Aqui eu guardo meus escritos.

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A gente se espanta para não perder o jeito de se espantar

Vi no Fantástico, uns três domingos atrás, um deputado ensinando comprar votos e como espalhar boatos e fofocas contra adversários para que estes, ocupados em se defenderem, perdessem o precioso tempo que poderiam estar se dedicando à campanha, propriamente. Acho interessante caras de espanto, como se a notícia fosse de causar admiração pelo inusitado, como se a prática fosse uma novidade. “Ei, amiga, viu ontem no Fantástico? Que loucura! Logo no Brasil esse negócio de compra de votos? Logo com nossa política reconhecidamente moralizadora e ética, coisas desse tipo acontecem? Que horror. Só falta os políticos mentirem pra gente, não é mesmo?”

Já vi de tudo na política, principalmente na nossa região. Mas assim como um Fantástico só às vezes consegue uma prova documental das muitas cachorradas para poder denunciar, eu também. Nós somos governados por muito bandido, embora haja as exceções, como em qualquer atividade. Mas parece que no setor político ser bandido, contraventor, é mais intenso porque há mais vagabundo, já que ela, a política, não se preocupa muito com esse negócio de selecionar seus representantes. Nepotismo, cabide de emprego, locupletação, mentira, falsidade, dissimulação são adjetivos do meio. Além disso, comportamentos no âmbito pessoal, também censuráveis como exploração do trabalho escravo, sonegação de impostos, tráfico de influência, mercantilismo de informações privilegiadas, entre outros, são praticados justamente por alguns daqueles que foram eleitos para o fortalecimento da moral e da ética, e do zelo pelas leis.

Conheço político que adora, por exemplo, rinha de galo. E você há de perguntar: o que tem demais nisso? E eu hei de responder que, mesmo que se utilizem recursos próprios para jogar (embora desconfie que são os recursos públicos que entram no jogo), exploração de briga de galo no Brasil é ilegal, além de ser uma das formas de se praticar crueldade contra os animais. Quer dizer, ilegal em todos os sentidos.

E assim vivemos nós, de Fantástico em Fantástico fazendo caras de espanto somente para não esquecer o instinto, pois nada mais espanta!

Publicado em julho/2013

Morre o jornalista Ésio Bastos

Às 15h40 do dia 24/8/03 falecia no Hospital São Vicente de Paulo, em Bom Jesus/RJ o jornalista Ésio Martins Bastos, fundador do jornal “O Norte Fluminense”, o segundo mais antigo órgão de comunicação de Bom Jesus ainda em atividade, criado em dezembro de 1946. Deixa a esposa Célia Lopes Bastos e as filhas Maria Alexandrina (mãe da renomada bom-jesuense Maria Silvia Bastos Marques, ex-Secretária de Fazenda do RJ e ex Diretora-Superintendente da Cia. Siderúrgica Nacional) , Maria Ruth e Maria Célia.

Muito embora com a idade avançada, o falecimento do jornalista foi de certo modo surpreendente porque ele exercia suas atividades normalmente e pouco se queixava de doenças. Tinha o vigor e o dinamismo que a idade permitia, característicos da personalidade vibrante e empreendedora. Até os últimos momentos administrava intelectualmente os negócios, sempre presente no dia a dia da empresa. O repentino desenlace, de certa forma positivo por tê-lo poupado de maiores sofrimentos foi consequência de complicações hepáticas, manifestadas de modo abrupto. No dia 8 fez exames em Itaperuna; no dia seguinte foi internado com febre no São Vicente, submeteu-se no dia 11 a uma cirurgia e menos de duas semanas depois veio a falecer.

Repercussão
Por uma questão cultural o cidadão interiorano normalmente é mais comedido ao expressar seus sentimentos, seja de alegria ou de tristeza. Dificilmente há comoções ou manifestações de expansividade coletivas quando de acontecimentos locais marcantes, mesmo porque faltam mecanismos de mobilização social. A imprensa do interior, não possuindo normalmente a agilidade dos grandes veículos acaba por difundir os fatos e as opiniões dias, semanas e até meses depois de ocorridos, o que minimiza seu impacto. Em se tratando de Ésio Bastos isso foi duplamente lamentável.

