Aqui eu guardo meus escritos.

Obrigado pela visita.

Deu a lógica

O resultado do affair “cassação do prefeito de Bom Jesus/RJ Miguel Motta”, que se mantém incólume no cargo não surpreendeu. Aliás, deve-se ressaltar a coerência dos vereadores que votaram em seu favor, porque sempre estiveram ao lado do governo (exceto Bill Carlos Manhães, um ex-oposicionista que só recentemente se converteu) e não fizeram como os ratos, os primeiros a abandonarem o navio assim que começa a fazer água.

À parte as discussões técnico/jurídicas sobre o relatório produzido pela Comissão Especial de Inquérito, relatada pelo vereador Samuel Júnior, pareceu que a oposição, ainda que em minoria, deu mole. A começar, entre outras atitudes típicas do mais ingênuo amadorismo, por uma certa ansiedade, um açodamento em produzir fatos que justamente pelo pouco tempo de investigação não se mostraram com a consistência necessária para produzirem um desfecho radical como a cassação.

Nunca se viu no Brasil uma investigação em nível parlamentar que tenha começado praticamente em dezembro (um mês não muito propício a trabalho), e já no começo de março, ainda com a ressaca do recesso, desponte rijo como o cano de um rifle presumindo credibilidade de mira capaz de tamanha carnificina!

Publicado em fevereiro/2005

Bonjesino e a terceira ponte

— Chefiaaaaaa…

Oh, não. Bonjesino na área!

— Espera aí, homem de Deus, preciso te falar — gritou ao longe, esbaforido, o ciclope ingênuo e de boa-fé que morre se for preciso para defender os políticos da terrinha. Adiei o ato de me aboletar na moto e me preparei fisicamente para o abraço de paquiderme e, psicologicamente, para ouvir a saraivada de enaltecimentos às (ir)realizações nas duas cidades de Bom Jesus.

— Há quanto tempo, chefia — veio se aproximando com os braços estendidos para o imperecível abraço (ou melhor, tentativa de assassinato por constrição). — Reconheci de longe a pouca bunda, completou.

— Hein?

— Estava saindo do mercado pensando justamente em você, chefia, quando… olha a coincidência… vejo a tábua em forma de gente.

— Tábua?

— É com o que você se parece, olhando assim de costas.

— Para de sacanagem, Bonjesino. E já que repara minha carência glútea, fique sabendo que a sua é feia de doer, por motivos opostos. Parece vestir antena parabólica em vez de cuecas. Eu não carrego tanto peso, provoquei.

— E o nosso Mengão, chefia?

— Nada a declarar.

— Calma, calma, vamos ganhar o Brasileirão.

— Da série B de 2013…, é provável. E entra logo na política, que é o que te traz até mim, se bem te conheço de velhos carnavais.

— Soube da terceira ponte?

— Ouviu o discurso do governador fluminense Sérgio Cabral, não é?

— Sério, chefia. Vai sair. Viu a sinceridade do homem quando prometeu?

— Sinceridade… As palavras que saem daquela boca não correspondem às ideias. Ele se referiu, me pareceu, a alguma ponte sobre o Rio Sena, talvez uma semelhante à Alexandre III, de Paris.

— O que está falando, homem de pouca fé?

— Acho que ele quer ser prefeito da Cidade-Luz. Viaja frequentemente para a França, e sempre muito bem acompanhado com alguns dos maiores PIB´s brasileiros.

— ???

— Não dá para entender mesmo, Bonjesino. É surreal.

— Não sei do que está falando, chefia. Mas te conheço. Lembra que também não acreditava na passarela?

Lembrei. Em várias conversas com Bonjesino, entre 1996/1999, ele batia sempre na mesma tecla da passarela, necessidade secular há apenas 12 anos materializada. Em seus devaneios, o homenzarrão chegou a descrever antecipadamente a entrada triunfal da então prefeita de Bom Jesus do Norte, Daisy Batista, ao encontro do então prefeito de Bom Jesus do Itabapoana, Carlos Garcia, que se confraternizariam (como de fato se confraternizaram) no meio da passarela balouçante de ferro que custara estonteantes CR$ 80 mil, quantia dividida entre as duas prefeituras

— Passarela é uma coisa; ponte…

— Anote aí, seu escrevedorzinho malévolo, Bonjesino me interrompeu bruscamente. — Nossas autoridades de ambos os lados só pensam nisso, trabalham incessantemente, u-ni-dos — acentuou a forte parceria e mútuo entendimento (essa é muito boa!)

