Sadomasoquismo e exorcismo na busca do vil metal

Madrugada de 20/4. Na Rede TV, sucessora da Manchete, a apresentadora do programa “Na Cama com Monique”, Monique Evans, apresenta cenas de sadomasoquismo. Deitado de costas no chão com uma coleira no pescoço, um rapaz tem sobre si, sentada em seu rosto, usando um biquini de napa, ornamentada com muitos metais característicos dos adeptos dessa tara sexual, uma “dominadora” com a área dos genitais na boca do rapaz. Ela traz nas mãos uma vela vermelha acesa, deixando pingar gotas fumegantes de parafina no peito do “dominado” ao som de frases ofensivas e rebolados frenéticos na cara do sujeito. A veterana apresentadora, com a naturalidade que caracteriza a apelação dos programas televisivos instiga os parceiros e fala: “não vale soltar um pum na cara dele, hein?”. “Você lavou a ´xana´ hoje?”, pergunta olhando para os demais convidados, uns quatro ou cinco, com a observação de que “tem gente que prefere com ´ela´ sujinha.”
Muda-se o canal. Na Record, o assunto é exorcismo. Um bispo da Universal, moreno, calvo, alto, bem articulado, rápido no raciocínio, esforça-se para convencer no papel do bom samaritano salvador de almas executando performances nos “possuídos” vitimados por “encostos”. Pessoas com as mãos para trás simulando rigidez cadavérica, dedos tesos para dentro, empenhadas em respirar com dificuldade pelo cansaço de carregar dentro de si ninguém menos que o diabo, executam um sinistro concerto de esgares numa coreografia patética. Todos acentuam o tom da voz (o diabo, quem não sabe?, fala grosso e abusa da ironia) atropelando as sílabas, com o máximo cuidado, porém, de se fazer entender. O bispo pergunta invariavelmente: “o que você quer com essa pessoa, diabo?” As respostas são as mesmas: “hum, hum, quero separar ela da família, tirar o seu emprego, fazer da vida dela um inferno”, e por aí afora. E o bispo, compenetrado, agarra a possuída criatura pelos cabelos e diz com impressionante autoridade: “sai dela, agora! Sai diabo, eu te ordeno”, acrescentando depois de uma bem calculada pausa para aumentar a já alucinante expectativa para o êxtase final: “saia, em nooooooome de Jesus”, logra o desfecho para júbilo da plateia extasiada.
Em comum nos dois episódios é que hoje em dia não mais existem ética e dignidade em certas formas delirantemente encontradas para ganhar dinheiro. Explorar e manipular a boa-fé das pessoas, no caso do bispo; afrontar os valores e os princípios morais, no caso da Monique já não passam de detalhes conservadores sem vez na predatória competitividade do dia a dia.
Publicado em abril/2003