Aqui eu guardo meus escritos.

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Um inocente celular numa bolsa caótica

Este caso é verídico.

Assuntinho besta, sô. Mas é dele que vou falar. Ouçam se quiser, quero dizer, leiam. Deu no Fantástico, vejam a que ponto chega a falta de assunto. E se deu no Fantástico, dá também aqui.

Bolsa de mulher. Tradução: objeto mais caótico que o trânsito de São Paulo, mais bagunçado que casa de mãe Joana, mais superlotado que presídios capixabas. Batom, lápis de pintar cílios — de diversos modelos, cores e tamanhos — estojo de maquiagem, perfume, desodorante, escovas de dente e de cabelo, creme dental, absorvente íntimo, telefone celular, caneta, lencinho descartável, carteira de documentos, tesourinha e alicate de unha, cigarros, isqueiro, Dipirona, agenda, chaves, óculos de sol e de leitura, recibos e notinhas comerciais acumulados desde muito tempo, talão de nota fiscal, um livro emprestado que reza a tradição não será devolvido (se bem conheço aquela amiga que me dera uma carona), receitas culinárias e médicas e outras tralhas mais. Ela acrescentou que às vezes tem até dinheiro, embora ressalvando que muito raramente.

Usando um jargão dos jovens, fiquei bolado nesse dia. O celular toca no banco de trás do carro onde estava a bolsa obesa (Epa! Bolsa obesa dá cacofonia. Será que devia escrever obesa bolsa? Xiiii, piorou! Fica assim mesmo). Peço licença à proprietária da bolsa incidental, pois ela (a dona) estava ao volante. Abro-a e desando a procurar o aparelho dentro da dita-cuja, no tato. Nada. E a musiquinha tocando insistentemente. Cadê o danado?, pensava já meio irritado. A musiquinha toca muito e para. Neca de celular que começa a tocar de novo. Será que estou tendo alucinações, sonhando que estou acordado e, como a letra da música antiga, acordo pra ver e estou dormindo? E a musiquinha que não dá trégua? O celular dela, de outra marca, lá, impávido e quieto. Deve ser assunto urgente, penso, para aumentar o desespero. Radicalizei e, com sua aquiescência, despejei tudo no banco do carro, o que foi útil apenas para aferir a quantidade exagerada de trecos que as mulheres carregam. Mas neca de piripitiba do maldito celular.

De repente, o susto, meus pelos já se eriçando. A musiquinha toca novamente como que por encanto, advinda talvez do mundo das trevas. Como é possível? Ela para, saio do carro, levanto o assento traseiro, realizo uma busca minuciosa em todas as ´trâncias´ e reentrâncias, vasculho o chão, os bancos, os pedais, o porta-luvas. Uma busca digna de Sherlock Holmes, que redundara…, em nada. E a musiquinha? Quem me chamava devia estar ansioso (a) para…, Santo Deus: terá ocorrido algo de ruim com um familiar ou amigo?

Eis que, no auge da exasperação, pego a bolsa vazia, viro-a ao avesso e noto um volume estranho, um pequeno ressalto no forro. Enfio a mão por um rasgo até então invisível no canto superior e…, tchan, tchan, tchan… aparece o distinto com o ar mais solene do mundo, a dignidade eletrônica intacta mesmo surpreendido no crime. Retiro-o do seu refúgio odioso, olho para ele e sinto-me contemplando um garotinho com o ar mais inocente do mundo, como o diabólico Damien, de “A profecia”. Tive a impressão que ele até encetava um sorrisinho maroto pela peraltice.

Ah! E recusou-se terminantemente a tocar de novo. O número que chamava? Vejam que infâmia: sem identificação!

Publicado em março/2010