— Não me diga! Quer dizer que até as autoridades não se conformam com o caos em que já está se transformando nossa valente ponte inglesa velha de guerra, feita mais para tráfego de carroças do século 19 e hoje suporta bólidos equipados com GPS´s?

— Claro. Sempre trabalharam para isso.

— Realmente, Bonjesino. Depois de um trabalho intenso, quase asfixiante, pelo qual lograram deixar nossa saúde pública tão boa quanto a da Islândia; nossa educação qualitativamente igual à dos finlandeses; nossas ruas e avenidas capazes de fazer corar os príncipes de Mônaco, só falta realmente desafogarem o trânsito.

— Lá vem ironia.

— Levantei a mão espalmada impedindo que me interrompesse novamente. Continuei: — Nossas ruas e avenidas, especialmente as de Bom Jesus do Norte, estão lindíssimas, bem conservadas, isentas de buracos e fissuras, dotadas de magníficos projetos paisagísticos. Esse delicioso aspecto visual e operacional, inesquecível para os visitantes, bem merece ser completado com uma ponte novinha em folha, com acabamento em mármore de Carrara.

— Basta! — Trovejou o gigante. — Sabe qual será o seu castigo, chefia? Noticiar a inauguração.

— Pra rimar: nesta ou noutra encarnação? — falei e zarpei num átimo, sem esperar a gota d´água transbordar o poço de indignação do gigântico amigo. Tenho horror a escândalos!

Publicado em maio/2012

Pra não dizer que não falei de flores

A reportagem que fiz em fevereiro último abordando o terrível drama da menina bom-jesuense-do-norte, Luma Grazieli, de nove anos — gravíssimo acidente — redundou em extraordinária manifestação de calor humano a que pude vivenciar nestes meus quase 52 anos de vida em nossas paragens. A exaltação coletiva de amor ao próximo, a solidariedade dos corações generosos foi deveras comovente, consolidando em minha alma a percepção de que nós brasileiros somos mesmo um povo solícito, sensível, capaz de dividir o sofrimento alheio mesmo em meio aos ásperos problemas da vida, na crispação de dias de luta árdua e de angústia cotidianas.

A emoção dobrou e venceu quantos conheceram detalhadamente a sentença cruel (paraplegia) dada à criança no alvorecer de sua vida. Somente muita fé impede confrontar o senso de justiça divina, cujas razões tiveram o agravo da manutenção de parte da consciência da garotinha; parece entender o que se passa com ela. Essa consciência, entretanto, tem o seu lado bom, e aí talvez seja a coberta conforme o frio que, dizem, Deus sempre dá. O coraçãozinho da Luma recebe doses transbordantes de afeto, de carinho, de amor, e por certo ela pode perceber e desfrutar disso. Qual não deve ser sua íntima alegria com tantos papais e mamães, e titias e titios, e vovôs e vovós, e irmãos e irmãs que ganhou repentinamente!

Quando o jornal evaporou nem bem começou a ser distribuído, eu sabia que algo espetacular ocorreria, mas confesso ter me surpreendido com a magnificência da reação das pessoas. Não vem ao caso enumerar benefícios materiais profusos que Luma ganhou para sua recuperação. Os princípios que levaram a eles, sim, são prazerosos de comentar. Creiam que aprendi ao longo de minha luta com estas teclas que não se fortalece a verdade com o exagero, mas a mobilização das pessoas em prol de Luma foi e está sendo inesquecível. Eu disse a seus pais, depois dessa maravilhosa manifestação de apreço e solidariedade, que o bom-jesuense, o calçadense, o apiacaense e gente até de outras plagas haverão de receber as palavras de gratidão, um dia, da boca da própria Luma. E ela haverá de lhes dizer do mesmo sentimento que enchem os corações dos seus pais: vale a pena viver quando se tem amigos assim!