O passamento do grande jornalista, sobretudo do cidadão que não era bom-jesuense de nascença (nascera em Campos dos Goytacases/RJ a 23/3/1913), mas se transformou num dos maiores “bonjesuistas” de todos os tempos. Uma comparação: ele foi para Bom Jesus uma espécie de Assis Chateaubriand ou Roberto Marinho para o Brasil e para o Rio, guardadas as devidas proporções. A discrição com que foi tratado o infausto acontecimento esteve coerente com seu modo simples de ser, que a família, igualmente discreta, soube administrar. Mas isso não pode inibir a percepção dessa e das futuras gerações sobre o conhecimento e o reconhecimento da obra legada por Ésio Bastos às duas Bom Jesus, seja no exercício da profissão de jornalista, seja no exercício da profissão de fé em sua cidade e em seus contemporâneos.

O jornal “Gazeta BJN” muito se orgulha pelo privilégio de ter feito reportagens de fôlego sobre a trajetória do jornalista, sobretudo por tê-las produzido com o personagem em vida, uma forma de reconhecimento e respeito. Em seu primeiro número “A Gazeta BJN” já confessava em editorial que Ésio Martins Bastos, Osório Carneiro, Athos Fernandes, José Maria Garcia, entre outros, eram os inspiradores para a criação de um veículo sério, justo e destemido, tal e qual o foram seus congêneres em épocas passadas sob a direção deles. A vastidão do idealismo desses virtuoses das letras e da determinação em contribuírem para uma sociedade mais justa e mais enriquecida em sua consciência de cidadania moldaram a linha-mestra de “A Gazeta” nestes cinco anos de existência, onde o interesse de Bom Jesus e sua gente sempre foi, é e será prioritário.

Custo alto x qualidade sofrível = manutenção dos empregados
Numa em era que o homem explora o planeta Marte, em que a informação é instantânea pela internet e os aparelhos celulares permitem a comunicação em tempo real entre os polos Norte e Sul, alguns do tamanho de uma caixa de fósforos; em que o computador habita o cotidiano como mais um imprescindível aparelho doméstico e a ciência já considera tecnicamente viável implantes de cabeça nos seres humanos, o jornal O Norte Fluminense, 57 anos depois e mais de 2.140 edições é montado letra a letra, tipo a tipo, vírgula a vírgula em atividade exclusivamente manual, da mesmíssima maneira que na primeira edição. Absolutamente curiosa e de difícil compreensão nos dias atuais que um jornal de quatro, seis ou oito páginas leve quase uma semana para vir à luz através de tarefas puramente artesanais, mas Ésio Bastos, com o peculiar senso de humor, tinha justificativas e até se divertia com esta particularidade: “Em sua época, ele era um dos mais modernos. Mas o tempo foi passando e eu, que não tive grandes interesses pecuniários não acompanhei a modernidade, mesmo porque isso significava ter de dispensar os funcionários. Além disso, o jornal hoje chama a atenção exatamente por ser assim”, afirmou em agosto do ano passado, com um sorriso maroto.

João Batista Assad Tavares, popularmente conhecido como Andorinha, e que trabalha há mais de 44 anos no jornal, aproveitou para dar o seu depoimento longe da presença do patrão: “O seu Ésio recebeu inúmeras propostas de modernização, pessoas propuseram parceria, mas implicava descartar os atuais funcionários que só sabem fazer o jornal dessa forma. Ele sempre recusou insistindo na mesma tese de que tem aqui cinco famílias que trabalham muito tempo com ele, eu, inclusive, há mais de 40 anos. E sempre complementava rechaçando definitivamente as propostas. “Esse povo vai viver de quê?”

A continuidade do jornal vai merecer debates e futura decisão por parte dos parentes. Segundo um membro da família, se for mantido é quase certo que não será nos moldes atuais porque a equação alto custo x qualidade ruim o torna inviável. “Não sabemos nem se será mantido porque ninguém da família tem disponibilidade para se dedicar a ele”, comentou esse membro.

