Aqui eu guardo meus escritos.
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Diz-se que avôs e avós são mais corujas que os pais. Vejo por aí uma plêiade de vovôs e vovós compondo regularmente panegíricos aos netos e netas, extasiados com a doçura dos pequerruchos, cheios de amor e de desvelo. Também sou avô, do Lucas, que hoje tem 12 anos. Não lhe dediquei nenhum texto laudatório, entretanto, porque não me ocorreu pontuar meu afeto por ele também dessa maneira. E como nessa idade ele certamente não iria gostar de babação de avô, faço-o com Ana Lara, que não é minha neta, mas considero como se fosse. E duvido que haja avô de verdade mais babão que este avô postiço.
Larinha é irmã materna do meu filho caçula Gabriel, filha de minha ex, Silvana. Uma doçura de criança em todos os sentidos. Não tem preconceito a colos, é simpática com todo mundo e, aonde vai, logo se adapta, arrebatando os corações de tantos quantos interagem com ela. Aos dois anos ainda não articula direito as frases, mas é delicioso conversar com ela, que repete como um gravador automático.
— O gatinho branco está debaixo da cama — falo. E ela responde no seu idioma próprio, que não sei reproduzir direito, cravando nos meus aqueles olhos fascinantes, de um azul ultramarino:
— Gatin banco basso da cama? Ou então, — o gatin peúdo (peludo); — a bola maela (amarela); — a tia ´tuli´ (Suely), etc.
Que a pequena Lara seja feliz em todos os momentos de sua existência, com a divindade lhe suavizando os espinhos da vida. Que seja uma criança livre, bem orientada, respeitada, gozando de uma infância plena de encantamentos; que seja uma adolescente inteligente e de mente sã; uma adulta realizada e feliz. As pequenas e esporádicas frações de tempo que eventualmente desfruto com Larinha (ela mora com a mãe em outro estado) são momentos deliciosos. Até bom, talvez, que as oportunidades sejam mesmo escassas, porque dizem que tudo em exagero faz mal. Assim, ela se livra de um chato quase sexagenário a lhe torrar a paciência, e eu me arrisco menos a ter um piripaque por excesso de ternura e de carinho.
Publicado em julho/2013

O cartunista Nani evoca a baderna que persiste na cidade do Rio de Janeiro por bandidos infiltrados nas merecidas manifestações contra o governador Sérgio Cabral. A polícia não sabe se age com o rigor que é necessário, caindo nas bocas de matilde de certos setores da imprensa e dos defensores dos coitadinhos depredadores e ladrões, ou não agir de nenhuma maneira (e aí também cair nas mesmas bocas de matilde que a acusam de inércia e pusilanimidade). Na charge, a PM está em ação, mas não precisava exagerar ao descer o cacete num religioso que está balançando o seu turíbulo, confundindo o objeto que libera fumaça com um coquetel molotov.
Coquetéis molotov são bombas incendiárias de fabricação caseira, feitas geralmente com uma garrafa cheia de gasolina ou outros produtos inflamáveis, com um pavio. Eles existem desde que foi descoberta a gasolina, mas o nome surgiu na Segunda Guerra Mundial. Soldados da extinta União Soviética (hoje Rússia) usavam esse tipo de arma improvisada para atacar soldados alemães. Algum deles deve ter pensado em batizar o artefato, então resolveram homenagear o então ministro das Relações Exteriores do seu país, Vyacheslav Mikhailovich Molotov (1890-1986).
Já turíbulo teria surgido depois do século IV, quando a tradição cristã adotou o incenso em seus rituais de consagração, e ainda hoje o queima para honrar o altar, as relíquias, os objetos sagrados, os sacerdotes e os próprios fiéis, e para propiciar a subida ao céu das almas dos falecidos no momento das cerimônias fúnebres.
Publicado em julho/2013

Um vídeo de arrepiar, de contrair todas as fibras de um ser humano que possua um mínimo de sensibilidade e uma gota de senso de solidariedade roda por aí nas redes sociais. O pai, estuporado, assombrado, desesperado; a mãe, convulsionada pela loucura. Ambos se abstraem da realidade, maneira única e instintiva de preservação, creio mesmo, das próprias vidas. Ela, chorando toda sua dor e mágoa, misturando oração e uivos lancinantes; ele, suplicando a Deus, acreditando que Ele ressuscitará a filha amada. Ao mesmo tempo amaldiçoa os políticos, e a balbúrdia de vocações aos céus, entremeadas com as pragas rogadas aos políticos infernais deste outrora sublime, ora nauseabundo Estado Brasileiro, é algo incrivelmente tocante, que decompõe as carrapetas mais resistentes para liberar uma aluvião de lágrimas. São cenas dantescas, chocantes, comoventes, de um dramatismo que o mais delirante autor ficcional é incapaz de produzir. Não há adjetivo nos dicionários que possam exprimir na plenitude o sentimento resultante da dor, misturada com raiva, com sede de vingança, com decepção, desesperança, fatalismo. Uma tragédia para além da exaltação criativa de Shakespeare!