Publicado em março/2006

A triste história de Luma. Drama de criança bom-jesuense-do-norte comove e põe à prova senso de solidariedade

Luma Grazieli, aos 8. No detalhe, as consequências do acidente

 

Ela era alegre, perfeitamente igual a toda criança saudável de sua idade; brincava, estudava, vivia a curta existência na gostosa fantasia das crianças e dos pré-adolescentes, para quem o mundo não passa de um gigantesco parque de diversões. Até que desígnios superiores interromperam de maneira cruel essa trajetória de encantamento e deliciosas descobertas que a menina ia conhecendo pouco a pouco, ora nos tenros nove anos de idade (nascida em 11/7/96). A fatalidade de um acidente de carro, quando Luma Grazieli voltava da visita que fizera à avó, em Itaperuna, juntamente com os pais Luciano Machado, 40 e Helena, 49, mais o amigo Antônio Félix, 46 — que conduzia o automóvel e morreu instantaneamente — em junho do ano passado, lhe impôs a triste sina da paraplegia, com a agravante, é duro dizer, de lhe ter preservado parte da consciência.

Observa-se que a criança compreende a nova e brutal realidade, e o terrível conflito certamente travado seu íntimo, a desesperadora luta entre a mente que ordena e o corpo que não obedece ao desfrute de um mundo até bem pouco tempo repleto de atrativos e doces perspectivas, é de dilacerar os corações! Não por acaso este jornalista, que a tarimba natural de avançados anos de profissão lhe desautoriza intensos envolvimentos emocionais com os fatos que retrata, não saiu incólume do caudal de aflições que passou a jorrar em cascatas naquela casa 455 da Rua Carlos Firmo, antes tão alegre e descontraída graças principalmente à expansividade de Luma. Lágrimas teimosas e embargos na garganta dificultavam a tarefa de escrever.

Apego
Lágrimas, aliás, são os elementos que não mais abandonaram Luciano e Helena desde o infausto dia. Em permanente estarrecimento, num pesadelo que provavelmente os acompanhará por toda a existência, estes pais choram convulsivamente dia e noite. Luciano conta que a menina era muito apegada a ele. “Onde eu ia ela queria ir junto. Às vezes tinha de dribrá-la mas, muito esperta, Luma descobria o engodo rapidamente.” Este agora doloroso apego continua. “A Luma só aceita a mim para dar água e comida. Recusa ser alimentada mesmo pela mãe. Precisando trabalhar, até consegui uma pessoa, na esperança de que pudesse me substituir, enquanto procurava ocupação. Mas quando eu chegava, me falavam: ´a Luma não quis comer nada.´ Aí eu tomava um banho e dizia: ´deixa comigo´. Pegava a sopinha e só então a menina aceitava”, explicou Luciano. E desabou: “sinto tanta falta dela”, mas em seguida se corrige, balbuciando entre soluços incontroláveis: “mas ela está aqui comigo. Isso é o que importa, seja como for.” A mãe acrescentou: “só ele põe comida na boquinha dela. Se ele falar para ela que vai ali e já volta, ela começa a chorar”, contou Helena, igualmente consternada.

Dor

Com perda de massa encefálica resultando uma cavidade tão profunda que obrigou os médicos a preenchê-la com uma bolsa d’água para remediar a estética do crânio, exatos três meses e 20 dias Luma passou internada no Hospital São José do Avahy, em Itaperuna. “Pai, sinto dizer, mas a Medicina não pode fazer nada mais por sua filha”, sentenciou o médico. Os pais, profundamente agradecidos pelo bom atendimento, pelo carinho e atenção dos profissionais, afirmaram não terem a menor dúvida de que os médicos fizeram todo o possível: “mas foi doloroso demais receber aquela notícia, está sendo muito difícil aceitar essa provação”, disse Luciano, apegando-se unicamente ao velho axioma do “enquanto há vida, há esperança”.

