Aqui eu guardo meus escritos.

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Trevas na liberdade

O Brasil é um país sui generis! Que outro lugar um regime ditatorial ferrenho perpetuado em 20 longos anos deixaria saudades? Onde mais as sombras da exceção dariam sinal de falta pela terrível insolação decorrente dos desvirtuamentos de uma classe política despreparada e incompetente, entreguista, cínica e maquiavélica, para não dizer outras coisas? A tenebrosa ditadura conseguia um menor teor de periculosidade em comparação com o que aí está. Tivessem os coturnos continuado a estrangular a jugular da liberdade, ladeados por fuzis e metralhadoras, provavelmente não nos encontrássemos ora tão infelizes.

Fracassamos rotundamente. Gastamos até o último grau a nossa criatividade durante 20 anos na busca obstinada por liberdade, mas nada soubemos fazer com ela depois que a conquistamos, a não ser produzir um monstrengo amorfo e voraz a sugar freneticamente tudo o que vê. Era melhor a ditadura dos generais ou essa nova ditadura da sem-vergonhice? Era melhor tomar recursos emprestados para financiar o desenvolvimento, ou para patrocinar o sarau dos especuladores nativos e estrangeiros e a boa-vida da realeza nacional? Ainda que com arrepios de pavor pela lembrança do sinistro verde-oliva, havemos de reconhecer o considerável crescimento experimentado pelo país sob o seu tacão, em contraste com o torpor e a paralisia que trouxeram os ares democráticos, como no caso do Espírito Santo, para ilustrar.

É profundamente desapontador, de certa forma, que estivéssemos imobilizados e proibidos de palpitar sobre os destinos da Pátria, enquanto os generais transformavam a Cia. Vale do Rio Doce na maior corporação portuária do mundo, entregue agora na bacia das almas pelos vendilhões do templo; que por intermédio deles a Petrobrás se obrigasse a explorar as reservas de óleo e gás em solo capixaba; que construíram a Siderúrgica de Tubarão, a Aracruz Celulose, a Samarco Mineração e seu Porto Exportador de Ubú; que construíram as unidades portuárias de Capuaba e do litoral de Aracruz; que criaram o Fundap, o Bandes, o Geres; que completaram a BR 252, ligando Vitória e Belo Horizonte, constituindo-se no maior corredor turístico do estado; que construíram a terceira ponte. Tudo isso só no pequenino Espírito Santo, imaginem no resto do Brasil.

Pois bem. Eles se foram, execrados com justa razão por terem nos causado tantos sofrimentos, mesmo assim. E nos libertamos. Embriagamo-nos de civismo, de liberdade, de nacionalismo. Foi bom, claro, para a maioria de nós era como o primeiro amor. Mas não fomos felizes por muito tempo, já que escolhemos mal aqueles que em tese deveriam nos conduzir à porta principal do primeiro mundo. Ficamos na área de serviço e aí estacionamos, de vez que a dívida se decuplou e eleva-se em escala vertiginosa implodindo nossos ativos desgraçadamente insuficientes sequer para amortização de juros.

Decerto que ninguém deseja, em sã consciência, o retrocesso aos tempos obscuros e à perda da liberdade, mesmo aviltada e escarnecida. Por mais forte que seja essa disposição, porém, arrisca-se ser suplantada pela humilhação das injustiças sociais, detonando reações imprevisíveis. Cuidemos, pois, de abandonarmos a inércia e partirmos para a busca de alternativas cívicas em resguardo à nossa cidadania, antes que o desespero nos obrigue a trocar a liberdade de reclamar da fome e de quem a promove, por um bom prato de comida.

Publicado em outubro/1999

Depois do susto, a politicada faz caras e bocas de Madre Tereza de Calcutá. Mas não se fiem nisso, é a manjada reação camaleônica diuturna!

