex-amigo de Carl, Tin Ben. Mas Tin Ben não tinha grandes chances, ficando o duelo restrito mesmo a Lili Ann e Joseph Carl. No final, ao receber exíguos 119 tiros a mais, Joseph Carl, desta feita como vítima, já nos estertores, disse a Lili Ann: “You are pretty. Needed to be so cruel? (Você é bonita. Precisava ser tão cruel?)”.
Good luck to all.
Publicado em dezembro/2012

Não é mais possível continuarmos a conviver com a terrível incoerência de o “guarda-roupas” de 16/17 anos ter a faculdade de escolher o presidente da República, mas não saber o que está fazendo quando trafica drogas, estupra, barbariza, mata, crimes que na melhor das hipóteses para as famílias de suas vítimas sedentas de justiça e no desatino da dor correspondem a três anos “apreendido”. Depois, os anjinhos recebem a chancela “apto para o convívio social”, com a ficha criminal limpa, ainda que em sua vida pregressa também tenham explodido bombas em jardins de infância.
Desculpem-me a estultice, mas queria entender como é que a redução da maioridade penal, que me parece ser tema simpático à grossa maioria da população — e no caso específico talvez mais ainda entre os menos esclarecidos (os que mais votam no PT), seja tão veementemente rejeitada pelo partido. Soa um tanto incoerente com a retórica populista.
Não só o PT, justiça se lhe faça. Mas esta agremiação é atualmente sinônimo de poder praticamente absoluto, quase supremo, valendo dizer que, se quisesse, bastaria dar um peteleco no assunto “redução da maioridade penal” que ele se deslocaria num átimo para o patamar inferior onde deveria estar. Creio que nem os próprios jovens aceitem que um parrudão de 17 anos e 11 meses que mata, assombra, brutaliza, fique três anos, se tanto, recolhido…, digo, acolhido, até com a possibilidade de se hospedar em estabelecimento 5 estrelas na Suécia para se “ressocializar” às custas, inclusive, da sua própria vítima.
Sim, isso mesmo. Lembram-se do garotinho João Hélio Fernandes, 6 anos, que foi arrastado pelas ruas de um subúrbio carioca preso pelo cinto de segurança, e um bandidão “dimenor” dentro do veículo dizia, às gargalhadas para todos os passantes, que aquele ser indefeso, esfolado cruelmente era o “judas” deles? Não fosse a grita da imprensa, me lembro bem, o criminoso, protótipo da covardia, ficaria hospedado num estabelecimento 5 estrelas da Suécia à custa do seu, do meu, do nosso dinheiro enquanto contribuintes, inclusive à custa dos próprios pais do menino barbaramente torturado até a morte!
Que diabos estará acontecendo, alguém pode explicar? É isso que chamam inferno? Esses monstros incendeiam dentista, matam com uma frieza e crueldade espantosa como fizeram recentemente com Victor Hugo Deppman, estupram, vejam bem, até dentro de ônibus em movimento, e logo começam a chegar em defesa deles, aos borbotões, seus defensores apaixonados. Por que não levam os bandidinhos para casa? Por que não os adotam, deixando-os conviverem com os filhos legítimos a fim de adquirirem, por osmose, os sentidos de humanidade, já que são bestas em forma humana?
Na infância e adolescência há uma sensibilidade maior às influências corruptoras criminais provenientes do seu meio ambiente. Jovens e crianças estão mais sujeitos ao incitamento, persuasão à cumplicidade, ao encorajamento ou à ordem para o cometimento de crimes por parte de maiores. Só não enxerga quem não quer que principalmente no crime organizado, a exploração de crianças e adolescentes se inicia cada vez mais cedo. Não é mais do que hora, então, de rever todo esse velho, anacrônico, obsoleto, ultrapassado conceito de maioridade aos 18? Basta de demagogia. Por que um jovem é investido como eleitor, presumivelmente equipado de lucidez e discernimento para decidir o futuro do país, porém inapto a responder pelos atos de selvageria? Como deixá-lo cometer os delitos mais graves, hediondos, levando ao paroxismo da dor os entes queridos das vítimas, e nada lhe acontecer senão a simples sujeição às normas esdrúxulas e pusilânimes da legislação especial, valendo dizer, punição nenhuma?
