Aqui eu guardo meus escritos.

Obrigado pela visita.

Matar não é crime

O livro didático (Por uma vida melhor) que o MEC quis empurrar goela abaixo da brasileirada estudantil assevera que falar errado é certo. Aberrações como “nós pega os peixe”, ou “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”, diz o Ministério da (des)Educação, ao acatar o livro, que é uma variante oral válida, que a pessoa que fala pode decidir usar tanto a norma culta quanto a linguagem errônea.

E eu tolamente a pensar que já tínhamos atingido o fundo do poço! Então um Ministério que devia ensinar a escrever e a falar corretamente, ensina a falar errado? Daí a ensinar a escrever também errado será um pulo, permito-me raciocinar, dados os despautérios de uma Educação que está entre as piores do mundo (88º lugar em 127, no ranking 2011 da Unesco), perdendo para “potentados” como Paraguai, Bolívia, Namíbia, Quirquistão, Moldávia, Equador, entre outros.

Para que serve a escola? Para ensinar o certo, penso eu, porque o errado as pessoas aprendem sozinhas, sendo, portanto, desnecessários educandários, MEC, professores, ministros da Educação, cadernos, gizes e lousas, num futuro talvez nem tão distante se a institucionalização da burrice não for cortada na raiz. Ao que parece o Brasil está na verdade jogando a toalha, admitindo que a causa da Educação está perdida. Parece que os burocratas do MEC estão reconhecendo sua patética incompetência para ensinar, e o pretexto usado para dizerem “ok, não podemos ensinar, tchau, passar bem” é combater uma pseudo discriminação linguística para decretar o errado como certo.

Depois poderá advir o cerco às “discriminações aritméticas”, onde 2 + 2 podem ser 5, 6, ou quanto a pessoa queira. O problema vai ser combinar com as pontes e os edifícios a aceitação dos cálculos de uma coluna de sustentação, por exemplo, mas isso o MEC poderá também decidir por decreto, ora bolas. Prevejo dias de tamanha regressão, que a frase que titula este texto não deverá ter obrigatoriamente uma vírgula após a palavra “não”, e matar realmente não será crime em nome do embate contra… — pur caus diquê não? — …a discriminação e o preconceito ao livre-arbítrio.

Publicado em junho/2011

Crescei e multiplicai-vos

O celibato não estará contrário às Escrituras?

O padre que teria caído nas tentações da carne em Bom Jesus do Itabapoana é mais um a questionar uma disciplina rígida exigida milenarmente pela Igreja Católica, que de há muito deveria ser eliminado: o celibato compulsório. É preciso lembrar que o voto de castidade a todos os eclesiásticos não é um dogma da fé católica, não está propriamente ditada pelos princípios do Cristianismo, é apenas uma norma interna, uma exigência da Igreja aos que nela queiram ingressar como sacerdotes. Na realidade o celibato, ao contrário dos que acreditam ser um costume inspirado no comportamento de Jesus Cristo, nada mais é que uma forma sutil de aproveitar todo o tempo disponível do sacerdote para o trabalho único e específico da Igreja, sem ter que o dividir com filhos, esposas e as implicações decorrentes. Tanto é que até 303 d.C. isso não era obrigatório, apesar de haver forte militância voluntária, até que o Concílio de Elvira (Espanha) recomendou o celibato como norma para os religiosos.

Não há dúvida que o assunto é uma tremenda dor de cabeça para o Vaticano. Ao sentir o avanço agressivo das religiões protestantes, com a liberalidade sendo o maior poder atrativo, a Igreja Católica vem afrouxando devagarinho seus preceitos herméticos. A exigência do celibato poderá vir a ser um deles, onde a Igreja certamente contabilizará mais lucros que prejuízos. O abuso sexual praticado por padres é uma prática que poderá vir a ser drasticamente reduzida.

O Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira faz uma análise a respeito, ressaltando que ela deve ser vista no contexto do fato em questão a fim de se evitar colocar no mesmo caldeirão todos os padres e toda a formação presbiteral. “Este fato do abuso sexual cometido por padres é antes de tudo uma denúncia grave. Certos setores da Igreja costumam acobertar fatos graves, achando que se pode tapar o sol com a peneira. Não coloco aqui em discussão a preocupação de não provocar escândalos nos fiéis ou de salvaguardar a honra e a dignidade de quem foi envolvido. Isso é necessário e compreensível. O que questiono é o fato que, mesmo internamente, com os meios disponíveis, justos e corretos, não se procure averiguar melhor o problema, deixando a coisa correr.

