Aqui eu guardo meus escritos.
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A charge de J. Lima retrata o ex-presidente Lula calado, suando frio por conta das manifestações que o PT achou que ficaria restrito a São Paulo e detonaria o governador oposicionista Geraldo Alckmin. Lula, que falava pelos cotovelos onde tivesse um grupo de pessoas, em lançamento até de pedra fundamental de quadra de cuspe à distância, guarda um silêncio sepulcral desde que pipocou o escândalo Rosemary Noronha há mais de sete meses. Sobre o escândalo, que o jornalista Alexandre Garcia reputa mais sério que o Mensalão, nenhuma palavra. Sobre as manifestações, o falastrão também emudeceu.
Um político como Lula, que todos sabem é a eminência parda do atual governo, uma espécie de primeiro-ministro informal, porém com enorme influência; um homem que falou até mais não poder quando o céu era de brigadeiro, quando a conjugação de fatores econômicos, políticos e telúricos lhe era enormemente favorável; Que se quer lembrado hoje e na posteridade como um grande líder jamais havido na história deste país. O demiurgo, enfim, que transformou todo e qualquer pobre em classe média (por decreto dos números falaciosos, ao menos), não podia se calar num momento de profunda transformação pelas quais o país atravessa, em plena ebulição das massas que dizem chega a tudo o que há de pernicioso.
O que o pastor divinal diria para suas ovelhas? O que pensa o estadista que, como tal, enxerga à frente, sobre os destinos do país? De que maneira articula esse homem com as forças políticas que domina por intermédio de seu garbo e genialidade, em contributo à nação? Aqui em Bom Jesus, costumava-se dizer de uma pessoa que se deixava seduzir por elogios falsos, que se sentia com o ego afagado quando alguém a enaltecia de maneira dissimulada, hipócrita, como sendo um “comedor de puaia”. E a pessoa que dava as puaias, um “puaiento”. Comer puaia também era acreditar em promessas fantasiosas, em premissas mirabolantes, em discursos triunfalistas.
E Lula não dá as caras agora porque os comedores de puaia se deram-se conta de como ela é indigesta. Como se trata do maior entre os maiores puaientos que o Brasil gestou, o clima lhe é profundamente desfavorável.
Publicado em junho/2013

Acima, à esquerda, Aracelli Cabrera Crespo, morta por pedófilos influentes de Vitória/ES, em 1973, crime que comoveu o Brasil inteiro, cujos assassinos nunca foram condenados; ao centro, o menino bom-jesuense Serginho, morto pelo próprio tio, vulgo Zé do Rádio, em 1977; ao seu lado, Isabella Nardoni, morta pelo próprio pai em 2008; Embaixo, à esquerda, o garotinho boliviano Brayan, esfolado vivo em junho/2013; ao seu lado, Taninha, de quatro anos, morta e incendiada por uma megera amante do seu pai, em 1964, no subúrbio carioca da Penha. (Aqui, aqui, aqui e aqui, textos que fiz sobre Serginho, Isabella, Taninha e outros mártires infantis da crueldade)
Desta vez foi o garotinho boliviano Brayan Yanarico Capcha, de cinco anos, filho único de imigrantes pobres que ganhavam a vida com trabalho árduo na capital de São Paulo. Difícil, muito difícil aceitar tanta covardia de vagabundos que se irritaram com o choro da criança, e apesar do apelo desesperado do menino foi executado sem piedade. Em sua ingenuidade, o pequeno tirou moedinhas do seu cofre e as ofereceu aos marginais — os pais não tinham dinheiro — suplicando que não o matassem nem aos pais. Levou um tiro na cabeça e chegou morto ao hospital.