Na Inglaterra, quem pratica crimes hediondos é apenado a partir dos 10 anos; nos Estados Unidos a coisa varia em 50 estados, mas basicamente são responsabilizados desde os 12; em Portugal, o cidadão pode ser condenado a partir dos 16 anos, o mesmo ocorrendo na Argentina, Espanha, Bélgica. Em Israel, Alemanha, Japão e Itália, a partir dos 14 anos o rigor da lei se abate sobre todos, que no Egito é aos 15, na França, aos 13, na Escócia, aos 8, na África do Sul, aos 7 e até aos 6, como no México.
No Brasil, onde quem é brasileiro não é o Deus do dito popular, mas seu rival de chifres, garotão impiedoso, cínico, cruel, insensível, de caráter tão selvagem quanto o de uma cascavel pode cometer os gestos mais tresloucados sob o olhar contemplativo e embevecido da lei. Não se pode fotografá-lo, nem algemá-lo, nem citar seu nome, nem conduzi-lo em camburões, muito menos confrontá-lo com a dor e o desespero de um pai e de uma mãe que perderam seus filhos violentamente na flor da idade, sepultando sonhos e esperanças pela falta de uma gota de misericórdia e clemência de um coração frio, pétreo, calculista. Parece mais que o Estatuto da Criança e do Adolescente — o ECA, pretende com isso impedir que suas futuras vítimas, reconhecendo-o, tenham alguma chance de sobreviver.
Eca, que nojo!
Publicado em maio/2013

A juíza eleitoral Fabíola Costalonga, de Bom Jesus do Itabapoana/RJ, cassou os mandatos da prefeita Branca Motta e de seu vice Jarbas Teixeira Borges Junger, no último dia 7/5. Em seu lugar deve assumir o 2º colocado no pleito, Roberto Elias Figueiredo Salim – Roberto Tatu. Mas como tudo pode acontecer, como aliás aconteceu no período 2005/2008, fiquemos no momento com a incógnita.
A juíza julgou procedente a denúncia feita pela Coligação do próprio Roberto Elias, segundo a qual a então prefeita, em campanha pela reeleição, teria realizado o asfaltamento da cidade durante o período eleitoral, conduta vedada pelo TSE. A agora ex-prefeita tem o direito de recorrer da decisão, mas como se trata da nulidade dos diplomas expedidos, terá de fazê-lo fora do poder, a menos que consiga liminar.
Incógnita, incógnita nossa de cada dia nos dai hoje. Mais uma vez o município vê-se envolvido em polêmica dessa natureza. Na gestão 2005/2008, apagado da História no aspecto realizações/crescimento/desenvolvimento, nada menos que cinco (5) prefeitos se revezaram no cargo, uma média de menos de um por ano! Naquela oportunidade, o prefeito eleito Carlos Garcia governou cerca de um ano em meio a tormentas de cunho legal porque teria se valido de recursos ilegais de campanha. Antes que fosse apeado do poder pela Justiça, o prefeito licenciou-se por questões de saúde. Assumiu então o vice Paulo Sérgio Cyrillo; cerca de um ano depois, e antes que Garcia voltasse, ambos foram afastados. Toma as rédeas da prefeitura o então presidente da Câmara, vereador João Batista Magalhães, ficando 14 dias. Depois, José Ary Loureiro Borges, vice do segundo colocado Miguel Motta (que não quis assumir, vejam só!). Quarenta e cinco dias depois, José Ary renuncia, quando o Poder Legislativo, em escrutínio indireto, elege o 5º e último prefeito: Paulo Portugal, que “tenteou” o município nos últimos seis meses daquela gestão fatídica.
Claro que pouco ou nada funcionou — tempo inexoravelmente perdido! E como a vida é curta, a perda de tanta oportunidade escoada no ralo da tormenta de um povo é incalculável. Lamentavelmente parece que não cessou tudo o que a antiga musa canta. Ainda no decorrer da última campanha, recursos mútuos de impugnação por vários motivos entre os dois candidatos favoritos (a prefeita agora cassada, e o segundo colocado agora ansioso para assumir) foram encaminhados à Justiça. Isto é: prenuncia-se novamente uma queda de braços no âmbito de uma Justiça lenta, sensível aos variados e mirabolantes recursos, em meio a absolutamente nada de reforma política, atuando num cenário hostil à visão primordial do interesse coletivo que é, acima de tudo, a estabilidade das instituições.