Secretários municipais das duas Bom Jesus iniciaram as carreiras no “Norte Fluminense”
Os Secretários Municipais de Turismo de Bom Jesus do Itabapoana e da Educação de Bom Jesus do Norte começaram suas trajetórias profissionais no jornal “O Norte Fluminense”, na década de 1960. Carlos Luiz Dutra, o Carlão e Ademir Dutra Pimentel, respectivamente, são remanescentes da empresa que em determinada época era uma das maiores da região e importante geradora de emprego e atividade econômica. O grupo composto pela Gráfica Gutemberg e “O Norte Fluminense” produzia e comercializava artigos de vanguarda, desde notícias frescas até livros, cadernos, porcelanas, instrumentos musicais e luxuosos produtos de bomboniere. A oficina do jornal não funcionava nas dependências da gráfica como hoje; possuía instalações próprias no local onde está situada a loja Braga Móveis.

Ademir Pimentel, admitido aos 17 anos, pouco antes de Carlos Dutra trabalhou como Auxiliar de Contabilidade de 1966 até 1971. Além das tarefas burocráticas exercitava simultaneamente o dom da comunicação escrevendo uma coluna esportiva de grande sucesso intitulada “Reportagem Esportiva”. Ao se demitir permitiu que o companheiro, que trabalhava em outra função assumisse seu posto no setor de contabilidade, mas continuou produzindo a coluna de esportes durante algum tempo. Interessante é que Ademir, sob o pseudônimo de Gil Vicente escrevia também uma coluna social para o maior competidor do jornal de Ésio Bastos, o igualmente ainda vivo e atuante “A Voz do Povo”. “Trabalhar no jornal me proporcionou aprendizado e sobretudo noções de seriedade e de responsabilidade”, diz Ademir.

O patrão, segundo ele, era rigoroso, mas justo. “Se dez centavos eram meus, eram meus; se eram dele, eram dele”, frisa o Secretário de Educação para ressaltar o profissionalismo que imperava. “A honestidade”, acrescenta, “não era uma virtude imposta por Ésio Bastos através de normas rigorosas ou fiscalização ostensiva. Muitas vezes os empregados ficavam sozinhos na bomboniere subscrevendo endereços de assinantes do jornal. Ficávamos rodeados por todas aquelas delícias, de fácil alcance, mas não ousávamos subtrair sequer uma bala. Se o patrão fosse ranzinza ou desconfiado, talvez o espírito juvenil, contestador por natureza, se atrevesse a surrupiar guloseimas tão irresistíveis até pelo desafio de contrariar os ritos. Mas com Ésio Bastos isso seria desconcertante e desproposital porque não havia como trair semelhante demonstração de confiança”, explicou.

Um pouco de história
Em 1952 Ésio assumiu o posto do pai, que se aposentava, na The Leopoldina Railway, permanecendo até 1955 quando a ferrovia foi desativada. Simultaneamente à ascensão na ferrovia, tocava “O Norte Fluminense”, que no auge chegara a ter 4500 assinantes.
Oriundo de família de jornalistas, a “cachaça” impregnara também a alma e o coração de Ésio Bastos, fazendo despontar muito cedo nele a vocação jornalística. Já na Railway foi correspondente do jornal daquela empresa, editado no Rio de Janeiro. Logo a seguir, em Ponte Nova, fundou o “Alvi-Rubro”, um periódico combativo na defesa dos interesses do clube de futebol local, o Pontenovense. Em Bom Jesus, o incentivo dado pelo então senador José Carlos Pereira Pinto, que tinha interesse político na montagem de um jornal que neutralizasse a oposição ferrenha encetada pelo também legendário jornalista Osório Carneiro, de “A Voz do Povo” foi a gota d´água para a fundação de O Norte Fluminense.

