Publicado em julho/2010
Aqui eu guardo meus escritos.
Obrigado pela visita.

Deve-se investir dinheiro (nem tanto, nem tanto) para substituir as placas de boas-vindas, investindo também o básico do nosso idioma velho de guerra. Seja “bem-vindo” deveria ser grafado assim, com traço-de-união que a Nova Ortografia não excluíra dos dicionários. Desde que as placas foram introduzidas nos três acessos a Bom Jesus do Norte/ES, se não me engano no ano da graça de Nosso Senhor de 1997, venho encafifado com esse erro ortográfico crasso, e também com a expressão “Turismo é investir na qualidade de vida”, que a rigor não quer dizer absolutamente nada. Tá bom, tá bom, todo mundo entende a mensagem, isso é que importa, a publicidade desfruta de certa liberalidade (tal qual os poetas), a cerveja que desce redondo, em vez de redonda, etc. e tal, e eu não chegaria a ponto de dizer de meu vizinho que ´a gente é amiga´, como a língua portuguesa culta exige porque o substantivo “gente” é feminino.
O português é mesmo peralta. Eu e pertinho de 100% dos bom-jesuenses, ouso afirmar (inclusive intelectos privilegiados como os do como Padre Mello, Delton de Mattos, Romeu Couto e muita gente boa mais), escrevíamos “bonjesuense” sem o bendito tracinho que deve unir “bom” a “jesuense”, como ensinam os mestres Caldas Aulete, Antônio Houaiss, Aurélio Buarque de Holanda e outros lexicógrafos — o álibi de meus compatriotas de tempos idos é se a grafia nem sempre foi hifenizada. Quanto ao slogan, quisera ter o dom da síntese de Dalton Trevisan para sugerir uma ´portuguesmente´ correta para “é mais prioritário investir na qualidade de vida do que no impulsionamento do turismo”.
Por tudo isso é que não reclamei até agora, julgar-me-iam (hum!) esnobe, superficial, presunçoso, além de me arriscar ser processado por preconceito linguístico. E que utilidade teria além de desagravar as normas da língua-mater, cruelmente esculachada, humilhada, depreciada atualmente? Mas a natureza e o descaso se uniram para me dar um pretexto, digamos, relevante para criticar as indefectíveis placas. Aquela que nos brinda com esfuziantes ferrugem, desalinho, amassos e erro gramatical, localizada na chegada, sentido Apiacá, é também uma ameaça à vida: as duas hastes de sustentação inferiores estão totalmente destruídas pela corrosão. Embaixo do perigo há um abrigo de passageiros, e estes correm o risco da ´desqualidade´ de vida, podendo vir a inspirar o slogan “Turismo é investir na decadência e, quem sabe, no óbito!”

