Aqui eu guardo meus escritos.

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Tudo como dantes

Um ano se inicia e com ele toda a rotina humana na Terra em mais um ciclo de 365 dias. Chegando ao ano de 2000, parece que o homem esgotou todo o seu arsenal criativo, parece que já inventou o que podia ser inventado, criar o que podia ser criado, revolucionar o que podia ser revolucionado. Tudo é tão rotineiro…

O novo ano traz consigo algumas rotinas adicionais que são cíclicas, mas que não deixam de ser rotinas. Teremos como sempre um início de ano com sérios desfalques na grande maioria dos bolsos brasileiros — e por que não dizer, durante todo ele — provenientes do impoluto espírito de Natal. Tal e qual um surrado instrumento monocórdio, povoaremos as praias neste verão e elegeremos sua musa, que terá tantos centímetros de silicone por tantos gramas de gordura subtraídos em lipoesculturas. No Carnaval, o trivial, para rimar mal. Aqui no interior, praticamente nada, mas na telinha iremos ver o festival de genitálias desnudas e a licenciosidade nos píncaros da glória.  Candidatos a personalidades disputando a tapas um lugar nos camarotes vips decorados com fios de ouro, banqueiros do jogo do bicho inconformados pela injustiça de sua escola de samba não ter sido a campeã fazem parte de um roteiro cansativo e enfadonho. Teremos a volta às aulas e as reclamações sobre o preço do material escolar que estará (sempre está) pela hora da morte. Acompanharemos a cerimônia de entrega do Oscar pela Academia de Holywood e morreremos de rir, entre aspas, com as piadinhas sem graça e sem imaginação dos astros do cinema americano.

O fato é que nada muda. Entra ano sai ano e aquela voz tonitruante de priscas eras que bem longe vão do Cid Moreira a martelar dominicalmente nossos tímpanos, felizmente, parece, não tendo de narrar mais as peripécias do príncipe de todos os sortilégios, o Mister M, um mágico às avessas pouco afeito ao corporativismo; Adriane Galisteu, Feiticeira, Tiazinha, Scheilas do Tchã e tantas outras deslumbradas permanecerão iludidas que nasceram com dom artístico, da mesma forma que os pagodeiros Alexandre Pires, Netinho, Vavá, Salgadinho, et caterva, que com suas performances ridículas e caricatas acreditam que fazem arte e contribuem para o progresso cultural do Brasil.

Meno male que o IBOPE a cada dia decrescente precipite o final prematuro de “Terra Nostra”, pois ninguém aguentaria por muito mais tempo a saga romântica, dramalhona e lacrimogênea da Ana Paula Arósio com o Thiago Lacerda — nestes tempos em que muitos já preferem fazer sexo virtual — nem a trama inverossímil de uma adolescente (Maria Fernanda Cândido) que se apaixona por um sexagenário (Raul Cortez).

No esporte, o 2000 traz uma das rotinas cíclicas, já que são de quatro em quatro anos que se disputam os Jogos Olímpicos. Espera-se aí que o Brasil mude finalmente a rotina, sagrando-se pela vez primeira campeão no futebol olímpico. Outra rotina cíclica são as eleições, que este ano serão para prefeitos e vereadores. Neste particular é que pode residir a esperança de uma mudança. Quem sabe a rotina da desilusão, da desesperança, da injustiça e da desonestidade encontre fortes resistências em 2000, com os brasileiros votando certo, de acordo com suas consciências e não em troca de favores?

Publicado em janeiro/2000

A violência entre nós

Li uma reportagem que me impressionou tão favoravelmente que me lembro até o ano. Em 1997 foi divulgada uma pesquisa na Austrália dando conta de que no ano anterior havia sido contabilizado um romântico número de 312 assassinatos em todo aquele país de, na época, cerca de 20 milhões de habitantes. Algo em torno de 15 crimes em cada um milhão de pessoas, ou 1,5 para 100 mil.

Não estamos na Austrália, nem em 1997, e a comparação não vem muito ao caso, mas ajuda a ilustrar o que se vê atualmente em Bom Jesus do Norte, que em menos de um ano teve quatro casos de assassinato, sejam passionais ou latrocínios. Quer dizer, quatro para uma população estimada em nove mil. Isto equivale, em termos comparativos ao do exemplo, que teríamos cerca de 10 mil assassinatos se fôssemos uma comunidade de 20 milhões de bom-jesuenses-do-norte.