Não tenho informações oficiais, tudo o que descobri foi lendo comentários de internautas sobre o episódio. Uma menina baiana que contrai o vírus da AIDS aos três anos de idade, em 1998, por um terrível erro do hospital que utilizou sangue contaminado numa transfusão; a sentença que condenou o hospital, mas o hospital que vem protelando o pagamento através de recursos, de firulas jurídicas interpostas numa Justiça lenta como cágado, culminando com a jovem morrendo sem ter visto a cor de um centavo sequer; e a própria morte da menina, que se tinha três anos em 1998, teria no máximo 18, isto é, na flor da idade. Sonhos, projetos de vida, tudo ruiu numa maca à espera de vaga numa UTI, que desgraçadamente não há porque… Não vou falar porque conseguiria exprimir adequadamente o que penso.
Não estou aqui a defender governos, sejam que diabo forem, e na verdade gostaria que toda essa gente infernal, com plumas, com estrelas, à esquerda ou à direita, no centro ou nas diagonais fosse para o diabo que as carregue. Enquanto o cidadão e a cidadã brasileiros não exigirem uma ampla, profunda reforma política, pouco irá mudar, seja Zé, João ou Chico o monarca de plantão. Mas raciocino com certa lógica, e ela aponta os responsáveis da hora a infelicitar mais os brasileiros, que desde 2003 (absolva-me, papa Francisco. Também dei um voto em 2002 àquele farsante, embora já no início de 2003 percebi a grande cagada que fiz) só o que fazem é ganhar eleições e subir nos palanques; subir nos palanques, ganhar eleições, que este negócio de governar não tá com nada, é conservadorismo, e o governo é “pogressista.”
Marketing, dissolução dos bons costumes, mentira, empulhação, roubalheira, ludibrio da boa-fé dos ignaros, a massa que os elege, é tudo o que fazem. Já nem digo educar o povo, porque é na ignorância que reside a galinha dos ovos de ouro dessa ralé. Mas ela, a ralé, é tão estúpida que vai matando até mesmo literalmente suas vítimas, vai roubando inclusive o bem mais precioso de um cidadão, de uma cidadã, que são os próprios filhos. Falo de lógica e exemplifico: aqui em Bom Jesus mesmo, há cerca de 10, 11 anos, tínhamos três hospitais de boa qualidade (Hospital Jamile Said Salim, em Bom Jesus do Norte/ES; Casa de Saúde Aurora Avelino e Hospital São Vicente de Paulo, em Bom Jesus/RJ). Hoje, temos meio, a metade de um. E este só não capitulou definitivamente devido às boas almas que o mantém na base das doações e de abnegados que tentam a todo o custo impedi-lo de fenecer. Falo do São Vicente, que sequer uma cirurgia de média complexidade pode realizar porque está com a UTI e o Banco de Sangue fechados há três ou quatro anos!
Leitor, leitora. Proponho-lhes lutar. Aproveitando o termo do momento, precisamos implementar uma jornada do esclarecimento. Com paciência e altas doses de didatismo, fazermos com que nossos conhecidos que tenham menor nível de informação entendam que estão alimentando o próprio verdugo. Tentem ajudá-los a mudarem os conceitos, a firmarem novas convicções. Está claro que precisamos derrubar esse governo, mas não simplesmente colocarmos outro diferente no lugar e tudo bem. Esse outro terá de entrar temendo a massa, comprometendo-se a revolucionar o sistema, sob pena de os retirarmos antes da hora com uma barulheira infernal nas ruas, nas redes, nas instituições. Não dá mais, gente, suportarmos tanto escárnio.
Só quem é pai e mãe pode aferir, mesmo assim superficialmente, se não passou pela tragédia, quão dilacerante é a dor da perda de um filho na mais tenra idade!
“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!…”
Somos os astros, as noites, as tempestades, os tufões que Castro Alves tão bem evocou.
Publicado em julho/2013

Claro que a presidente Dilma não leu o post deste escriba interiorano, no qual eu a aconselhava a dar uma guinada de 360 graus em sua gestão começando por abolir a besteira de fazer questão de ser chamada presidenta, com “a” de azar. Eu dizia também que ela deveria dar uma guinada de 360 graus na sua política de coalizão, romper as amarras da ortodoxia, do status quo reinante, única forma de poder continuar governando de verdade, e quem sabe até recuperar um pouco a popularidade varrida no turbilhão das manifestações (aqui).