— Paulinho, traz a sexta-feira 13.
— Aqui está.
— Agora pegue a dama e vá dançar um pouco naquele piso.
Achei tão engraçado este diálogo entre um pedreiro e seu ajudante que passei a prestar mais atenção no linguajar desses trabalhadores. Fui me tornando mais íntimo de sua terminologia e de suas agruras a partir do momento em que passei a pôr literalmente as mãos na massa quando da necessidade de fazer os reparos e as manutenções do meu lar doce lar. Explico: sendo de boa monta as referidas necessidades e inversamente proporcionais ao tamanho das minhas finanças, resolvi assimilar um pouco a lida com areia e cimento, com argamassa e revestimento, com prumo e enquadramento, para não fugir à rima. Minha casa, por meus próprios braços e mãos está se livrando paulatinamente da velha pecha de pobre e relaxada. Diria ela, enfatuada: “pobre, mas digna.”
Nesta altura o leitor e a leitora devem estar se perguntando: e eu com isso? Calma. Em troca de sua admiração ao meu talento multifacetado serei um adminículo (que contribui para) à sua cultura. Muita modéstia, liga não. Para começar, você sabe o que é embolsar uma parede? Errou. Introduzir uma parede no bolso só o King Kong talvez conseguisse se usasse roupas. Se alguém embolsar a sua, e ainda assim você pagar por isso, problema seu. Comigo a pessoa teria de realizar um desembolso se quisesse a minha parede. Se ele fosse emboçá-la, porém, eu quem o embolsaria. Sim. O que fazemos é emboçar, sem o L contido em ´polca´, um tipo de dança, mas que muitos entendem equivocadamente ser a fêmea do parafuso. Os que faço são emboços curvilíneos, ondulados, toques originados da inabilidade que pretendo o digníssimo admirador entender como um estilo neo-alguma-coisa, algo entre o barroco e o moderno.
Curiosidade: a palavra “pedreiro” é derivada do latim “petrarium”, relacionado a pedras, aprendo na Internet. A pessoa que levantava paredes com pedras ou outro material era conhecido também como alvanel, ou alvenel, em algumas culturas da antiguidade. Daí a tal alvenaria. E quem estranhar tamanho contraste entre escrever umas mal-traçadas e entijolar, lembro que Agenor de Oliveira foi servente de pedreiro. A pequena, ínfima diferença é que ele começou servente e terminou Cartola, o gênio da música que produziu o hino “As rosas não falam”.
Fichinha, comparado a mim, eh, eh, eh.
P.S. Sexta-feira 13 é marreta, daquelas de uns 10 kg, que aconselho a você não se interessar por ela. E se gosta de dançar agarradinho ou agarradinha sugiro enfaticamente procurar uma dama de carne e osso. A dos pedreiros costuma ser um pedaço de madeira como tocos gorduchos de grandes árvores com dois braços, digo, dois cabos pregados que serve para compactar o solo para receber o contrapiso. Dependendo do tempo da dança os braços humanos, digo, os cabos colados ao corpo costumam terminar pesando mais que a dama.
Publicado em janeiro/2011

Meu caçula de 14 anos resolveu que é hora de pilotar motocicleta. Aquela pressão velha conhecida de pais de adolescentes, tipo todo mundo anda, só ali na pracinha, não vou correr, nem cair, nem ir longe, etc.
— Quando você completar 18 anos eu deixo, retruquei para sobrancelhas quase formando duas letras U invertidas. E completei, a despeito das sobrancelhas: — porque então você estará habilitado e poderá sair por aí legalmente sem que eu me preocupe de um policial bater em minha porta a qualquer momento com as sobrancelhas mais fechadas que as suas querendo me enquadrar por desrespeito à lei.
— Mas, pai, quatro anos é muito tempo. Vai custar a passar.
Tudo é tão enfadonho… Todo homem, ao nascer, tem a consciência da imortalidade. Daí a morte ser tão injusta, dizia Carlito Maia. Meu filho, com a consciência da imortalidade, julga que quatro anos passam devagar, quase parando. Neste momento fico pensando que deveriam desenvolver algum medicamento persuasório para se aplicar na veia e meu filho percebesse que quatro anos passam depressa até demais.
Relaxem, porém. Não vou filosofar sobre o tempo. Está chegando o Natal. Mais um, a totalizar 56 na minha vida que, agora, vai ganhando velocidade vertiginosa em contraste com a do meu filho, a trafegar como uma tartaruga míope. O que acho das festas? A cada ano me distancio do chamado espírito do Natal e mais me entediam as comemorações de fim de ano. Não vejo o que comemorar. Para começar, todos sabem, mas poucos se lembram do motivo principal das pomposas solenidades natalinas. Entendo os festejos principalmente num mundo de alucinações e delírios como o nosso não como uma singeleza ao Menino Deus, mas uma afronta, uma heresia, uma blasfêmia.
Mesmo com Sua infinita misericórdia e tolerância Ele há de repudiar os convescotes de dissimulação e desfaçatez onde o que mais conta são os prazeres mundanos — em especial os do ócio e da gula — e a exacerbação do egoísmo e das práticas hedonistas, já disse isso em outro texto. Congratulações às exceções, aos homens e às mulheres que não se deixaram cooptar pelo materialismo insano nem vacilaram em sua fé. Formam um seleto clube do qual também não tenho permissão para frequentar.
Por outro lado, essa constatação me traz certo alento. Pode estar nela a espoleta deflagradora de mudança de rumo em busca de uma vereda mais segura e livre das preocupações com a inclemência e a inexorabilidade do tempo.
Publicado em dezembro/2010