Essa esperança, derradeiro alento do casal além das emocionantes recordações da filha saudável, é agora o combustível de suas vidas. Já em casa procuraram o apoio da APAE, prontamente disponibilizado. Porém, percebendo o comportamento arredio da filha na instituição, entenderam que a repentina incapacitação da menina, diferente da maioria das demais crianças acabava por agravar seu estado emocional quando se juntava a estas, mais acostumadas e conformadas com suas respectivas diferenças. Daí resolveram prescindir ao menos temporariamente dos serviços reconhecidamente eficazes da APAE. “Minha filha ainda vive duas vidas. Em contato com as outras crianças, ela se enervava, chorava muito”, afirmou Luciano

Helena e Luciano junto à filha

Auxílio
O transtorno natural que fatos assim acarretariam a qualquer lar é particularmente devastador para Luciano e Helena. Desempregados (ela vendia roupas de porta em porta; ele exercia ofícios de pintor, pedreiro e assemelhados) e sem condições para conciliarem os cuidados exigidos pela condição da filha simultaneamente a qualquer atividade laboral, as carências se acumulam, em especial alimentação adequada e recursos para contas de água e luz. Até ordens de despejo da casa alugada eles receberam, só não concretizado porque uma pessoa caridosa quitara os débitos acumulados desde a tragédia. Cestas básicas foram doados por outras instituições, pessoas individuais ou em grupos, entre elas duas igrejas evangélicas, serventuários da Justiça, médicos, entre outras.

A prefeitura de Bom Jesus do Norte também foi acionada para fornecer os variados medicamentos, serviços de fisioterapia e outras necessidades, entre elas uma cadeira de rodas especial (custo em torno dos R$ 3 mil), bem como um aparelho ortopédico (aproximadamente R$ 600) cuja serventia é atuar como uma espécie de barreira contra a progressão da atrofia nos membros inferiores. Luciano diz que a cadeira será a nova vida de Luma. Adaptável às necessidades de postura da menina, prescritas pelos médicos e fisioterapeutas, Luma ganhará mobilidade e a chance de variar a cama tediosa, que só com muito cuidado não produz as dolorosas escaras.

Os pais, todavia, demonstraram à reportagem certa preocupação pelos trâmites burocráticos, certamente pela ânsia de quererem disponibilizar o melhor que puderem à filha no mais curto espaço de tempo possível, o que é perfeitamente compreensível. Qualquer pai e mãe desejariam o mesmo. A cadeira, segundo eles, tem de aguardar, pois a prefeitura alega muito gasto em dezembro com a folha de pessoal e outros compromissos. Mas segundo fontes da Secretaria de Ação Social, agora em fevereiro a menina receberá o equipamento, encomendado de uma empresa de Goiás.

Outro ponto controverso foi a questão dos medicamentos: os pais disseram estar comprando fiado na farmácia, mas a Secretaria de Saúde informa que vários medicamentos estão sendo fornecidos a eles pela farmácia básica. O Secretário de Saúde, Ademir Pimentel, disse que todos os medicamentos que a criança necessitar serão integralmente fornecidos. “Se eventualmente não tivermos algum em estoque, será imediatamente encomendado.” O secretário acrescentou que o aparelho ortopédico também será providenciado, bastando aos pais apresentarem a prescrição médica.

Fisioterapia é outra questão polêmica. Luciano manifestou preocupação quanto ao período de tempo que a filha recebe o tratamento pelo profissional do Programa Saúde da Família, serviço prestado em domicílio pela prefeitura. Ele explica que Luma fica aos cuidados do profissional cerca de 10, 15 minutos, o que para ele, pai, parece pouco tempo. Nesse aspecto, inclusive, uma outra profissional foi contratada por alguns servidores do Fórum, que vêm auxiliando a família. Esta profissional, por sua vez, no intuito de ajudar, aceitou a incumbência em troca de valor quase simbólico, mesmo assim revertido para os próprios pais da criança. O secretário de Saúde, no entanto, disse não ter conhecimento de qualquer problema envolvendo a Fisioterapia do Programa Saúde da Família. “Se estiver ocorrendo algum fato anormal, os pais devem acionar a Secretaria. Tudo o que estiver ao alcance do PSF será disponibilizado, inclusive mais tempo de tratamento se for prescrito pelos médicos”, declarou Ademir. O secretário só lamenta que outros tipos de fisioterapia mais especializados que Luma necessita — como por exemplo a da face e a reabilitação neurológica — não são disponibilizadas pelo PSF.