O que escandaliza é o pouco caso com o qual situações sérias e graves são tratadas. Com isso fica muito claro que, no fundo, o que se pretende é proteger o mais forte. Neste caso, o homem, o ´macho´, o padre. Quando freiras e mulheres são violentadas, abafa-se o caso inclusive com suborno, com promessas e até com ameaças. O caso morre ali, a vítima, muitas vezes pobre e indefesa, não tem como se defender. Com isso dá-se o caso por encerrado, não se encara de frente o problema e as coisas ficam como estão.

Não se trata, é claro, de agir com punições rigorosas, expulsões ou coisas assim. Mas de sermos menos hipócritas, mais cristãos, abordando a questão com serenidade, com seriedade, na tentativa de verificar a raiz do problema e de, sem falsos pudores, encontrarmos saídas para diminuir o sofrimento de muita gente, inclusive dos próprios padres. Cabe salientar que, mesmo se tratando somente de ´algumas situações negativas´, isso tudo tem um preço.

E o preço mais alto quem geralmente paga é a mulher, violada em sua dignidade, tratada como objeto e obrigada a permanecer no anonimato. Mesmo que tivesse sido apenas um único caso, isso já seria motivo de séria reflexão, pois uma só mulher abusada sexualmente é filha de Deus, é gente. E nada justifica tal violência”.

Publicado em dezembro/2001

Telefone ao menos uma vez…

…para 344333. Lembro-me da canção, estou ficando velho. Década de 1950/1960, na voz de Aracy de Almeida. Bons tempos, bons tempos. Rodava-se a manivela e do outro lado da linha fazia triiimmmm.

Já há quem se lembre com nostalgia da Telerj …, da Telest. Como era bom… Alimentava-se o sonho de consumo de possuir um telefone, muitos sacrificando até o frango do fim de semana para poder juntar um caminhão de dinheiro durante longos anos e … anham…!, passavam dias embevecidos a contemplar o reluzente aparelho analógico, de disco, mas que falava, ou melhor, falar mesmo, no duro, não falava, mas permitia que se conversasse à distância por seu intermédio.

Hoje os aparelhos são belíssimos, os mais modernos, o supra-sumo da tecnologia e do design, que cabem na palma da mão, e seus chips gradativamente menores e em proporção inversa cada vez mais miraculosos fazem aposentar as velhas agendas, e pelo pique da remada as nem tão obtusas secretárias eletrônicas encontrarão um fim triste e melancólico.

Aparelhinho tão popular e barato quanto um liquidificador (leio nos jornais que em algumas capitais já o distribuem gratuitamente, pagando-se apenas uma pequena taxa pela habilitação na operadora), mas o diabo é que não tem falado, ou melhor, não tem permitido que se converse por seu intermédio. Aqui na terrinha bom-jesuense observo pessoas portando garbosamente seus celulares ultramodernos com esponjas de aço (de 1001 utilidades) nas anteninhas, alguns com as faces vermelhas e as gargantas roucas de tanto gritarem na vã e desesperada tentativa de ouvirem e se fazerem entender. As reclamações são tantas que suplantam as relativas ao campeoníssimo Fernando Henrique.

Contas astronômicas constando ligações para localidades nunca antes imaginadas, linhas cruzadas, conversações bruscamente interrompidas, aparelhos que “engolem” os créditos no melhor estilo dos malandros orelhões comedores das fichas de antigamente, e o pior: ninguém se entendendo:

— O QUÊ, MULHER? F-A-L-A A-L-T-O. A galinha da vizinha? AHN? A gatinha na cozinha? Deixa pra lá. OLHA, COMPRA O PEIXE. É, P-E-I-X-E. AHNNN? PODE SER GAROUPA, NAMORADO, O QUE TIVER.

— NAO TEM NENHUM? NEM PIRARUCU? NÃO, NÃO. O QUE É ISSO?! BENHÊ, NÃO ESTOU MANDANDO VOCÊ TOMAR… NÃO AMOR, PIRARUCU. PEIXE.

Alto risco o desse casamento, assim como negócios não realizados, pessoas passando fome por não conseguirem falar com a pizzaria, namoros desfeitos e mesmo requisição de serviços essenciais como hospitais, bombeiros e polícia inteiramente prejudicados pelo “mudão” ocorrido há poucos dias quando da troca dos números de discagem. E a culpa foi nossa, lembram do que o disse o sujeito da Telemar? Não devíamos ter ido com tanta sede ao pote testar os novos números; a Ana Paula Arósio, aquela gracinha, alardeava que era para fazermos o 21 mas não entendemos direito o espírito da coisa. Não atinamos para a sutileza do anúncio, que talvez quisesse nos incentivar a não ficarmos jogando conversa fora ao telefone, mas em vez disso, inventarmos outra posição numérica para nossa melhor interação sexual, para variar um pouco dos conservadores dois números 6 (um deles, invertido).