Resta ao bom-jesuense apenas a tênue esperança de que o bom-senso prevaleça entre os atores políticos de mais uma comédia pastelão que se anuncia. A estes, quem sabe o milagre de colocarem seus interesses pessoais em posição inferior aos da coletividade; estabelecerem o conformismo com as regras do jogo; entenderem que tudo passa e a cidade permanece, mas que permaneça mencionada na História sem mais hiatos de vergonha e humilhação.
Publicado em maio/2013

Estava dando murros em ponta de faca a fim de bolar algo de útil para ocupar este espaço, mas como de tanto pensar morreu um burro, e as ideias não apareciam resolvi tocar o barco com estas baboseiras mesmo porque preciso defender o leite das crianças e a maré não tá pra peixe. Aliás, como está difícil a vida, não? Atualmente tenho latido no quintal pra economizar cachorro, vendendo o almoço pra comprar a janta, chamado urubu de meu louro, como também vou arrancando minhoca do asfalto porque a necessidade é que fez o sapo pular e nesta situação é que a porca torce o rabo se não for cotó, haja vista que amanhã é um novo dia e angu de um dia só não engorda cachorro magro.
Mas como miséria pouca é bobagem e o que é de gosto é regalo da vida, além de que quanto mais rezo mais assombração me aparece, resolvi juntar meus trapos com uma mulher nova, cheirando a tinta porque, afinal, graveto também dá fogo e juntado com fé casado é. O fato é que sempre acreditei que mulher é igual bala de revólver: quando sai uma pelo cano já tem outra engatilhada e aí é que embarquei numa canoa furada e com muitas dificuldades de cortar o mal pela raiz. Explico: como mentira tem pernas curtas e as paredes têm ouvidos, descobri onde amarrei minha égua, pois minha mulher se esqueceu de que quem com porcos se mistura farelo come e as más companhias a levaram a procurar chifres na cabeça de cavalo. O pior é que ela os encontrou e os transplantou em mim! Bem que eu já andava meio desconfiado porque onde há fumaça há fogo, mas achei que quem conta um conto aumenta um ponto e entrei pelo cano.
Mas, tem nada não, o bom cabrito não berra e há males que vêm para bem. Vou tirar isso de letra porque sempre há um chinelo velho para um pé torto e não sou bobo como tatu de madrugada. Acabarei encontrando outra alma gêmea, mesmo que não tenha o mesmo encanto pois à noite todos os gatos são pardos. Só que agora não vou dar ponto sem nó porque gato escaldado tem medo de água fria e barata esperta não atravessa galinheiro. Doravante, aonde a vaca vai o boi vai atrás, uma vez que macaco velho não mete a mão em cumbuca. Não vou mais comprar gato por lebre, afinal, é preferível ser burro cinco minutos que asno a vida inteira.
Pois bem, vou continuando a encher linguiça, e enquanto existir cavalo, São Jorge não anda a pé. A fim de resolver minha vida não vou ficar chovendo no molhado nem carregando água na peneira. É vivendo que se aprende e como devagar se vai ao longe e a pressa é inimiga da perfeição, pretendo seguir à risca o velho ditado: água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Não me esquecerei que coração dos outros é terra que ninguém vai e fraqueza não é vício, mas conduz ao precipício. É certo que cobra que não anda não engole sapo e caminhão parado não pega frete.
Bem, leitor, se você teve paciência de ficar lendo esta porcaria até agora, saiba que galinha que acompanha pato morre afogada e como você não é mais burro que porteira, ficou a ver navios. Aliás, acho melhor parar de cutucar onça com vara curta porque quem fala muito dá bom dia a cavalo. O peixe morre é pela boca e é melhor trabalhar a cabeça e dar férias à língua. Se você pretende me criticar por isso, pode tirar seu cavalinho da chuva porque gosto não se discute e há quem goste dos olhos, outros da remela. A verdade é que estou sem assunto e quem não se comunica se trumbica. Sou sincero porque quem fala a verdade não merece castigo, mas reconheço que esta crônica ficou tão ruim que nem tatu aguenta.