Dar água a Luma requer o uso de seringa e massagem maxilar

Um dia terrível!
Domingo, 19/6/05. Luciano e Helena resolvem visitar a mãe dele, residente em Itaperuna, e levaram a filha para ver a avó. Foram no VW Gol do amigo Antônio Félix. Na volta, pouco antes do cruzamento que dá acesso a Bom Jesus, trafegavam num trecho sinuoso e recheado de buracos na pista quando um caminhão colheu lateralmente o Gol, que trafegando a 100 km/h. Luciano conta que o motorista do caminhão teria dito à perícia ter tentado desviar de um buraco e não conseguira, relatando que até o volante do caminhão teria soltado de suas mãos. O condutor do Gol tentara desviar, mas teve morte instantânea. Luciano sofreu forte trauma no braço direito, tendo de colocar platina que impede movimentá-lo plenamente, e Helena, uma leve escoriação no joelho. Luma viajava atrás do motorista e teria sido arremessada para fora.

A família apela a todos os que de alguma forma possam ajudar, aos profissionais de saúde (principalmente das fisioterapias especiais) que se disponham a doar um pouco de sua técnica. “Estamos realmente precisando. Nossa vida pelo menos por enquanto é toda dedicada à Luma. Não temos vergonha em lançar este apelo. Precisamos de quase tudo: fraldas descartáveis tamanho M, remédios, recursos para mantermos os compromissos com alimentação, aluguel, contas de água e luz, fisioterapias e tratamentos especiais”, afirmou o pai, que disse abrir suas portas a todos os que desejarem conhecer de perto a situação dramática em que passaram a viver.

No sábado, véspera do acidente, Luma desenhou e dedicou as garatujas aos pais, que mantêm o desenho na porta do quarto da filha

A menina precisa tanto dos pais ao redor que o simples ato de dar água requer o uso de seringa e massagem no maxilar simultaneamente à injeção do líquido, para ela poder engolir. Para o banho, que o verão exige pelo menos dois por dia, às vezes até mais, é necessária a presença de ambos, já que, mesmo magrinha trata-se de uma criança de 9 anos, cuja movimentação tem de ser suave, feita com máximo cuidado.

Imitação da arte
Dizem que a vida imita a arte. Luciano, que não é íntimo das letras, me disse, entre lágrimas: “Se eu pudesse estar no lugar de minha filha e ela no meu, ah…, como eu seria feliz!” Essa manifestação lembrou o poeta Afonso Celso, que num dos quartetos do seu soneto “Anjo Enfermo”, escreveu assim: “o melindroso ser, ó filha minha/ Se os céus ouvissem a paterna prece/ E a mim o teu sofrer passar, pudesse/, Gozo me fora a dor que te espezinha.”

Publicado em fevereiro/2006 

Expulso das casas populares, Bonjesino elogia os políticos

— É chefia, viver de aluguel não é fácil, disse-me dia destes bonjesino, o amigo que já apresentei a vocês, o homem mais ingênuo na face da Terra, de boa índole, cuja crença nos políticos é diretamente proporcional ao seu corpanzil de paquiderme.

— Ahn?

— Eu disse que viver de aluguel não é bolinho não. Todo mês, chefia, separo RS 150 pra dona do muquifo. Mas vou sair de lá.

— Vai?

— Vou ganhar uma casa, exclamou o gigante, todo sorridente.

— A que te prometeram há 20 anos?

— Epa. Notei um tom irônico na sua voz, chefia. Não comece com as críticas, advertiu-me. E continuou: — aquela mesma. Não esquento a cabeça com a demora, porque sei que nossas autoridades públicas fazem de tudo pelo povo, se sacrificam por nós, coitadas. E se não me conseguiram uma casa até agora foi porque tiveram coisas mais relevantes a fazer em benefício da população e não sobrou dinheiro.

— Agora vai?, perguntei, tentando disfarçar a ironia.

— Anham. Agora não há dúvida. Eu até já tinha tomado posse da minha bela casa, lá pros arrabaldes na saída para o Barra Alegre, em Bom Jesus do Norte, pertinho do Pinicão da Cesan.

— Vamos por partes, interrompi. — 1) Pertinho do Pinicão com aquele odor agradabilíssimo que impregna corpo e alma, dia e noite, sete dias por semana? 2) Bela casa? 3) Não errou o tempo verbal “tinha tomado posse?”

Senti Bonjesino crispar-se, os olhos soltando centelhas de indignação, e antes de lançar pacotes de ofensas ao meu senso crítico balancei as mãos como a pedir um armistício antecipado, o aborto das nascedouras hostilidades, emendando: — Apenas responda.