Ou não era bem isso? Com certeza esse pessoal do 21, do 31 (171 lhes cairia melhor) não iria simplificar algo que podia complicar. Mas como se diz que em tudo há um lado bom, resolvi tirar proveito desse caos. Estou trabalhando nuns livrinhos de autoajuda que me renderão bons lucros e terão muita utilidade para os brasileiros. Ainda não decidi quais serão os títulos, mas estou pensando seriamente neste: ” Como construir seu próprio telégrafo, passo a passo”. Ou este: “Noções básicas de sinais de fumaça em dez lições”.

O problema é que não consigo me comunicar com os índios para adquirir o know how. Os celulares deles chamam, chamam …, mas não respondem!

Publicado em agosto/1999

Viva o viço do meu vício

Como é chato um ex-fumante patrulhador do vício alheio! Dia desses estava eu dando o rotineiro trato aos pulmões, saboreando com sofreguidão as delícias químicas do meu bagulho, Derby, quando sou interrompido abruptamente em meus devaneios nicotínicos pela visita — antes agradável, ora nem tanto — de um amigo portuga, ex-fumante inveterado, convertido agora num ferrenho naturalista e militante xiita das campanhas antitabagistas. Ao ver-me refestelado no sofá com um cigarro entre os dedos não conteve uma expressão de espanto, e com ar profético disparou, apontando-me agressivamente o indicador:

— Com mil caveiras! Sabes que estás morrendo aos poucos, imbecil?

Pego assim meio de supetão ameacei esboçar um tímido protesto, neutralizado de imediato por uma torrente de velhos chavões e conselhos estereotipados:

— Hoje tu o acendes, amanhã ele te apagas. Sabes qual o destino dos suicidas? Sim, tu és um suicida em potencial e contigo ainda serão arrastados para o túmulo o teu filho e a tua mulher, vítimas inocentes e passivas da tua fumaça criminosa — falava com gestos teatrais e continuava o discurso apocalíptico, aterrador, ignorando o minúsculo ser, na defensiva, tentando se esquivar da saraivada: — Sabes o que significa um pulmão com enfisema, um enfarto do miocárdio, um sistema respiratório comprometido?

— Mas…

— Nada de mas. Além disso, panaca, fumar hoje em dia é demodé, é pagar mico. Sem contar a perda de dinheiro, de paladar, de olfato, pele seca, rugas prematuras…

— Posso falar?

Fingiu que não ouviu e continuou, senhor de todos os palcos.

— E o bafo? Argh! Tua mulher aguenta? Pares, Zêinrique, enquanto tens tempo. Faças como eu, jogues fora este maço e nunca mais acendas um cigarro. Sentirás até na cama uma magnífica melhora no desempenho!

Definitivamente suas palavras me deixavam deprimido. Não bastassem os dissabores que sofre um fumante dos tempos modernos, discriminado de todas as formas, ainda ter de engolir falatório unilateral de um abelhudo. Então resolvi dar um basta naquela conversa chata e desabafei:

— CHEGA! Deixe-me em paz com meu cigarro. Pelo que sei ainda não proibiram fumar em nossa própria casa, e além disso não estou convencido que parar é tão bom como diz. Dei uma respirada e levantei a mão espalmada para interromper um princípio de reação, e continuei: — Tua ex-mulher mesmo anda comentando por aí que te deixou porque já não aguentava mais o teu nervosismo depois que parou de fumar. E alfinetei ainda mais fundo: — E pelo que ela anda dizendo, a tua disposição na cama não ficou redobrada coisa nenhuma. Ao contrário, ela disse que arrefeceu. Será porque engordou tanto? Ou a síndrome de abstinência foi tão violenta a ponto de te fazer mudar de preferência? Olha que já andam falando por aí…

Bem, depois dessa, nunca mais o vi, mas dizem tê-lo encontrado no consultório de um famoso urologista tentando, entre outras coisas, uma receita de Viagra. E dizem também que voltou a fumar. Dobrado!

Em tempo:

Não por ser pernóstico ou coisa parecida, desejando aos outros o mesmo mal que o cigarro me causa. Ao contrário, é por me solidarizar com um companheiro de vício que sofre momentaneamente com a ausência da fumacinha sinistra é que sempre dou cigarros a um filante, com prazer. Só não deixo de observar com ironia o mote de quase todos eles, que usam a redundância quase como uma desculpa para a filada:

— Me dá um cigarro do teu?