A primeira edição veio a lume em 25/12/46 juntamente com a Gráfica Gutemberg e ambos, jornal e gráfica, representavam o que havia de mais moderno em suas atividades na região. “Eu pertencia ao PSD, cujo presidente era o Lao Monteiro de Carvalho. Precisávamos de um veículo que apoiasse a política do interventor Ernane do Amaral Peixoto. O José Carlos Pereira Pinto pediu que fundássemos o jornal prometendo cobrir eventuais prejuízos. Nunca foi necessária essa cobertura”, conta Ésio, acrescentando que adquiriu todo o equipamento, inclusive a rotativa, da Gráfica Almeida. As máquinas são as mesmas que imprimem o jornal da atualidade.

Empreendedor otimista e incansável
O enriquecimento da cultura e dos benefícios sociais é a grande contribuição legada por Ésio Bastos ao seu município e à sua gente. Dinâmico e idealista, incursionou com desenvoltura em variada gama de atividades, tanto as de cunho empresarial quanto às eminentemente comunitárias e filantrópicas, deixando aflorar em toda a plenitude a solidariedade, componente dos mais insinuantes de sua personalidade. Foi proprietário de uma prosaica fábrica de balas e até diretor do austero Instituto Vital Brasil, e sempre atento a tudo e a todos, impecável no trato e nos compromissos, figura estimada, de prestígio e credibilidade, tratou de usar essas forças em benefício da comunidade. A fundação da Caixa de Esmolas Jesus Cristo Rei, que cuidava de retirar mendigos das ruas e dar-lhes completa assistência foi obra de Ésio Bastos, assim como o Abrigo dos Velhos, originalmente localizado no terreno do atual Instituto de Menores.

O incomum espírito de liderança levou-o a congregar forças em prol de muitas outras benfeitorias sociais. Foi um dos criadores e o primeiro secretário da Lira Operária Bonjesuense, emblema cultural que se confunde com o nome a com a história de Bom Jesus. Fundou o Núcleo de Escoteiros, participou da criação da Academia Bonjesuense de Letras e foi membro do Conselho Municipal de Cultura. A criação do Centro Popular Pró-Melhoramentos de Bom Jesus, no entanto, foi a tacada de mais valia e a que mais repercutiu. Nada mais, nada menos, ela significou a redenção do Hospital São Vicente de Paulo, praticamente fadado à extinção entre as décadas de 30 e 40. “Estava feia a coisa, a insolvência parecia ser fatal. Em 1936 o Antônio Correia Escalda era o presidente do hospital, mas quem decidia eram meu pai (tesoureiro) e eu (secretário). Através do Centro Popular conseguimos reerguê-lo”, contou o jornalista. Uma das fontes de renda, segundo ele, era originária do café. “Cada saca que saía deixava um tostão para o hospital. Aos poucos ele foi sendo saneado e graças a Deus se salvou”, comentou Ésio Bastos. Não por acaso uma grande fotografia do jornalista que sempre fez parte da diretoria figura em lugar de destaque numa das salas do São Vicente.

A fundação congrega, além do hospital, a Casa das Meninas e o Instituto de Menores, além de ter possibilitado a encampação do Colégio Rio Branco, que havia perdido as subvenções federais em época remota.

Cronologia da imprensa escrita em Bom Jesus
Agosto/1906 – Fundado “O Itabapoana”, primeiro jornal criado no município, dirigido por Sylvio Fontoura, tendo como secretário o farmacêutico Pedro Gonçalves da Silva e o gerente Francisco Teixeira de Oliveira; para de circular em dezembro/1907;

Julho/1911 – Ressurge “O Itabapoana” sob a direção de Menezes Vanderley. Em 1916 encerra novamente as atividades;

Novembro/1916 – Fundado o “Correio Popular”, com a direção de Jerônimo Batista Tavares, Pedro Gonçalves da Silva, Francisco Teixeira de Oliveira,  Pompeu Tostes e Claudio Borges. Publicado até 1917;

1918 – Reaparece pela terceira e última vez “O Itabapoana”, desta feita dirigido por Renato Wanderley;

1924 – Surge o “Nossa Terra”, fundado por Antônio da Costa Freitas. Teve curta duração;

Janeiro/1925 – “A Cidade” é fundada por José Ferreira Rabello, igualmente com efêmera duração;

Maio/1925 – O lendário Padre Mello funda “A Parochia”, que também teve poucas edições;