Ele me encarou com desdém, e olhando para cima com a cara e os olhos enviesados, mentalizando pedido ao Pai para perdoar meus pecados, explicou com voz mansa, em tom professoral:

— Quando construíram o Pinicão no ano da graça de Nosso Senhor de 2000, chefia, disseram que o fedor ia durar uns três anos. Só porque até hoje a catinguinha persiste, já vem querer criticar? Você é capaz até de achar que a Cesan e a prefeitura pouco se lixaram para esse povaréu que vive ao redor do Pinicão, e disseram três anos só pra engambelar. Deu um respiro e continuou: — Nada disso. Apenas está demorando um pouquinho mais, homem impaciente e sem fé.

Julguei prudente me conter. Calei minha opinião de que aquilo vai feder por todo o sempre. Apenas o instiguei às demais respostas.

— Faltam a 2 e a 3.

— Bela casa, sim senhor — disse o colosso. — Espaçosa, arejada, bom acabamento. Tem até emboço. Quarto e sala, mas suficientes para mim, a patroa e os quatro filhos. É só arrastar, à noite, a mesa da cozinha pra fora, que dá pra todo mundo dormir esticado. E a parte três é que nos expulsaram.

— Expulsaram?

— Com Batalhão de Choque, cassetetes e tudo o mais.

— Como assim?

— Culpa nossa, chefia. Essa mania que temos de querer deixar de viver de aluguel a todo o custo.

— Continue…, demonstrei na voz ansiosa minha curiosidade.

— As casas estavam lá, só faltando dizer entrem. Então fizemos a vontade delas.

— Entraram à revelia…

— Entramos. Não tinha luz, nem água, nem nada. Mas viver…

— De aluguel?

— Não interrompe, chefia.

— Vá ao ponto Bonjesino. E não diga mais “viver de aluguel”. Quem faz isso são donos de imóveis. Diga viver pagando aluguel, ou viver para pagar aluguel.

— Você entendeu direito. Mania de ficar corrigindo os outros. Como eu ia dizendo, viver…, digo, pagar aluguel é uma tristeza. E muitos dos invasores nem aluguel podiam pagar. Ficavam de favor lá e cá, sem terem seu cantinho. Então, já viu, né? As casinhas para nós eram palácios.

— Mas não se pode desrespeitar as leis, e invasão é crime, ponderei.

— Somos uns desgraçados criminosos. Merecemos apodrecer na cadeia. Estou tão arrependido…, resmungou, fungando.

— Que é isso, Bonjesino? Também não é para dramatízar tanto…

— Quando penso que desapontei nossas autoridades, esses homens e mulheres que vivem dia e noite pensando apenas trabalhar por nós, pelo nosso bem-estar… Sinto-me desfalecer.

— Bobagem. O que eles têm de fazer é resolver o problema.

— Ah, mas vão. Não tenho a menor dúvida.

— Você disse burocracia, Bonjesino?

— Licença ambiental. As casas foram construídas sem licença.

— Como pode?

— É que estavam tão ansiosos para cuidar bem da população carente, que resolveram fazer as casas depressinha.

— E o que você pensa das autoridades que os tiraram de lá?

— Mais do que certas. Têm de fazer cumprir a lei.

— E das que fizeram as casas no vai-da-valsa?

— Também corretíssimas. Estavam querendo suprir as necessidades dos pobres, que muitas vezes não podem esperar tanto tempo por essa tal de licença.

— Então?

— Não já te disse, chefia, que os culpados somos nós? Vamos aguardar até quando Deus quiser. Eu mesmo, se esperei 20 anos, que custa esperar mais 20? Nossas autoridades sabem o que é melhor para nós.

Despedi-me do ciclope pensando cá com meus botões: fazer sem licença e retirar à força são atitudes igualmente censuráveis porque representam extremos. Por um lado, de inconsequência; por outro, de truculência. Pior para Bonjesino é que ambos os atores têm fortes argumentações para justificarem seus atos.

Moral da história: Bonjesino é que errou feio por ser tão impulsivo na busca febril de amenizar suas carências, sujeito pretensioso! Que seria dos que vivem de aluguel se não houvesse os que vivem de pagar?

Publicado em outubro/2010