Que raiva de dimensões planetárias, Deus do céu. Que lágrimas teimosas escapando aos borbotões. Quantos nós no estômago a cada menção da barbárie. Que vontade de embarcar num asteroide e fugir para bem longe da órbita terreal! Como dito, o pequenino havia até tentado contribuir com suas moedas para o ganho do assalto dos desgraçados, mas…, infeliz criança, fora incapaz de atender a ordem dos crápulas brutais para conter o choro de desespero, pelo assombro de ver materializado seu mais aterrorizante pesadelo! Pior é que a parte infame do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), aquela que praticamente diz que guarda-roupas parrudos de 17 anos e 11 meses são anjos, ainda que executem à queima-roupa crianças indefesas como Brayan, pode ser novamente evocada neste caso.
Leio que a polícia “apreendeu” um dimenor — ai de mim se não usar o termo correto ´apreender´ ou citar nomes das feras. Fico sujeito a ser enquadrado em alguma coisa. Se publicar a foto do anjinho, então…, arrisco ser processado, executado e queimado no fogo do inferno. Pior ainda é que li no Jornal da Mídia que um dos assaltantes maiores, presos, disse que o autor do disparo foi… bingo: o “dimenor.”
Já que estamos na onda das manifestações, poderíamos aproveitar e fazermos outra, específica contra a vergonha de sermos um dos pouquíssimos países que deixam impunes esses animais predadores da própria espécie. Inclusive protestarmos contra alguns pelintras que se dizem defensores dos direitos humanos, que nestas horas fazem de tudo por uma nesga de luz dos holofotes, passando a mão nas cabeças dos delinquentes. Falam de leis, de cláusulas pétreas da Carta Magna, com pose impoluta e palavras que afetam erudição. E sobre as vítimas, suas famílias que nada entendem de leis, mas entendem profundamente de dor e melancolia, só a tentativa de consolo das almas bondosas que não têm a prerrogativa do poder.
Tratemos de lutar para que não mais necessitemos desagravar indignação e revolta apenas com a torcida pela justiça do olho por olho. Como neste caso, em que faço votos efusivos de que os canalhas que mataram Brayan sejam devidamente apresentados aos demais detentos com as credenciais de assassinos de crianças bem explicitadas. É que até os bandidos mais sanguinários têm sua ética, e barbarizar crianças é repulsivo até para eles. Que os colegas de cárcere sejam informados de que o pecado do menino foi tão-somente ser incapaz de dominar a própria inocência!
Publicado em julho/2013

— Estou ansioso para ler sua Coluna, Zé Henrique. Com certeza você vai escrever a respeito do massacre das crianças na escola em Realengo, não vai?
— Não, respondi a Paulo Xavier, o Pepê, um amigo que nas horas vagas faz poemas inspiradores.
— Por quê?
— Porque sou incapaz de traduzir em palavras o que me vai na alma — expliquei, aproveitando para pedir que ele próprio compusesse um poema em homenagem aos inocentes chacinados.
De minha parte, apenas isso: envergonha-me a semelhança de gênero com o assassino tresloucado, com criatura tão infame. Ser constituído da mesma matéria universal com que foi moldado aquele sanguinário me torna pequeno demais, insignificante demais, a despeito de a maioria de nós dignificar a espécie humana. Também me penitencio por ter derramado catadupas de lágrimas, por ter chorado convulsiva e incontrolavelmente em frente à TV e à tela do computador.
Fui oportunista porque, como dizem, chorar faz bem. E eu não tinha o direito de me fazer bem com os eflúvios de tamanha atrocidade!
Eis o poema do meu amigo:

Publicado em maio/2011

Este ano a garotinha Isabella Nardoni celebraria seu 11º aniversário, não tivesse cruzado em seu caminho, em 2008, dois estupores adultos: o próprio pai e a madrasta. Por coincidência, neste 2013 será apresentado o último capítulo da “novela” Mensalão. Aguarda-se ansiosamente que os roteiristas escrevam uma moral da história edificante, punindo os vilões da trama que se desenrola desde 2005.