Obviamente os trevosos acontecimentos aqui são reflexos da calamidade social que grassa pelo país, mas extremamente preocupante pela quantidade exagerada, sinalizando que algo não vem funcionando a contento. O tráfico de drogas, que cresce num ritmo assustador, como em todo o Brasil, o que mais fomenta a violência. A população, aflita, espera que suas autoridades policiais e judiciárias a mantenha inteirada das ações e reações, torcendo fervorosamente para que sejam veementes, objetivas e urgentes. Enquanto há tempo.

Publicado em fevereiro/2003

Ignara burguesia. Ou, a cara da violência. Ou, se não corrigirem as injustiças, cercas eletrificadas e cães de guarda nada resolverão

A violência que invade os quintais da burguesia e das autoridades brasileiras deixando-as perplexas foi largamente anunciada durante muito tempo de opressão e de miséria. E a cena se repete. Sob estarrecimento, discutem-se atabalhoadamente medidas inócuas de combate ao crime, procuram-se fórmulas mirabolantes, pensamentos concatenam-se de maneira febril para encontrar a saída, mas a cegueira não permite admitir que só há uma única via, propalada quase sempre de forma hipócrita e dissimulada, que tem o nome de justiça social. Prometida sempre, mas jamais parida, sua ausência sedimentou uma escalada tão brutal da violência que a ela já não mais fazem frente carros blindados, seguranças fisiculturistas armados até os dentes, cercas eletrificadas, ferozes cães de guarda e toda a parafernália eletrônica.

Emergindo dos guetos e da promiscuidade, cenários onde era restrita, a violência ganha o asfalto e se mobiliza contra as classes sociais que mais a fomentam, mesmo de forma inadvertida e não deliberada, uma espécie de criatura que se volta contra o criador. A burguesia brasileira não é melhor nem pior que as de todo o mundo. É mais bronca e estúpida, porém, porque pela sensibilidade toldada custou a perceber os clamores a cada dia mais intensos da imensa parte excluída, o que inibiu a noção do grande perigo que a ronda diuturnamente. Em países mais desenvolvidos, a elite já percebeu de há muito que não é inteligente comer tudo e deixar os pobres famintos, e, por conseguinte, raivosos.

No Brasil, 10% da sociedade detêm 50% da renda nacional. Em nenhum país do mundo a concentração é tão brutal. Em Ruanda, por exemplo, os 10% mais ricos abiscoitam 25% e até na Tailândia o número não passa de 37%.  A virulência das desigualdades sociais no Brasil é mais perversa quando se sabe que uma grande parcela dos miliardários adquiriu sua riqueza na “mão grande” mesmo, tirando indiretamente a merenda das crianças, o remédio da turba adoentada e todo e qualquer arremedo de avanço social. Não é de estranhar, portanto, o nível astronômico da violência que nos assola. Muitos dos que estão na vivenda do crime o fazem por absoluta falta de opção, pela mera necessidade de cavar o seu sustento.

Não há emprego no país, já que os investimentos jamais contemplam programas de desenvolvimento. Eles vão direto para a especulação, para o ganho fácil, em última análise bancado pela miséria. Os parcos recursos de tímidos programas dito sociais, invariavelmente vão engordar a conta bancária dos privilegiados. Jamais chegam a quem deles realmente necessita. Esse negócio de dar R$ 15 de esmola para o filho frequentar o colégio (e gerar publicidade estonteante do governo) é o cúmulo da desfaçatez!

Não haveria chance de o chefão do crime arregimentar jovens nas favelas se estas não existissem. Não haveria a necessidade de muitos cidadãos obter seu sustento de forma criminosa se o pudesse fazer de forma legal.  Claro que o crime sempre existiu e sempre existirá. Mas da forma como ocorre no Brasil e noutras repúblicas onde um único banqueiro abocanha os recursos que calaria a fome de milhões, não poderia ser mais ameno, Os recentes assaltos e sequestros sofridos por pessoas notórias, da fina flor social brasileira, e até a morte de personalidades são sinais apavorantes de que a ruptura de uma convivência harmoniosa está ocorrendo de forma medonha.

A elite está percebendo, a fórceps, que a indignação pela estarrecedora injustiça social está pulando seus muros e exigindo retratação urgente, com a cara da violência fitando com rebeldia o tubo de ensaio grandemente responsável pelo exagero de sua escalada, instaurando o terror e a desgraça impiedosamente.