Nani fez esta brincadeira aí, mas a coisa é séria. Pensemos nas seguintes hipóteses: um deputado desvia dinheiro da Saúde, e por falta desse dinheiro 100 pessoas morrem por falta de atendimento; um criminoso mata uma pessoa. Quem cometeu crime mais hediondo? No segundo caso, o bandido, se preso, e se não tiver “pedigree”, será processado e condenado. E o primeiro? Continuará a ser chamado de Vossa Excelência, defecando e hediondando em nossas indignações.

Em 2002 eu roguei pragas a quem ia evacuando e hediondando pelaí, pois entendia (e ainda entendo) ser esta a única maneira de desagravo, em face da impunidade que grassava (e ainda grassa, grossa) no Brasil (aqui).

Lamento pelo pessimismo, mas embora acredite que nada será como dantes no quartel de Abrantes, depois das manifestações, creio que o monstro da corrupção ainda levará muito tempo para ser acometido de uma perpétua prisão de ventre.

Publicado em junho/2013

Podridão escancarada

A safadeza explícita com a certeza da impunidade, que culmina com a fome, a incerteza e a desesperança para milhões de almas tem extrapolado limites. Rogar a maldição é o pouco que resta num país onde a decência na política está definitivamente morta e sepultada, resguardadas as poucas e honrosas exceções. Então, às favas os preceitos que excluem a grossa adjetivação num texto elegante. Nste não, violão!

Ladrões, canalhas, corruptos, salafrários, torpes infanticidas, capazes de matar pai e mãe para entrar na festa dos órfãos. Torquemada, Hitler, Napoleão, Nero, Idi Amin, todos juntos com o reforço do canibal Bokassa formariam uma confraria de anjinhos de asas douradas perto de suas asquerosas figuras. Vocês personalizam o cancro brasileiro, metastaseado até o tutano dos ossos dos dedos mindinhos dos nossos pés. Vocês, todos vocês que de alguma forma se nutrem do sangue contaminado pela endemia da injustiça social e se banqueteiam do líquido medular dos combalidos brasileiros, com o tremor febril do frenesi tal e qual o Conde Drácula com os caninos profundamente penetrados num pescoço virginal, hão de conhecer o pavor da vindita coletiva quando esta emergir dos subterrâneos da amargura, da dor e da tristeza.

A podridão está escancarada. Malditos sejam os corruptos, que nada deixam sobrar no imenso cofre, nem para o remédio dos velhos ou a merenda das crianças. Malditos, mil vezes malditos pelo seu caviar ser brutalmente arrancado das entranhas dos semelhantes e por suas finas bebidas degustadas em copos do mais puro cristal terem na composição as lágrimas dramáticas do mar de choro convulsivo dos bebês sem leite. Que todos vocês (isso ardentemente lhes desejo) purguem seus crimes hediondos na terra devastada da besta em liberdade e da meretriz no trono.

Dedico esta sincera e singela homenagem a todos os corruptos deste imenso Brasil. A maracutaia flagrada pelo Fantástico, dias atrás, em São Gonçalo/RJ, é um mini-retrato sem retoques do que rola nos desvãos sombrios de Brasília e nos palácios estaduais. Imagino o tamanho da roubalheira…, bem, não dá pra imaginar, meu circuito cerebral não possui os terabites necessários. Só o que consegue é pensar na complexidade de uma investigação como essa e lembrar que o país possui mais de 5500 municípios. Haja jornalistas!

Por muito menos a corja pereceria num paredón em Cuba ou receberia um tiro na nuca em território chinês, com os familiares pagando a conta pelos projéteis utilizados na solução final da infâmia. Algo bom alguns comunistas produzem. Aqui…, bem, aqui, numa analogia ao programa do Silvio Santos, os crápulas pedem ajuda aos universitários do Direito, que nunca têm a menor dificuldade em lhes fornecer o salvo-conduto. Este, impresso pelas firulas jurídicas com a tinta pútrida extraída do tumor maligno da im(p)unidade, é normalmente adornado com a terna e meiga chancela de um Código Penal anacrônico, serelepe em trancafiar ladrões de galinhas mas doce e condescendente com os que assaltam os cofres públicos.