Refiro-me a ambos os casos porque encontro neles algo em comum: dois dos mais conceituados advogados, Marcio Thomaz Bastos e Roberto Podval, emitem discursos favoráveis aos acusados, como é ofício de defensores, mas o fazem com tamanha ênfase que por pouco não atribuem a culpa às próprias vítimas. (Bastos advoga para um dos mensaleiros e Podval, para os assassinos de Isabella). Ambos os advogados sustentam em suas teses que os julgamentos respectivos foram influenciados pelo clamor popular. Bastos até afirmou, a respeito do Mensalão: “é um exemplo típico de um julgamento que não houve. Foi um justiçamento.”
Ora, o casal que matou Isabela teve direito a tudo: exames técnicos, laudos, perícias, a mais ampla gama de recursos. Adiaram o julgamento ao máximo, sempre atendido nos recursos jurídicos talentosamente pescados no Código Penal pelo caríssimo advogado Podval, para rimar e ficar legal. E os sete do Tribunal do Júri que condenaram o casal em 2010 foram injustos, apenando não pelo dito da consciência, mas pelo clamor popular?
No Mensalão, também o STF cometerá a injustiça de condenar anjos e arcanjos apenas pelo clamor popular? Ora, ora, ora, diria o velho Teotônio Vilela. Sem medo de ser feliz, fico com os verdugos dos mensaleiros e do casal Nardoni, ministro Joaquim Barbosa (com seus pares de igual convicção) e o promotor Francisco Cembranelli, respectivamente. A este último dediquei o texto abaixo, em 2010, logo após ter conseguido, brilhantemente, a sentença que lavou a alma dos brasileiros, mais de 100 milhões de pais e mães de Isabella.
“O anjo da guarda de Isabella
Já vi de tudo nesta vida”, costumamos dizer quando nos deparamos com casos escabrosos. Afirma isso com mais regularidade quem está, segundo João Ubaldo Ribeiro, “velhinho em folha.” Mas a ilusória sensação de ter visto de tudo nesta vida não foi capaz de neutralizar meu (nosso) assombro pelo assassinato com requintes de crueldade da garotinha Isabella Nardoni, tenra e vulnerável como um brotinho de rosa nos seus cinco anos de idade.
Mesmo os animais irracionais protegem suas crias, velam por elas, as defendem dos perigos. Daí não constituir exagero afirmar que o pai da menina, um crápula brutal, capaz de cometer a infâmia contra todos os quesitos da civilidade, não é um animal, nem dos da classe irracional. É a personificação da besta num gênero desconhecido de seres vivos! Ele renunciou à bênção suprema de desfrutar do crescimento da filha, de se divertir com suas peraltices e descobertas, de amá-la, respeitá-la, orientá-la, ampará-la, defendê-la, e se preciso fosse, de morrer por ela. Em vez disso, a matou!
Depois desse crime hediondo cometido contra todos os pais e mães que adotaram Isabella em seus corações, deixando perplexas nossa credulidade, nossa natural aptidão de nos enternecer perante a inocência, a noção de solidariedade e clemência ao menos com o sangue do nosso sangue, não mais asseguro que já vi de tudo. Por outro lado, vi a enorme grandeza de espírito e estatura profissional, muito amor pela causa e renúncia em favor da Justiça (o bálsamo que ansiamos de maneira fremente neste país), características marcantes na pessoa do promotor Francisco Cembranelli, um homem invulgar que ajuda a fortalecer a crença na humanidade, não obstante o mal insidioso que nos cerca diuturnamente.
Mais que o promotor comprometido até à medula com as leis, se valendo delas para extrair a seiva da ética e da elevação moral, o Dr. Cembranelli é o símbolo da esperança, o oásis de luz nas trevas da injustiça. Com determinação, competência e desassombro, delimitou o espaço em que ficarão severamente guardadas a fera e sua cúmplice.
