Aqui eu guardo meus escritos.
Obrigado pela visita.

Até os azulejos do Maracanã e demais arenas cinematográficas em todo o país sabem que dinheiro público grosso, que se empilhado cédula por cédula chegaria a Marte, foi gasto nas obras megalomaníacas dos estádios. Enquanto isso, cidadãos morrem nos corredores dos hospitais sem leitos; animais morrem de sede no Nordeste, e seus proprietários contemplam com amargura as obras inacabadas de transposição do Rio São Francisco, que só Deus sabe se, e quando, serão concluídas, não obstante terem tragado uma montanha gigantesca de dinheiro do erário.
Pois bem. No sábado (14/6) a presidente Dilma foi intensamente vaiada no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Os apupos foram de tão grande intensidade, que Joseph Blatter, presidente da Fifa, pediu fair play (minha tradução livre: seus mal-educados, respeitem a inatacável presidente). Uma pausa: mesmo não estando presente no Mané Garrincha, vaiei também, pelas ondas magnéticas da decepção com os rumos do país, e, por suposto, também fui repreendido por sua senhoria, o todo-poderoso Blatter. Não aceitei, contudo, o esporro, e até fiz dois textos em repúdio (aqui e aqui.)
Aliás, se o Brasil fosse uma nação que se desse ao respeito, esse estrangeiro seria admoestado por se imiscuir na soberania alheia e constranger tantos milhares de brasileiros na própria casa destes. Pior: repreendeu-os por terem exercido o direito sagrado de protestar pacificamente, o que é legítimo num regime democrático.
Retomo o fio: nem bem a presidente se refez da ressaca vaialítica, muitos analistas — presumo que chapas-brancas — entenderam ter as vaias partido das elites. O raciocínio é que pobre não pode pagar R$ 280 por uma entrada, nem seria convidado de patrocinadores ou parceiros da festa de abertura da Copa das Confederações, que distribuíram ingressos a personalidades vips.
Então tá. Se não foram os pobres que vaiaram Dilma…, o governo fez estádios para as elites, é isso? Será que esses analistas dirão também que as gigantescas manifestações de rua, em número sem precedentes de participantes e de abrangência terão sido compostas só pelos muito bem remediados?
Publicado em junho/2013

Paga-se para nascer, viver e morrer. Impostos, taxas, contribuições. Paga-se tudo, exceto o ar que se respira, ao menos por enquanto. Mas não está longe a época que se pagará também por este elemento vital. Já estamos chegando lá, e a maior prova é que atualmente já estamos pagando para… sonhar! Mega-Sena; Super-Sena; Quina; Loteria Esportiva; Loteria Federal; Raspadinha, explorados pelos estados e pela União; Tele-Sorte, Tele-Sena; Papa-tudo; Bingos; sorteios diversos, explorados pela iniciativa privada, especialmente pela mídia televisiva, fazem parte dos chamados jogos legais. O jogo do bicho; cassinos; briga de galos e outros animais são os ilegais.
Além dos citados acima ainda existem inúmeras modalidades de jogos que a imaginação humana concebeu com a finalidade de explorar seus semelhantes. O Brasil é o quarto país do mundo em movimentação de bilhetes de jogos e o décimo em arrecadação. No ano passado, a arrecadação ultrapassou a casa dos 2,5 bilhões de reais, isto somente com os jogos considerados legais. A CEF, detentora de mais de 95% da exploração do jogo, tornou-se uma instituição especializada na arte de faturar em cima dos devaneios do povo, agravados pela falta de perspectiva e pelo arrocho sem precedentes patrocinado pelo Real. É uma instituição que realiza sua função social às avessas, muito morosa e burocrática, além de ineficiente com a política habitacional, porém extremamente serelepe quando se trata de tirar o suado dinheiro do povo através dos jogos.
Incontáveis as vezes que ela mudou as regras dos jogos, sempre de olho cada vez mais gordo no aumento da arrecadação. Em cada mudança ocorre um fenômeno cada vez mais sórdido, pois ao contrário do comércio, onde um produto que sofra aumentos de preços tem a tendência de vender menos, no caso dos jogos tem um efeito duplo no crescimento do valor arrecadado, porque como o prêmio fica maior, as pessoas tendem a apostar mais. De olho nesse filão inesgotável entraram a iniciativa privada, clubes e associações. Muitos, inconformados com a perda do lucro fácil proporcionados pela inflação alta, ou pela incompetência operacional, resolveram lançar mão da pilantragem para poder sobreviver, inundando o Brasil das mais variadas modalidades.
Na TV aposta-se de tudo pelo telefone, desde resultados de futebol até a cor da calcinha da Carla Perez. Tudo por módicos R$ 3 — que vêm incluídos na sua conta de telefone. “É uma moleza… Ligue, ligue, se você não ganhou agora vai ganhar na próxima” e, digo eu, só se for o “que a Luzia ganhou atrás da horta.”
Ironias à parte, o problema é sério. A verdadeira lavagem cerebral que a mídia patrocina é uma sandice. O jogo desvirtua os valores morais, deteriora os alicerces da cultura do trabalho que deve ser o único caminho para se ganhar dinheiro. O “imposto do sonho” para muitos é alto e de calamitosas consequências: costumam ser cobrados, às vezes, emprego, projeção social, bens materiais, desmoronamento familiar e até mesmo o suicídio. E convenhamos: jogar não vale a pena, pois a chance que se tem de ganhar, por exemplo, num milhar do jogo do bicho é uma em dez mil. E olha que essa é uma das modalidades consideradas mais fáceis entre as inúmeras opções que as velhas raposas, com suas bochechas coradas de tanto sugar o sangue alheio, colocam à disposição dos incautos.
Publicado em março/1997