Novembro/1926 – Antônio da Costa Freitas, Octacilio Ramalho e Cesar Ferolla fundam “O Liberal”;

Março/1928 – Padre Melho e Oliveira Cunha fundam “O Norte”

Março/1928 a agosto do mesmo ano circula o “Bom Jesus Jornal”, dirigido por José Tarouquella de Almeida, Osório Carneiro, Renato Wanderley e Willis Cunha;

Setembro/1930 – “A Voz do Povo” é fundado por Osório Carneiro, com sobrevida de apenas um ano nesta primeira fase;

Janeiro/1932 – Também dirigido por Osório Carneiro, surge “O Momento”;

Agosto/1933 – Retorna “A Voz do Povo”, sob a batuta de Osório Carneiro. Circula até os dias atuais.

Dezembro/1946 – Ésio Bastos funda o seu “O Norte Fluminense”.

Embora se presume que nada importante tenha sido lançado, o hiato de tempo entre 1946 e 1989 carece de pesquisa mais aprofundada.

1989 – Ana Lúcia Guizzardi e Josué Barbosa Pereira lançam a Revista Status;

1994 – Josué Barbosa Pereira funda a revista Panorama, extinta em 1999;

1995 – A revista Status passa por uma profunda reformulação gráfica e editorial, desta feita dirigida apenas por Ana Lúcia;

Abril/1996 – Tarcísio Marques funda “A Voz do Vale”;

1997 – Evandro Santana dos Anjos institui “O Condor”, atualmente extinto;

Outubro/1998 – Pedro Chaves de Oliveira Júnior lança a “Gazeta de Bom Jesus do Norte”;

Dezembro/1999 – O “Jornal do Vale” é fundado por Jurandir Campos Couto.

Publicado em setembro/2003

Em Calçado, votos de Cuíca aquém do esperado foram pesos insuficientes para equilibrar a balança da Justiça, que pendeu para José Carlos de Almeida?

Parece que os eleitores de Zé Carlos (PMDB) em SÃO JOSÉ DO CALÇADO/ES, intuíam que só uma vitória com uma grande margem de diferença seria condicionante para que ele assumisse. Bingo, vai assumir.

Condenado à perda do mandato decidida pela Câmara se não me engano no terceiro ano de sua primeira administração (2011), com o detalhe de que naquela oportunidade o presidente da “Casa Cassadora” era o seu atual vice-prefeito Teté, Zé Carlos teve o recurso deferido pelo TRE/ES, que contrariou argumentação interposta pelo segundo colocado, Cuíca. No entendimento da corte, a cassação que foi chancelada em 1ª instância do Judiciário não previa a perda dos direitos políticos, como informa o Jornal Folha Vitória.

Por que digo que a opinião pública pode ter influenciado a tomada de decisão dos doutos juízes? Insinuo, acaso, que suas excelências foram parciais? Que saltitaram nas botinas com solas de tachinhas em cima das leis e da Constituição? Não. Coloquemos de outra maneira: numa democracia, a vontade da maioria é soberana. E quanto mais expressiva essa maioria, mais soberana tende a ser sua vontade. Decisões judiciais não advêm de ciências exatas como a Lei da Gravidade que, independentemente de quem vê, onde vê, da hora que vê, os corpos caem inapelavelmente.

No Direito a coisa é mais subjetiva, sujeita a interpretações de seres humanos com conceitos e entendimentos diversos, ainda que numa assembleia de vestais. Fosse diferente não existiriam recursos, advogados, erros jurídicos, coisa e tal. E mesmo as togas em plenários refrigerados não estão imunes às emanações quentes das urnas, cuja influência pode ser sutil, imperceptível, por osmose.

