Aqui eu guardo meus escritos.
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Há algum tempo se vêe com estranheza caminhões de carga transitarem pela ponte velha que divide os dois municípios de Bom Jesus, divisa entre os estados do RJ e ES. São veículos de todos os portes, até imensas carretas fazendo misteriosamente o percurso nos centros urbanos de cidades de ruas acanhadas, grande quantidade de quebra-molas e obstáculos de toda ordem, renunciando ao conforto do caminho pela ponte nova do Contorno.
É esquisito esse cortejo urbano até mesmo por parte dos motoristas que se dirigem a São José do Calçado ou localidades naquela direção, pois a alternativa de acesso se revela indubitavelmente melhor. Ressalvando um eventual, remoto e inusitado senso masoquista de um ou outro caminhoneiro que estaria na contra-mão daquilo que a classe mais devota — a pressa de chegar — enfrentando percalços e manobras arriscadas para evitar colisões com copas de árvores em alguns veículos transportando cargas altas, a suposição de que haveria algo mais no chão do que simples caminhões de carreira foi recentemente reforçada pelo episódio da prisão, em São .José do Calçado, de um fiscal de rendas de Bom Jesus do Norte suspeito de subornar um caminhoneiro para fazer vistas grossas à documentação irregular e venda de notas fiscais frias.
É imperioso que as autoridades investiguem a fundo o forte indício de crime de sonegação fiscal não apenas para punir alguns eventuais apressados em dar uma molhada no canteirinho esturricado pela dureza da vida, mas sobretudo porque no rastro dos canteirinhos é possível que haja uma extensa área cultivada. Quer dizer, no bom o velho português, que seria ingênuo quem pensasse que, existindo o ilícito, este se restringiria à subalternidade de um mero fiscal pego com a boca na botija. Muito provavelmente há pessoas mais importantes por trás das pressupostas evasões, e isso tem de ser severamente diligenciado a bem da moralidade pública.
Publicado em abril/2001

Em 13/7/1979 falecia Athos Fernandes Monteiro, aos 59 anos. Na foto, a partir da esquerda, Eli Machado, Francisco Barroso, Luiz Teixeira de Oliveira, Athos Fernandes e Astolfo Fassbender. Bom Jesus perdia um filho adotivo (nascera em Itaperuna- J), mas que se revelou, através do amor e dedicação pela cidade, mais legítimo que o mais legítimo bom-jesuense.
Poeta consagrado além-fronteiras, escritor de escol, jornalista diletante, possuía aquele delírio criador que lhe incendiava a imaginação. Possuidor de invejável capacidade de se expressar pelas palavras, Athos foi um mestre na arte de bem escrever. A propósito, peço licença ao também grande jornalista Edison Chaves, e me permito transcrever, na íntegra, seu emocionante depoimento a respeito de Athos, publicado em “A Voz do Povo” em 1976, intitulado ´O invejável Athos Fernandes´:
“Invejável é a posição de quem consegue ser, a um só tempo, grande poeta e excelente escritor. Somente quem escreve pode avaliar, perfeitamente, as dificuldades que se oferecem à transmissão da mensagem, ou, como se diz, para se dar o recado. Nem sempre as palavras condizem com o pensamento. Há entrechoques do querer e do poder. Há limitações gramaticais ou terminológicas. Não é fácil!
Há muito venho acompanhando a participação constante do Athos em nossa imprensa. A cada dia que passa, maior é a admiração que tenho pela pena extraordinária desse incrível jornalista do interior que, sem receio, posso afirmar se sobrepõe a muitos editorialistas da imprensa das metrópoles. Palavra fácil e erudita, inspiração incomum, são ingredientes que não faltam aos seus artigos e poemas.