Pena. Vai continuar a fazer a festa de chargistas e brincalhões da rede. Pior: continuará amarrada na boca do sapo da politicalha que oprime os brasileiros e inferniza o Brasil.
Publicado em julho/2003

Senhora presidente Dilma Roussef:
Pra começar, acabe com essa bobagem de fazer questão de ser chamada presidenta. Por certo V.Excia. não denomina as jovens como adolescentas, nem gostaria se alguém afirmasse que a sra. é eleganta (elegante é, sem dúvida), ex-gerenta das Minas e Energia, que foi pacienta do Sirio-Libanês; que deve ter sido boa estudanta, e é nossa mais importanta representanta a lutar pelos brasileiros de forma ardenta (certo estou do contrário, mas leia este texto até o fim que a sra. pode mudar tal impressão).
Soa feio, Sra. presidente, o que ajuda a piorar a percepção de ruindade do seu governo. Pior: alguns especialistas em português afirmam ser ortograficamente errado. Eu lhe proponho uma coisiquinha de nada, mas que vai deixar a Sra. orgulhosa e sorridenta…, ops…, sorridente, podendo mesmo ganhar algum Nobel, e quem sabe até ser sacralizada pelo Vaticano, porque será um milagre para o seu povo. Seguinte: tendo a Sra. se tornado refém da politicalha salafrária, corrupta e sub-reptícia; boicotada, apunhalada pelas costas inclusive por maganos do seu próprio partido, que querem vê-la pelas costas a fim de elegerem Lula, que é na realidade a abelha-rainha (abelho-rainho…, viu como não soa bem?) dessa entourage, rompa com eles.
Isso mesmo. Os malufs, os sarneys, os renans da vida, os mensaleiros e a própria divindade deles (o nove dedos), mande-os para o diabo que os carregue. Não lhes peça mais conselhos, não lhes dê atenção, negue-lhes tudo.
— Mas aí estarei ferrada de vez, José Henrique. Eles vão dar um nó górdio na já combalida governabilidade. Vai de vez para o espaço.
Pode ser que não. Embora a Sra. não vá poder governar somente com medidas provisórias, usar inteligência, talento, capacidade de articulação com auxiliares certos nos lugares certos, a população pode se tornar o seu Congresso. Aí é que está a pedra filosofal. Transformar as manifestações de rua em um Poder Legislativo alternativo, porém com mais força e legitimidade que o convencional.
A Sra. pode conseguir tal feito, neutralizando as intercorrências políticas negativas. A acusação de que a Sra. estaria atraiçoando não só esses políticos em si, mas sobretudo os eleitores deles, seus representados, seria eficientemente contestada com o fato de que eles só representam a si próprios, usando o voto popular para satisfazer os próprios interesses. Todo mundo tá careca de saber disso. Então, a Sra. não estaria traindo ninguém. Ao contrário, estaria dando uma prova cabal de fidelidade ao seu povo.
Até fiz um texto sobre essa questão, enfocando minha região, minha cidade. Mas é preciso coragem, vontade de quebrar paradigmas, o que a Sra. pode ser que tenha. Não gaba a Sra. de ter sido combatente da revolução de 1964? De ter sido corajosa ante os verdugos calçados de coturno e vestidos de verde-oliva? De ter arrostado agentes da repressão munidos de cassetetes, correntes e maquininhas de choque elétrico? Resista de novo, Sra. presidente. Reduza os 39 ministérios para uns cinco ou seis; acabe com os cartões corporativos; renuncie à inacreditável vaidade de gastar R$ 700 mil só para beijar a mão do papa, e viagens outras de igual diapasão. Seja austera e cobre austeridade; mande concluir as obras de transposição do Rio São Francisco; sepulte a ideia do trem-bala; invista tudo o que puder na Educação e na Saúde públicas, inspecionando com microscópio eletrônico o gasto de cada centavo. Volte com as faxinas, abuse dos dedetizadores; desempaque o PAC (ops); desaloje de suas deliciosas sinecuras as sanguessugas do povo brasileiro; combata carteis e monopólios; invista na infraestrutura e otras cositas más. Ah! E antes que esqueça, dê-me algo em troca destes conselhos, algo até singelo: mande pros quintos dos infernos o malfadado e infame horário de verão!
Sra. presidente. Minhas proposições são delirantes? São. São praticamente inexequíveis? São. Estou planando por ares nunca dantes planados? Sim. Mas também, sim, milagres existem. E se a Sra. não conseguir produzir um, pode mandar emitir as passagens para aquele cruzeiro marítimo a partir de 1/1/2015, na melhor hipótese, porque a Sra. poderá até mesmo antecipar essa viagem.
Não diga que não avisei.
Publicado em junho/2013