Publicado em abril/1998

Não sei o que há comigo, mas não gosto de natais. Em todos fico deprimido e encaro os rituais de forma mecânica e por honra da firma, ou melhor, da tradição, que não é de bom alvitre contrariar. Este, no entanto, se superou em me deixar melancólico. Uma manchinha vermelha na perna direita apareceu no dia 22/12, do tamanho da cabeça de um alfinete, e, pequerrucha infausta, tive de me internar no São Vicente dois dias depois com prognósticos sombrios e cenho franzido do médico. A cabecinha de alfinete se transformou em 48 horas numa ferida com o diâmetro de uma moeda de R$ 0,25, preta que chegava a reluzir, irradiando uma onda vermelha de irritação (princípio de erisipela, me disseram) que ia do joelho ao pé. A ferida podia ulcerar e permanecer aberta por todo o sempre, lembrando as de alguns pedintes que ao menos encontraram uma forma de lucrar com a própria desgraça.
Fiquei eu, então, ouvindo ao longe os sinos pequeninos de Belém num quarto do São Vicente, muito bem assistido e dignitário das melhores atenções e dos mais eficazes antibióticos, pensando com simpatia incomum no chester e nas rabanadas. Em dado momento recebi a visita do amigo Damoita, ex-jogador de futebol que, pelo uniforme de prisioneiro e um cabo de vassoura ao ombro sustentando um frasco de soro logo compreendi que também era vítima de uma maldição em forma de grave crise vesicular.
Saímos ambos a tempo de comemorarmos em família a passagem do ano, devidamente curados e sinceramente determinados a nos livrarmos enfim de nossos vícios (eu, do cigarro, ele, da bebida.) Estou há mais de mês sem nicotina; ele assegura estar pelo mesmo período sem o álcool. E certamente nossos natais, daqui em diante, terão um colorido mais especial, espero.
Publicado em janeiro/2003

BANCO, pra mim, significa “Benfeitores dos Aquinhoados e Nobres. Calvário dos Oprimidos.” Inventei isso aí depois de pensar: rico entra em fila de banco? Pobre consegue empréstimo? Rico tem fundos de pensão, e pobres, tem fundos na conta? Quem vai primeiro para a lista negra? Quem tem mais chances de sair de lá? Existe banqueiro pobre, mesmo os que perderam seus bancos? Quem paga a mordomia deles? Rico exige remuneração pelo seu dinheiro depositado; pobre também? Rico quer construir uma mansão, pobre quer um
barraco. Apelam ao banco. Quem tem mais chances? Rico emite cheque sem fundos, pobre também. Quem é o estelionatário e quem é o “distraído”?
Falando sério. Nas décadas de 1970, 1980, a Informática praticamente inexistia. Engatinhava-se em meio àquelas máquinas gigantescas de imensos rolos e pilhas de formulários contínuos, onde os valores depositados ou sacados eram anotados manualmente. Que trabalhão! As filas que se formavam eram, por assim dizer, naturais. O tempo necessário para a compensação de cheques e outros papéis (às vezes 10 a 15 dias) também se justificava pela tecnologia primitiva e rudimentar.
Atualmente clonam-se seres vivos. Pode-se papear em tempo real através do telefone celular com quem esteja no topo do Kilimanjaro. A internet aglutinou o mundo e banalizou a distância; pululam os satélites artificiais, pode-se obter a cópia de imediato de um documento de uma pessoa que esteja no interior do Casaquistão. Só não se pode transformar em dinheiro no ato um cheque de Itaperuna, depositado em Bom Jesus, senão 24 ou 48 horas após o depósito. Por que será?
Se temos de efetuar transações em três bancos diferentes, especialmente às segundas-feiras, vésperas ou pós-feriados, podemos dar adeus ao dia. Perdemo-lo em filas quilométricas, irritantemente lentas, desarmônicas com o espantoso progresso tecnológico que o homem logrou obter. Quer dizer, as filas de hoje são mais cruéis do que as de três, quatro décadas atrás, porquanto aquelas eram geradas pelos procedimentos manuais, lentos; as de hoje são frutos do descaso e da ganância. Economiza-se em pessoal ao extremo, pouco importando o sofrimento do usuário. Não se justifica a ausência de caixas em quantidade suficiente para atender a demanda.
É o cúmulo do absurdo, por exemplo, um funcionário sair para o almoço em hora de movimento intenso e não haver quem o substitua e evitar solução de continuidade. Em um dos bancos aqui de Bom Jesus chega-se ao paroxismo da desconsideração para com o povo, de se deixar, em determinados momentos, apenas dois caixas funcionando: um para os miseráveis, cuja fila chega a fazer cobrinha e outro para os clientes especiais. Um descalabro, uma afronta!
Se os digníssimos gerentes das agências me permitissem sugestão, pediria que atentassem melhor para a questão das filas, vexatórias num país civilizado. Sei que exercem sua função com dificuldade, têm a autonomia restrita e não são de forma alguma os responsáveis pela política de maximização dos lucros em detrimento da qualidade do serviço. Mas, pelas barbas do profeta, será que nem ao menos podem efetuar um remanejamento interno de modo a assegurar mais caixas nos dias e/ou horários de pico?
Humanizem suas agências, senhores. Se isso não estimular a migração de mais alguns Reais dos colchões aos cofres dos seus bancos, ao menos materializará a fidalguia que os senhores têm ou deveriam ter com quem, em última análise, são os provedores dos seus salários.
PS – Aos senhores banqueiros, um apelo: não devorem todo o PROER que saiu a fórceps de nossas entranhas, já nos estertores. Deixem um resíduo, uma migalha que possa servir ao menos para os oferecer um cafezinho enquanto encaramos as odientas filas, não merecidas.
Publicado em junho/1999