Publicado em abril/2002

Mobilidade urbana em Bom Jesus: Bonjesino acha que os políticos da terrinha estão se mexendo, como seus congêneres de Brasília. Tola ilusão, penso eu

Lamento dizer, mas não acredito que as manifestações meio barro, meio tijolo, em Bom Jesus, foram capazes de sacudir as estruturas do provincianismo político, suas decenárias idiossincrasias e o modus faciendi ultrapassado, canhestro, de gestão pública. A ponte sobre o Rio Itabapoana (foto), que os ingleses construíram no início do século passado mais para tráfego de carroças de tração animal, unindo Bom Jesus do Norte (Extremo-Sul Capixaba) e Bom Jesus do Itabapoana (Noroeste Fluminense), hoje suporta o pesado trânsito de bólidos guiados por GPSs e que manobram sozinhos nas vagas de estacionamento.

Diria alguém não conhecedor das duas cidades que naturalmente a ponte veio tendo ampliações ao longo do tempo, se adequando gradativamente à medida das necessidades pelo aumento constante do tráfego. Ledo e Ivo engano. Ao contrário, ela ficou mais estreita para os veículos devido à construção de duas passagens para pedestres na década de 1970, se não me falha a memória. Adivinhem como está o trânsito sobre a acanhadíssima ponte, atualmente, em especial nos horários do rush.

Hoje em dia todo mundo tem acesso ao carrão financiado em trocentas vezes, com preços reduzidos por renúncias fiscais do socialismo tupiniquim. Só que os çábios, com c e com cedilha, não atentaram para o simples fato de que teriam também de investirem em estrutura viária onde esses veículos pudessem trafegar. Resultado: todo mundo tem carro, mas não tem como usá-lo de forma desejável principalmente nas cidades, sem estresse, sem engarrafamentos monstruosos.

Como dizia Ulisses Guimarães, político só tem medo de povo. De povo que reivindica, que faz pressão, bem dito. E depois destas últimas pressões – e que pressões!, a politicada está igual manada sem rumo, galopando em círculos, entrando em qualquer porteira que vê aberta.
Estão prometendo ao povão até revogar a lei da gravidade; inclusive, já anunciaram a liberação de R$ 50 bilhões para mobilidade urbana.

Diria Bonjesino, o meu personagem apaixonado pelos políticos da terrinha, que os prefeitos daqui já estão unidos entre si, e articulam com suas respectivas representatividades em níveis estadual e federal para viabilizarem a construção da 2ª ponte urbana. Guardando uma estratégica e cautelar distância de Bonjesino, em verdade vos digo: em 2016, ano das próximas eleições municipais, com certeza ouviremos nos palanques as mesmas promessas, os mesmos tatibitates com os quais há décadas tratam de assunto tão importante para ambos os municípios e seus quase 50 mil habitantes, somados, fora as populações de lugares adjacentes e de outras plagas, em trânsito, numa região fronteiriça entre dois dos mais destacados Estados da Federação.

Publicado em junho/2013

O recall político é mais ou menos como um impeachment, ou seja, o impedimento, a cassação do mandato. A diferença é que o impeachment é decidido pelos deputados (representantes do povo), e o recall, diretamente pelo povo. Nos EUA e em outros países existe o dispositivo do recall na política. Comprovada a corrupção, incompetência ou inoperância do parlamentar, os próprios eleitores dele o retiram do cargo, pelo voto. Na esteira das reivindicações por uma ampla reforma política no Brasil, o instituto do recall surge como um possível componente dessa reforma, defendido até pelo presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa.

Fazer recall de produtos, todos sabemos, é quando uma determinada fabricante detecta algum problema e convida os consumidores a trocarem as determinadas peças defeituosas ou mesmo todo o produto, gratuitamente. Há recalls de variadas categorias, mas o de veículos é o que mais se destaca. O cartunista Nani foi na veia. Roubar é um defeito difícil de consertar. Se hipoteticamente esse recall passasse a valer imediatamente, já pensaram o tamanho da frota de deputados e senadores que teríamos de trocar?

Publicado em junho/2013