Nas proximidades do Supermercado 5 Irmãos, em Bom Jesus/ES, insistem deixar como mão-dupla um trecho que na largura mal comporta um ônibus. Acontece que os ônibus teimam passar por ali, e quando se deparam com um caminhão em sentido inverso ficam como brutamontes em comercial de luta-livre, um olhando com cara de mau para o outro sem arredarem pé. O busilis ali é de causar vergonha pela mentalidade retrógrada, pela inércia e incompetência do poder público nesta e noutras gestões. Não só veículos grandes se incompatibilizam. A fim de complementar o quadro caótico, o retoque na estética do absurdo, veículos grandes e pequenos estacionam a qualquer hora ao longo da via. Os burocratas parecem apostar que um dia os veículos terrestres serão equipados com asas.
Demarcação de vagas ao bel-prezer
Certa parcela do comércio que produz riqueza, gera divisas e dá emprego traz também o efeito colateral da arbitrariedade, principalmente alguns mais importantes como supermercados e lojas de eletrodomésticos. Cones exasperantes demarcam vagas para uso particular em local público. É o que mais irrita porque sugerem transigência com o poder fiscalizador. Tal e qual o entulho repressor da república dos generais, que demarcava imediações de bancos como área de segurança (alguém pode dizer para quê?), alguns comerciantes avocaram unilateralmente e conquistaram na marra o mesmo “direito”. Alguns desses ignoram solenemente não apenas o Código de Posturas Municipais, mas inclusive a prerrogativa do ir e vir das pessoas, usando as calçadas como extensão de seus negócios.
Querem vagas para os clientes? Comprem imóveis e as construam, espertalhões! A petulância de alguns pela certeza da impunidade e ausência de autoridade gera situações surrealistas e tonifica o desagradável clima de provincianismo e de atraso. Ruas de tráfego intenso são transformadas em canteiros de obras em pleno horário comercial; caixotes, variantes horrorosas dos cones garantem vaga de estacionamento particular em frente a alguns pequenos estabelecimentos; engradados tomam conta de calçadas; veículos de duas ou quatro rodas, idem.
Sinhô dotô
Curioso observar como proliferam as placas de “carga e descarga”, onde não se pode parar de jeito nenhum, e as menos radicais que fornecem fiapo de generosidade ao permitir parada por 10 minutos. Estou encafifado como controlam o tempo. Qualquer dia vou parar 11 minutos e ver o que acontece. Depois, 15, 20, até um dia inteiro. Como procuro não desrespeitar as leis e os regulamentos, só estacionarei sob as plaquinhas marotas, ilegítimas aos escaninhos do órgão de trânsito.
Vaga especial para juiz, promotor, vereador, prefeito, etc, por quê? Todos não são iguais perante a lei? Que cada um enfrente os mesmos percalços para encontrar a santa vaguinha de cada dia, ora essa. Será que nunca nos livraremos do ranço patriarcal do “sinhô dotô é qui manda?”
Publicado em julho/2010

Faleceu aos 83 anos (19/6/1927 – 8/7/2010) o meu pai Oswaldo de Castro Vaillant, deixando 10 filhos, 22 netos e 3 bisnetos, a viúva Luiza Áurea (dona Aurinha) e uma grande quantidade de amigos. Um ser humano com virtudes e imperfeições, como qualquer outro, Oswaldo tinha, porém, capacidade incomum de fazer amigos: era “um bom papo”. Sua memória privilegiada e a lucidez irretocável impressionavam os interlocutores que se deleitavam com colocações às vezes intransigentes, outras simpáticas e generosas, todavia sempre autênticas. Devo ressaltar ainda o homem honrado, trabalhador, que criou a grande família com dificuldades, mas sempre pautado pela coragem e dignidade. E a morte lhe concedeu a dádiva de levá-lo sem delongas, sem causar sofrimentos desnecessários. Internado já quase na madrugada da quinta-feira 8/7, morreu às 15h daquele dia por infarto e sepultado no dia seguinte, em Bom Jesus do Itabapoana.
Descanse em paz, meu velho.
Publicado em julho/2010