Publicado em fevereiro/2001

Imbecilidade; ou, escritos anônimos têm o fedor da lama em que chafurdam seus autores

Os escritos sem a identificação dos autores — folhetos apócrifos — têm sido largamente utilizados nas duas Bom Jesus, o que é um fato verdadeiramente decepcionante e que traduz o baixíssimo nível moral e intelectual de quem os produz. Nem sequer uma palavra como comentário tal prática mereceria, não fossem estes dementes presumivelmente bom-jesuenses, e pior, mais presumivelmente ainda detentores de algum vínculo com a política local.

Nossas duas cidades, pacíficas, pacatas e que nos fornecem a possibilidade do exercício mais contemplativo da vida, não merecem que gente dessa laia desfrutem de sua hospitalidade. Muito menos os cidadãos ordeiros, que temos sério compromisso com a ética, com a boa educação, com a elegância e com o respeito que deve prevalecer entre os membros de uma sociedade civilizada, podemos aceitar pacificamente que nossa identidade seja respingada pelos dejetos dos que rastejam nos porões taciturnos da maledicência.

Estes se acostumaram a chafurdar na fossa da ignorância, do desprezo, da deselegância, da irracionalidade, vítimas, pobres coitados, da falta de um berço decente ou de um banco escolar. Acima de tudo são covardes, que se escondem no sigilo traiçoeiro para denegrir às vezes pessoas de bem, realizadas e bem resolvidas nos planos pessoal e profissional, exatamente porque o sucesso destes é intolerável às suas bizonhas capacidades, aos seus ridículos projetos, à sua insignificância mental.

É de estarrecer que políticos necessitem, recrutem e até mesmo garantem boa vida a este refugo social para lhes confiar o serviço sujo, escalá-los para as tramoias e escaramuças explícitas, e a tudo o que de pérfido existe no sistema falido e desmoralizado da política brasileira. A escoalha faz bem esse serviço. Rasgar bandeiras e galhardetes do adversário, intimidar pessoas humildes, agredir, espionar, rosnar, injuriar, caluniar, difamar são suas especialidades. São desprovidos de amor-próprio, respirando mediocridade por todos os poros do ressentimento e da amargura. Em conflito consigo próprias porque constituídas da mesma estrutura de um ser humano sem o arremate do bom caráter, da integridade moral para se portar como tal. Isto é terrível para o seu íntimo, para o seu inconsciente, porque não podem sair por aí andando na horizontal por intermédio dos quatro membros.

Da aliança de nossa indignação depende a caça aos vermes que deixam seu rastro excrementício a vitimar um e outro com a aberração de sua natureza ignóbia.

Publicado em janeiro/2001

Notas dissonantes

Mark Knopfler, voz e bússola do Dire Straits. Em “Sultans of Swing”, quando seus dedos nus percorrem a guitarra no solo final apaixonante, cada corda se dobra em súplicas precisas, arqueando-se até o limiar da ruptura. O timbre vira um lamento elétrico, um gemido de madeira e metal, como se o músico lhe exigisse a última nota respirável antes que o próprio ar do instrumento se esgote

 

Toda nota de falecimento transmitida pelo rádio ou carros de publicidade volante deve ser feita em tom grave, solene, isso parece claro. Mas não precisa exagerar. Em Bom Jesus, parece que os locutores competem para ver quem imposta mais a voz, quem transmite mais emoção. Naturalmente contentes por mais um cliente, o sujeito transmuda-se ao microfone transmitindo uma tristeza de dar dó: “fa-le-ceu o Sr. fulano ou Sra. fulana de tal. Seus filhos (às vezes nomeados numa lista interminável se o de cujus ou a de cujus foram prolíficos na função de perpetuar a espécie) convidam para o sepultamento às tantas horas no cemitério local (às vezes “campo-santo” — dose elefantina). A famíliaaa, enlutadaaaa, ante-ci-pada-mente a-gra-de-ce-eee.

Família enlutada? É, talvez não seja tão redundante assim numa era marcada pelo individualismo e pouco afeto entre os iguais. Encareço aos meus, quando for chegada a minha hora, não só excluir o termo do recital, como também impedir o tom funéreo — normalmente a cargo da Ave Maria, de Gonoud — mandando tocar em alto e bom som o solo de guitarra do roqueiro Mark Knofler na música do Dire Straits, “Sultans of Swing.”

Publicado em dezembro/2000