Enfim, cesse tudo o que a antiga musa canta que outro valor mais alto se alevanta e procure me compreender, pois para bom entendedor, meia palavra basta. Por favor, não confunda bife de caçarolinha com rifle de caçar rolinha. Sua atenção eu agradeço, pois você fez o bem sem olhar a quem, e mesmo que não o fizesse, mais vale quem Deus ajuda que quem cedo madruga. Além disso nunca diga dessa água não beberei porque um dia a casa cai. Dou por encerrada esta bobagem e se alguém não gostou que atire a primeira pedra. Minha missão está cumprida, pois os fins justificam os meios e melhor não poderia ficar porque quem nasce pra lagartixa nunca chega a jacaré e quem não tem cachorro caça com gato.
Até a próxima, se não entrar boi na linha.
Publicado em março/1997

Cheguei dia desses no guichê da Transportadora União, em Bom Jesus do Norte. Mirava com olhos maliciosos os reles mortais pagadores de bilhetes à frente, na fila, até que chegou a minha vez. Estufei o peito e julguei mandar bem, como se diz:
— Uma passagem para o Rio de Janeiro, inteiramente grátis, por gentileza. Se as duas poltronas reservadas aos velhos já estiverem esgotadas, meia passagem já estará de bom tamanho.
A moça do guichê:
— Pro senhor? Idoso?
Dei uma relanceada de olhar em mim, principalmente nas pelancas embaixo dos braços e nas rugas da cara refletida no vidro do guichê, pensando respondê-la dessa forma: “sim, pra mim mesmo, modelo 6.4, zero opcionais, isento de IPVA, roncando em todas as juntas, fora o resto.” Mas falei de fato:
— Sim, tenho 64 anos.
— Trouxe a carteira?
— Aqui está.
— De habilitação não serve. Do Idoso.
— Como?
— Carteira do Idoso.
— Não sabia que tinha isso.
— Procure a Assistência Social, meu senhor; sem ela, nada feito.
Avaliei momentaneamente contra-argumentar, encarecer à atendente dar uma olhada mais minuciosa na minha carcaça e aferir com um simples cálculo matemático a data de fabricação expressa na carteira de motorista, mas acabei desistindo. Seria inútil, ela havia sido incisiva.
— Aceita cartão de crédito?
— Sim, senhor.
“Dos males, o menor”, resignei-me, pensando neste país das jabuticabas que, segundo voz corrente, é o único que produz as deliciosas frutinhas, sendo essa exclusividade motivo de pilhérias dos próprios brasileiros que se referem pejorativamente a elas para indicar mazelas tupiniquins. “Deve ser mais uma jabuticaba esse negócio de carteirinha de velho”, pensei. “O país tem que dar emprego e os políticos dependem disso para ganhar votos; quanto mais burocratiza, mais cabides de emprego, e mais votos. A tal da carteirinha”, continuei a elucubrar, “seria para confirmar a confirmação dos meus dados pessoais, algo absurdamente redundante.
Dos meus parcos leitores, pelo menos dois são jovens, conheço-os bem, e estes podem até ter conhecimento de que no Brasil houve uma jabuticaba nos anos 1980 denominada Ministério da Desburocratização, mas obviamente não a vivenciaram. Lembro-me perfeitamente do titular da pasta, ministro Hélio Beltrão, que lutava como um Napoleão desarmado e sem exército contra a burocracia e os cartórios (cartórios mesmo, de reconhecer firma, autenticar fotocópias, etc., e cartórios corporativos os mais diversos de que pode supor nossa vã filosofia). Desde aquela época, vejam só, Beltrão tentava acabar com o tal do reconhecimento de firmas, que nada mais é do que prejulgar o cidadão como desonesto na cara dura e ainda auferir lucros exorbitantes com a ofensa. E só recentemente, quase 40 anos depois, essa jabuticaba foi pocada (Lei 13.726/2018, de outubro). O lobby inescrupuloso dos cartórios resistiu a tudo e a todos nesse tempão.
O então ministro, sufocado pela papelada e pelo papelão dos burocratas (reproduzem-se como coelhos) ainda tinha espírito para fazer troça. A respeito da criação de uma tal de Sudeco, para cuidar do “desenvolvimento do Centro-Oeste”, ele perguntou: “por que não juntam a Suvale (Superintendência do Vale do São Francisco) com a Sudeco e criam a Suvaco? Seu assessor foi ainda mais espirituoso: “O perigo, senhor ministro, é eles criarem a Superintendência Rural do Baixo Amazonas, a Suruba!”