Ao ler o seu editorial ´As Antinomias da Arte´ senti- me terrivelmente pequeno para estar no mesmo jornal que ele. É uma covardia! Encontrei, sinceramente, a par da clareza, do recado bem dado, do tema bem colocado para os nossos dias, encontrei, repito, e assinalei dez palavras cujos significados não conhecia, algumas totalmente inéditas para mim. Imagino quanta leitura, quanto tempo de autodidatismo deve ter o nosso amigo Athos. A facilidade para redigir, que a gente percebe num simples bate-papo, deve ter-lhe custado muita dedicação, muito amor à arte jornalística. Não fosse a voz rouca, teríamos nele, também, um primoroso orador. Mas já seria demais!
O que mais admiro, no entanto, em Athos Fernandes, é a sua simplicidade pessoal. Na rua, no trabalho, na mesa de botequim, ele é sempre o mesmo: sóbrio, educado, humilde. A acolhida que me deu, aqui ao seu lado, com o meu vocabulariozinho do dia a dia, sem maiores pretensões, aumentou o respeito e a estima que lhe dedico. Daí, a razão destas palavras.”
Retorno
Há que se acrescentar que Athos praticava um jornalismo agressivo e destemido em todas as situações e circunstâncias que contrariavam suas convicções políticas e sociais nos quase 30 anos que trabalhou em “A Voz do Povo”. As críticas mordazes, os textos audaciosos, sempre causavam polêmica e atingiam em cheio o objetivo: defender intransigentemente os interesses coletivos.
PS – Athos tinha um grande defeito, era vascaíno. Mas ninguém é perfeito!
Publicado em outubro/1997
O otimista exacerbado e resignado, além de chato é um inútil na medida em que nada questiona, pois para ele tudo está bom, se melhorar, estraga. Bonjesino é a personificação desse espécime:
— E aí chefia, como vai a vida? — perguntou-me certa tarde ao voltar do trabalho, mãozorra a segurar o cabo da enxada nos ombros.
— Nada boa, Bonjesino, nada boa. Sabe…, problemas, tristeza pela morte do Tim, do Frank Sinatra, e agora do Leandro.
— Seu problema, chefia, é que você só olha o lado negativo das coisas. Tente encarar pelo lado bom.
— Mas o que pode haver de positivo na morte desses grandes artistas?
— A banda, chefia, a banda. O homem deve estar querendo formar uma banda.
— Que banda? Que homem?
— São Pedro, ora. E pelo visto será bem eclética, numa bela mistura de ritmos. Esse São Pedro… Com certeza não chamou os caras à toa.
— Sério, Bonjesino. Estou triste pela morte deles, mas também muito preocupado com outra coisa. Minha mulher tomava aquele remédio contraceptivo oral, o tal do Microvlar que o Laboratório Schering estava falsificando com farinha de trigo. Faz quase dois meses que a menstruação não veio, e não quero nem olhar o resultado do exame. Vai ser foda se vier outro bacuri nesta altura do campeonato!
— Deixa de heresia. Se Deus resolveu te dar mais um, ou dois, quem sabe três de uma só tacada, você tem que aceitar numa boa agradecendo pelo privilégio, e não ficar aí se lamentando feito uma puta arrependida.
— No dos outros é refresco, né Bonjesino? Isola. Sabe quanto custa um pacote de fraldas? E a cada dia que passa as coisas vão ficando mais difíceis. Falta o dinheiro, sobra o desemprego. Você tem visto a galera que vem aparecendo no horário político? Cada figura de arrepiar os cabelos!
— Deixe de maledicências. Nossa classe política é o que há de mais nobre, digna e honesta em toda a face da Terra. O Brasil será a maior nação do mundo nas mãos destes abnegados.
— Sei. Este é o discurso inclusive dos componentes da fina flor da malandragem. Alguns deles, quando aparecem na telinha, sinto um arrepio de pavor e levo instintivamente a mão no bolso. Mas não passa de reflexo condicionado da época em que eu tinha algo a perder. Hoje os bolsos só andam vazios.