Triste do país que precisa de heróis, já dizia o poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht. E o Brasil precisa, o que é profundamente lamentável. Menos mal que os gera aqui e acolá, como o mais recente a figurar nesse rol. O Dr. Francisco Cembranelli, anjo da guarda de Isabella, é um deles, pelo qual passei a nutrir um sentimento de profundo respeito e grande admiração. Por conta dele e dos seus coadjuvantes, finalmente a criança foi justiçada.
Obrigado, doutor. Agora, sim, descanse em paz, Isabella!
Publicado em maio/2013

A maior tragédia não foi o menino João Hélio Fernandes, 6, ter sido arrastado por 7 km por bandidos no Rio de Janeiro, preso pelo cinto de segurança do carro que estava sendo roubado de seu pai. O horror maior é que já caiu no esquecimento! Como de praxe, três ou quatro dias em todos os noticiários e depois nem uma notinha de pé de página. E como de praxe também, as autoridades se esforçando nos ares de contrição sem, contudo, terem a capacidade de tomar uma miserável atitude! Ah: o presidente da República tomou, sim. Reafirmou ser radicalmente contra a redução da maioridade penal que puniria, entre outros, aquele que disse ou ouviu do comparsa que o inocente martirizado, destroçado, esfolado vivo era o judas deles.
Mas votar este marginal pode, pois tem o discernimento para saber escolher o seu prefeito, o seu senador, o seu presidente. Só não sabe, coitadinho, que não se pode matar, nem estuprar, nem barbarizar, nem torturar uma criança de 6 anos da forma a mais cruel e covarde. A sociedade tem de condescender com esse pobre injustiçado e deixar que ele faça o que bem entender com os seres humanos, sem relevar o fato de que ele não seja humano.
É um erro gravíssimo e uma injustiça inominável colocar a culpa da criminalidade na miséria. Isso afronta todas as pessoas pobres de bem, a esmagadora maioria. A honestidade não depende dos bens materiais que se possui nem do preparo intelectual que se tem. Muitos políticos que roubam, roubam e não param de roubar são riquíssimos, preparados nas melhores universidades. Mas como diria Carlito Maia, fariam corar de vergonha o mais larápio dos faraós, enquanto pobres trabalhadores suam para criar suas famílias de forma honesta, incapazes de dar um tapa num cachorro.
É claro que a injustiça social no Brasil é parceira constante da violência, mas se a miséria fosse a principal causa da violência, a ameaça à paz do mundo viria de países pobres, e não como se vê e sempre se viu. Bin Laden, por exemplo, é ultramilionário, que arregimenta pessoas de bom nível social e econômico para matar por ideologia religiosa milhares de pessoas da maneira a mais diversa e perversa. O tráfico também exerce seu sombrio e perene papel de estímulo à violência, mas a impunidade ganha disparada.
Nos Estados Unidos, alguns estados punem, como se adultos fossem, crianças de até 7 anos de idade, com cana dura mesmo, conforme a natureza de seus crimes (a idade mínima é 7 na maioria dos estados, de acordo com a tradição anglo-saxã da “common law” – lei comum); no México, a partir de 11 (para crimes federais) e 12 (demais crimes); na Inglaterra, 10; França, 13; Alemanha, Itália, Japão e Rússia (e algumas ex-repúblicas soviéticas), 14; Argentina, 16. E estas não são republiquetas quaisquer, diga-se.
A solução, portanto, não é matar o lobo para salvar as ovelhas, pois que a pena de morte é uma ideia natimorta (com trocadilho e tudo), no Brasil, pois seria uma radicalização perigosa num Estado de instituições débeis como a Justiça, que deixa livres, leves e soltos criminosos de bom poderio econômico e transforma quadrado o sol para uma mãe que furtou uma lata de leite em pó para alimentar seu filho. Mas que pelo menos prendam o lobo e aparem suas garras, seja ele de que idade for. É o mínimo que se deve fazer em desagravo a tantos mártires da brutalidade como o garotinho João Hélio.
Publicado em abril/2007