Me dá vontade de responder:

— Vou te dar mesmo um do meu, pois se não fosse poderiam me acusar de roubo, furto, apropriação indébita; e a você, de receptador.

Em tempo 2
Faz mal, e muito, o cigarro! Sei que é possível deixá-lo. Mas só quando a determinação for maior que a fissura, quando o respeito à própria vida suplantar as fraquezas pelo vício. Oxalá eu possa um dia deixá-lo, e você, que nunca usou, não caia na cilada de experimentar nem de brincadeira.

Publicado em agosto/1998

Vexame. Decepção. Desesperança

Pablo Neruda (julho/1904 – setembro/1973)

Pablo Neruda (1904-1973), escritor chileno, um dos mais consagrados poetas de todos os tempos disse em seu livro autobiográfico “Confesso que vivi”: ´A América Latina gosta muito da palavra esperança. Agrada-nos que nos chamem Continente da esperança. Os candidatos a deputados, a senadores, a presidentes se autointitulam candidatos da esperança. Na realidade esta esperança é algo assim como o céu prometido, uma promessa de recompensa cujo cumprimento se adia. Adia-se para o próximo período legislativo, para o próximo ano ou para o próximo século.´

Sábias palavras de um comunista empedernido que deve estar se revirando de revolta no túmulo pela matilha de calhordas que se apossou do Brasil na atualidade. O genial poeta, sincera e apaixonadamente marxista-trotskista-leninista, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1971 não merecia que a ideologia de sua paixão apresentasse tal nível de baixeza num país como a que promove alguns sacripantas petistas. Neruda, onde estiver, certamente estará com o olho rútilo e o lábio trêmulo de indignação (como dizia o Anjo Pornográfico, o também genial dramaturgo Nelson Rodrigues) porque não teria imaginado que o seu texto, claramente dirigido à direita pervertida, aos donos do capital selvagem, pudesse ser usado com tanta propriedade contra gente que comunga (?) de sua (a de Neruda) ideologia.

O comunismo, fragorosamente derrotado no terreno estritamente ideológico exigiria gente mais competente para fazê-lo reviver no Brasil, com os acessórios necessários aos tempos modernos. Até os tijolos que restaram do Muro de Berlim como souvenirs devem estar horrorizados com essa cambada brasileira, com as figuras ridículas e desastradas como as de Delúbio, Silvio, Genoino, Zé e outros companheiros muy amigos. Quiseram reviver o comunismo em terra brasilis da maneira mais delirante, às avessas, pervertendo numa guinada de 360 graus o dogma primordial, a natureza e a essência do regime que era, grosso modo, tirar da elite e dividir com o proletariado. No caso, tiram dos pobres para dar aos ricos, mas justiça seja feita a esses larápios: cultivam o ´mentir sempre´, um dos preceitos filosóficos da vertente Engeliana.

Num outro trecho do livro, Pablo Neruda parece que escreveu na década de 70 do século passado com lupa no Brasil de hoje. Falando de González Videla, que governou o Chile no período 1946-1952, disse o poeta: “(…) logo renovou-se a esperança, Videla jurou fazer justiça e sua eloquência ativa lhe atraiu grande simpatia (…) mas os presidentes em nossa América criolla sofrem muitas vezes uma metamorfose extraordinária (…) rapidamente mudou de amigos (…) ligou sua família com a aristocracia e pouco a pouco converteu-se de demagogo em magnata (…).”

Qualquer semelhança…

O Brasil talvez nunca tenha produzido tantos novos-ricos como agora, nem enriqueceu ainda mais os já existentes, sobretudo nunca viveu tamanha discrepância entre o que lhe era acenado com o efetivamente concedido. Pior: nunca foi tão saqueado, tão roubado, tão vilipendiado. A traição se revela brutal, inacreditável, estarrecedora! Um povo que apostou todas as suas fichas na esperança a vê inteiramente desvanecida. Acabou-se o que era doce, voltamos à estaca zero, teremos de começar tudo outra vez, esperando que pelo menos possamos tirar algo de útil da crise, que como bem disse a senadora Denise Frossard, “não é precisamente uma crise política, é caso de polícia.”

Para nós ´camaradas´ aqui do Vale e adjacências tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Surgiu agora o projeto da usina de álcool combustível e de açúcar na Usina Santa Isabel, o que se espera não passe de factoide político como o tal projeto petista (esconjuro!), outra esperança que pode morrer melancolicamente caso seja mera fábrica de palavras…, palavras…, palavras…, vãs como a sombra que passa.

Publicado em julho/2005