— Chefia, desculpe, mas tenho que ir — disse com ar enfadonho e visivelmente contrariado, completando: — Pessoas como você não têm escapatória. Jamais vão conhecer a verdadeira felicidade — arrematou com um seco e formal boa-noite. Girou nos calcanhares nas surradas Havaianas com as tiras sustentadas por pequenos pregos trespassados no solado, e tomou a direção do barraco de dois cômodos.
Conhecedor dos seus hábitos, eu sabia que antes ele passaria no armazém para comprar querosene para a lamparina, tomaria uma purinha e talvez desse uma filada na TV do Arnoldo e assistisse um pouco ao programa do Ratinho. Ou então iria até ao portão da Dona Noêmia para ouvir de longe músicas do SPC ou Negritude Júnior, e com um pouco de sorte talvez a velha pusesse para tocar alguma do Claudinho e Buchecha, seus artistas preferidos. Em seguida repousaria seu corpulento esqueleto no desgastado catre, pensando na esposa que havia fugido com outro, aguardando o clarear do dia para a rotineira jornada de trabalho no ofício de roçador de pasto free-lance.
Publicado em junho/1998

O recente arranca-rabo envolvendo o Ministro da Saúde José Serra e a apresentadora Xuxa foi um pequeno arroubo de indignação de uma autoridade que deveria ir bem fundo e, com a importância que tem, implementar intensa mobilização para pôr um pouco de moralidade nos programas de TV deste país. Infelizmente as coisas não passam de veemências esporádicas para agrado momentâneo da plateia, caindo rapidamente no esquecimento sem maiores consequências. Falo da forte crítica que o ministro fez à apresentadora por esta dar o mau exemplo da apologia à geração de filhos fora de uma união familiar, aludindo ao flagelo da gravidez na adolescência de jovens brasileiras.
Um pecado que acomete certas pessoas é o temor de parecer antiquadas, conservadoras. Em nome desse temor se conformam em ver a derrocada dos valores morais que sempre fizeram parte dos humanos enquanto racionais e sociáveis, permitindo e até estimulando a permissividade exacerbada que está se tornando uma das mais insidiosas moléstias, das tantas que já estertoram a nação tão combalida.
Cada geração promove mudanças de comportamento, o que é perfeitamente normal em virtude da evolução da tecnologia e dos conhecimentos a influenciarem os costumes. Mas nunca promoveu um declínio tão acentuado das condições morais, cujos sintomas são os filhos ilegítimos, crimes, uso de drogas. O que prevalece hoje é o individualismo exacerbado em detrimento do coletivo, das reivindicações de direitos ilimitados em prejuízo da responsabilidade, da liberdade irrestrita sobre o cadáver da ordem.
A dissolução da família, instituição basilar e milenária parece irremediavelmente deflagrada por um critério de comportamento que associa libertinagem e culto ao egocentrismo com padrões de modernismo. Em 1998, o SUS realizou 698.439 partos em adolescentes na faixa etária entre 10 e 19 anos. É um número assustador, até porque não revela a realidade completa do drama social e humano que é a gravidez precoce. Nele não estão computados os partos feitos na rede particular e os que ocorreram sem nenhuma assistência.
Também não leva em conta os milhares de abortos que certamente são praticados para interromper a gravidez indesejada, a maioria das vezes nas mais precárias condições de higiene. O que mais assusta na estatística do SUS é o fato de que ela inclui 31.857 meninas que se tornaram mães entre os 10 e os 14 anos, idade em que é simplesmente absurda a prática de relações sexuais. Ainda pior: entre 1993 e 1998, houve um aumento de 31% nos partos atendidos pelo SUS nessa faixa que vai até os 14 anos de idade.
Trata-se de mães crianças, na grande maioria pobres, despreparadas para a maternidade sob todos os pontos de vista: material, biológico ou psíquico. Independentemente da classe social a que pertençam, essas meninas interrompem seus projetos de vida antes mesmo de terem completado sua formação. Têm de abandonar a escola, os sonhos, a própria infância e a possibilidade de um desenvolvimento saudável numa fase importante da vida.