A diferença de Zé Carlos para Cuíca (PDT) foi grande. Tanto que, se o município tivesse hipoteticamente mais de 200 mil habitantes, Zé Carlos precisaria de meros 0,7% a mais de votos válidos para levar no primeiro turno. Ele ganhou de Cuíca por 3.584 votos contra 2012. Foram 49,3% a 27,7% dos 7.261 votos válidos (os demais candidatos, professor Ciro – PV e Bodoque – PROS obtiveram respectivamente 1.489 e 176). Portanto, Zé Carlos assume acima de tudo com a legitimidade das urnas e as bênçãos do PMDB do governador Paulo Hartung, que é diferente do de Cabral, Pezão e Paes, no RJ (e pesadelo de Sávio Saboia em Bom Jesus do Itabapoana/RJ).

O que faltou a Cuíca foi o entendimento contrário da Justiça, claro, que indeferiu suas aspirações. Mas tenho pra mim que se ele realmente tivesse tido votos suficientes para reduzir a um tamanho ínfimo a derrota (como ocorrera, aliás, com o próprio Zé Carlos em 2008, quando ganhara de Alcemar Pimentel naquela oportunidade por exíguos 119 votos), a banda poderia ter tocado música diferente da “campeão, vencedor, ô, ô…”.

Publicado em outubro/2016

Publicidade é boa militante

No entorno do Itabapoana, os atuais prefeitos das duas Bom Jesus e de São José do Calçado tentaram a reeleição, mas só o de Bom Jesus do Norte, Ubaldo Martins, saiu-se vitorioso. Este fato merece algumas considerações sobre o papel da imprensa, da mídia interiorana de um modo geral como influenciadoras dos resultados.
Eu seria um bobo pretensioso se dissesse, e o leitor um tolo, se acreditasse, que a divulgação do governo Ubaldo Martins feita com competência, em sintonia com os tempos modernos tivera influência única, vital para reelegê-lo; não foi bem assim. Antes de tudo pesou fortemente o trabalho executado na cidade nestes quatro anos, cuja eficácia e proveito social tiveram o reconhecimento do eleitor. Ademais, o grupo, historicamente vencedor foi, como sempre, harmonioso, coeso, com as peças se mexendo de modo inteligente e obstinado no difícil tabuleiro da disputa.
Não é tarefa fácil dobrar o inconsciente coletivo, o hábito quase instintivo do eleitorado em promover alternância quadrianual no Poder Executivo de sua cidade. Na melhor das hipóteses — isto é fato- — o eleitor de Bom Jesus do Norte aceitou, em outras oportunidades, eventuais indicações de nomes por parte de quem governava, mas jamais o continuísmo personalístico. Além disso, não se deve perder de vista na análise a capacidade do adversário, que mais uma vez justificou o porquê do renome que desfruta nos meios políticos, fazendo uma campanha exímia e insinuante, fiel às características.  E a despeito de tudo isso, Ubaldo venceu, e bem, com 508 votos de diferença, um feito, é lícito afirmar, principalmente se considerada ser essa diferença quase o dobro da obtida ante a mesma adversária em 2000, ainda mais estando ele naquela oportunidade no papel de pedra e não de vidraça, como agora.
Este portentoso desempenho foi resultante de um conjunto de atos, atitudes e ações virtuosas, entre elas pedaços de medula da publicidade, da divulgação presos a seus ossos. Desde o início de seu governo, em 2001, Ubaldo seguiu a regra de que publicidade é investimento com excelente retorno, seja no aspecto racional (o bom desempenho do produto, no caso as atividades do governo, gruda na memória das pessoas) ou emotivo (a população sente-se prestigiada quando a administração pública presta-lhe contas mais amiúde de seus atos). A publicidade informa, sugere, persuade, muda sentimentos e comportamentos. Com a velocidade estonteante da divulgação através dos meios de comunicação, dá-se a formação da opinião pública sobre os mais diversos assuntos, e entre eles as atividades políticas. Mas é preciso observar que a frequência é fundamental. Divulgar produtos e serviços é como tomar vitamina. A dosagem e a quantidade variam de acordo com os resultados esperados, mas uma coisa é certa: um comprimidinho de vez em quando não faz efeito nenhum. Esse foi, me parece, um equívoco cometido por Miguel Motta em Bom Jesus do Itabapoana e Jefinho, em São José do Calçado.
Principalmente o primeiro, não fosse o anacronismo de considerar de secundária importância a publicidade, esnobando-a até, talvez estivesse hoje comemorando números mais generosos nas urnas (em política tudo é subjetivo, mas o marketing bem elaborado é o oposto). Insumos aos montes ele produziu, com o auxílio prestimoso do casal amigo Garotinho, mas não soube como transformá-los em produtos finais bonitos, vistosos. O asfaltamento da estrada de Rosal, por exemplo, foi explorado publicitariamente num amadorismo de dar dó. A ninguém ocorreu que o ego de toda a população — não apenas o das comunidades serranas — necessitava de estímulos subliminares mais competentes para gerar recompensas estrepitosas nas urnas. Uma obra há mais de meio século acalentando os sonhos do bom-jesuense teria de ter tido um destaque retumbante sendo ele, Motta, quem esteve no lugar certo, no momento certo e nas circunstâncias ideais. Equívocos como esse seriam eliminados ou minimizados houvesse a convicção de que neste século 21, mesmo nas mais remotas regiões, a propaganda nunca justificou tanto ser “a alma do negócio.”
É óbvio, insisto, que apenas a publicidade não resolve, ela é como o fermento que só produz reações misturado a outros ingredientes. Mas na era em que vivemos, parece claro, não se pode mais negacear sua companhia, duvidar de sua eficácia.
Publicado em novembro/2004