Retomo o fio: dias depois da viagem procurei a Ação Social da prefeitura de São José do Calçado para obter o passaporte que me abriria as portas da felicidade.
— É lá no Cras, informaram. “Cras…, Cras… Não podia ser aqui mesmo?”, contive a vontade de perguntar. Chegando no Cras fui atendido com atenção e gentileza, cumpre ressaltar:
— Pois não?
— Vim fazer a Carteira do Idoso.
— Trouxe os documentos? O senhor já é cadastrado no NIS?
— Claro, claro. Mas tem um probleminha: aqui está minha habilitação, mas o NIS vou ter de consultar o INSS.
— Não, senhor, interrompeu-me a diligente funcionária, sem se dar conta de minha instantânea, embora costumeira, frustração. — Não pode ser habilitação, tem que ser Identidade mesmo, CPF, Título de Eleitor, Certidão de Nascimento ou de Casamento, comprovante de residência, de renda… E tem mais: não é esse NIS do INSS, é outro NIS.
— Outro NIS?
— Sim.
Pensei: “NIS deve ser a sigla de ´Nefelibatas Impolutos Sadomasoquistas´ que abundam os labirintos da burrocracia brasileira.
— Esse NIS aí acho que não tenho. Tem certeza que o outro NIS não serve?
— Tenho. Mas não tem problema, posso providenciar um agora mesmo. E os demais documentos?
— Na minha habilitação tem número de identidade, CPF…
— …Mas não tem as datas das emissões, por isso é que precisamos deles.
E cá voltei para vasculhar meu velho arquivo de pastas numa era em que já se projetam moradias para os terráqueos na Lua. Retornei ao Cras com minha primeira e única carteira de identidade emitida no ano da Graça de 1974, que guardava como souvenir, embora já há alguns anos, melhor dizendo, há muitos anos evito olhá-la para não reacender minha vergonha daquele cabelo emaranhado à moda descolada hippie, comprido até nos ombros, a cara chupada a lembrar pessoas acometidas de escorbuto.
— Minha filha, eu recebo as contas de água e luz por e-mail e as pago pelo aplicativo do banco. Portanto, não lido com esses papéis. Serve o carnê da provedora de Internet? Ah, e esse comprovante aqui de que votei no Capitão, serve para substituir o título de eleitor?
Serviram, ufa! Alguns instantes depois da moça meter bronca no computador:
— Prontinho, senhor. Seu NIS o senhor pode pegar amanhã (estávamos numa quinta-feira), mas a Assistente Social só atende às segundas e terças, então eu sugiro que o senhor venha num desses dias.
— Ok, querida. Obrigado pela atenção.
Segunda-feira fui, serelepe, obter meu prêmio velharal. Mais atenção e gentileza, desta vez pela Assistente Social Roberta. Com o NIS em mãos, balancei-o alegremente:
— Minha carteira de velho, enfim, não é Roberta?
— Hummm. Não. O sistema vem apresentando problemas e tem demorado até 45 dias. Já está aqui na tela, olha, virou o monitor em minha direção. Mas para o senhor tê-la na mão…
― …Quarenta e cinco dias, não é?
Moral da história: eis um pequeno exemplo de burocracia desnecessária, praga a oprimir o desenvolvimento do nosso país. Um documento único que reunisse todas as informações necessárias do “eu” de cada um, inclusive as necessárias para a concessão desse e de outros benefícios e obrigações penso que aliviaria em muitos milhões, talvez bilhões, os cofres públicos. Para se ter uma ideia dessa trágica circunstância, o Banco Mundial, em 2017, publicou um ranking entre os países para medir, por exemplo, o tempo necessário para abrir um negócio. Num conjunto de 167 países, o Brasil ocupa a posição 161. A pesquisa estima que, por aqui, são necessários em média 79 dias para cumprir os procedimentos legais de abrir uma empresa. Na Nova Zelândia, a primeira colocada nesse quesito, leva-se menos de 1 dia para a mesma finalidade.
Dá-lhe, capita. Não vale desanimar, hein?
Publicado em dezembro/2018