São pequenas diante do desafio que é criar um filho e educá-lo, e ainda por cima submetem-se a um risco para o qual ainda não estão preparadas. A grávida adolescente, até os 16 anos, está mais sujeita à eclâmpsia, anemia, desproporção cefalopélvica, hemorragia, parto difícil e prolongado, enfim, à morte materna. O risco da gravidez precoce estende-se ao bebê, comprovadamente sujeito a maior incidência de baixo peso ao nascer, maior índice de prematuridade e mortalidade infantil mais elevada.”
Ditas pelo próprio ministro, as palavras acima realmente merecem uma ampla reflexão. E merecem mais ainda, não apenas da Xuxa, mas de todos os que têm a responsabilidade de formar conceitos e opiniões a reavaliarem o que andam transmitindo aos jovens. O sexo só deve ser praticado no momento certo e com responsabilidades, e uma menina ou um menino de 14 anos seguramente não têm maturidade para perceber realisticamente a pequena tragédia que é gerir um filho nesta fase da vida.
Talvez seja o caso de se apelar aos apresentadores de televisão de nosso país: pensem em seus próprios filhos, senhores! O dinheiro somente, em nenhuma hipótese, os contemplará com a verdadeira felicidade. Os valores morais, com o fortalecimento do referencial familiar, sim, com certeza.
Publicado em outubro/1999

Uma das atrações da Festa de Bom Jesus do Norte realizada em fins de abril foi a exposição de veículos antigos, que despertou admiração em contemplantes de todas as idades. Os aficionados se deleitaram com raridades como o Ford 1928, Chevrolet Bel Air 1955 e Impala 1963; Pick-ups Ford 1960 e Chevrolet 1948; Ford Maverick, Rural Willys, Karman Ghia, Jeeps e, claro, Fuscas. Um dos Fuscas roubou a cena: todo cor-de-rosa, exuberantemente pink, inclusive as rodas, o veiculo ano 1972, dos supermercados MR (que seria sorteado dias depois entre os clientes) atraía gente de todas as idades, em especial as crianças. Câmeras digitais em profusão eram direcionadas a ele a todo instante.
Ford 1928
O bom-jesuense-do-norte, Jorge Jabor, proprietário da Pick-up Chevrolet verde, com para-lamas pretos, ano 1948, disse que seu falecido pai a adquiriu em 31/3/1964: “Eu cresci dentro dela e me apaixonei por ela”, declara Jabor, que é associado ao clube de veículos antigos Rio/Minas: “gasto muito com esta paixão. De janeiro para cá foram R$ 5 mil”, acrescenta Jabor, que afirma ter recusado uma oferta de R$ 40 mil pelo seu xodó.
Dinheiro é o que menos conta, pois segundo os proprietários dos carros, paixão não tem preço. É o que pensa o campista Luiz Claudio Barbosa Rangel, dono de um Ford Maverick laranja, com detalhes em preto, ano 1974: “peguei-o totalmente desmanchado e o reformei todinho, com a pintura planejada por mim mesmo. A forração é em couro bordado com a marca Maverick. Gastei R$ 12 mil”, explica.
Oito Jeeps vieram de Castelo/ES, e entre os jeepeiros, Jovino Rodrigues Filho, presidente do Jeep Clube de Castelo. Ele explica que além da satisfação com o esporte (passeio e trilhas regularmente realizados) o clube tem também uma função social, filantrópica, como arrecadação de alimentos em eventos que promove. “Quando chove os participantes unem o útil ao agradável. A gente reúne o pessoal, escolhe um lugar e a adrenalina corre solta. Quando há problemas de cheias, de enchentes, a gente vai nos lugares mais remotos onde veículos comuns não chegam para resgatar as pessoas”, conta Jovino.
Publicado em maio/2007