Espírito Santo pujante

O Estado do Espírito Santo, hoje, merece nota elogiosa em comparação com outros entes federativos. Entre as 27 unidades da federação, o Espírito Santo ocupa a 23ª posição em tamanho territorial, e apesar dessa pequenez geográfica destaca-se por uma administração eficiente e por indicadores que avançam a olhos vistos. É um Estado cuidado, organizado, disciplinado na gestão fiscal e capaz de manter investimentos. Em comparação com outros coirmãos, o Espírito Santo apresenta desempenho superior em áreas como segurança pública, equilíbrio das contas, infraestrutura logística e qualidade dos serviços urbanos.

Os dados mais recentes disponíveis para o PIB, divulgados agora em novembro pelo Instituto Jones dos Santos Neves, em parceria com o IBGE, referem-se ao ano de 2023. Nessa base, o PIB estadual totalizou R$ 209,8 bilhões, com um crescimento real de 3,4% em relação a 2022, superando a média nacional de 3,2%. O PIB per capita, calculado com base na população estimada para o período, foi de R$ 54.733 por habitante, posicionando o estado na 9ª colocação no ranking nacional (acentue-se: 9º entre 27). Dados preliminares de 2024, ainda não consolidados, indicam crescimento bem maior: 4,8%.

A sensação de desenvolvimento é estampada nas rodovias bem mantidas, na rede escolar estruturada, na expansão portuária que impulsiona a economia e no ambiente de previsibilidade que atrai empresas. Mesmo quem discorde de rumos ideológicos consegue reconhecer que há um padrão de continuidade administrativa que torna possível essa evolução.

O ponto é que essa pujança não deveria se restringir às cidades maiores. Municípios pequenos, como Bom Jesus do Norte, poderiam se conectar mais intensamente ao ciclo de crescimento estadual. Uma cidade compacta e densa pode se beneficiar de políticas de mobilidade, de incentivos ao comércio, da aproximação a polos regionais, da modernização dos serviços públicos e da busca por espaços econômicos, em especial na sua vocação agrícola. Aproveitar esse momento exige mais do que esperar a ajuda do governo estadual: requer iniciativa local, planejamento, vontade administrativa e a capacidade de enxergar que pequenas cidades também podem ser protagonistas quando se estruturam para isso.

O Espírito Santo tem mostrado que é possível crescer com responsabilidade e constância. Cabe aos municípios, inclusive os mais discretos como o nosso, entender que quando o cavalo passa arreado não se deve perder a chance de pular no seu lombo. Com visão prática e compromisso com o futuro, dá para transformar a escala reduzida de nossa cidade em vantagem, sempre tendo em vista tratar-se da antepenúltima ou penúltima em extensão territorial e, no entanto, talvez a mais (ou uma das mais) densamente povoadas no perímetro urbano.