Aqui eu guardo meus escritos.

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Análise do resultado das Eleições 2016 no ABC Capixaba e em Bom Jesus do Itabapoana/RJ

 

SÃO JOSÉ DO CALÇADO/ES

Parece que os eleitores de Zé Carlos (PMDB) intuíram que só uma vitória com uma grande margem de diferença seria condicionante para que ele assumisse. Bingo, vai assumir.

Condenado à perda do mandato decidida pela Câmara na sua primeira administração (se não me engano em 2011), com o detalhe de que naquela oportunidade o presidente da “Casa Cassadora” era o seu atual vice-prefeito Teté, Zé Carlos teve o recurso deferido pelo TRE/ES, que contrariou argumentação interposta pelo segundo colocado Cuíca. No entendimento da corte, a cassação que foi chancelada em 1ª instância do Judiciário não previa a perda dos direitos políticos.

Por que digo que a opinião pública pode ter influenciado a tomada de decisão dos doutos juízes? Insinuo, acaso, que suas excelências foram parciais? Que saltitaram nas botinas com solas de tachinhas em cima das leis e da Constituição? Não. Coloquemos de outra maneira: numa democracia, a vontade da maioria é soberana. E quanto mais expressiva essa maioria, mais soberana tende a ser sua vontade.

Decisões judiciais não advêm de ciências exatas como a Lei da Gravidade, que independentemente de quem vê, de onde vê, da hora que vê, os corpos caem inapelavelmente.

No Direito, a coisa é mais subjetiva, sujeita a interpretações de pessoas com conceitos e entendimentos os mais diversos, ainda que numa assembleia de vestais. Fosse diferente, não existiriam recursos, advogados, erros jurídicos, coisa e tal. E mesmo as togas em plenários refrigerados não estão imunes às emanações quentes das urnas, cuja influência pode ser sutil, imperceptível, por osmose.

A diferença de Zé Carlos para Cuíca (PDT) foi grande. Tão grande que se o município tivesse hipoteticamente mais de 200 mil habitantes, e fosse proporcionalmente projetada sua performance, Zé Carlos precisaria de meros 0,7% a mais de votos válidos para levar no primeiro turno.

Ele ganhou de Cuíca por 3.584 x 2012. Foram 49,3% contra 27.7% dos 7261 votos válidos (os demais candidatos, professor Ciro – PV e Bodoque – PROS obtiveram respectivamente 1489 e 176). Portanto, Zé Carlos assume, acima de tudo, com a legitimidade das urnas e com as bênçãos do PMDB do governador Paulo Hartung, que é diferente do de Cabral, Pezão e Paes, no RJ (e pesadelo de Sávio Saboia em Bom Jesus do Itabapoana/RJ).

O que faltou a Cuíca foi o entendimento contrário da Justiça, claro, que indeferiu suas aspirações. Mas tenho pra mim que se ele tivesse tido votos suficientes para reduzir a um tamanho ínfimo a derrota (como ocorreu, aliás, com o próprio Zé Carlos em 2008, quando ganhou de Alcemar Pimentel naquela oportunidade por exíguos 119 votos), a banda poderia ter tocado música diferente da “campeão, vencedor, ô, uô…”.

BOM JESUS DO NORTE/ES

Aqui, o esperado. Se a família do ex-prefeito, ex-deputado estadual e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado, Umberto Messias, é osso duro de roer desde tempos imemoriais, com o reforço de uma ala dos Batistas, que tem o médico Tadeu como seu mais ilustre componente da política, a candidatura de Marquinhos Messias (PSD), filho de Umberto, era pule de 10.

Ganhou com 2502 votos, contra 1777 do segundo colocado Toninho Gualhano (PCdoB), e 1118 de Marcão (PMDB), o terceiro. Em seguida, Salatiel de Oliveira, do PHS, com 162; Aluizio Teixeira, do PSDC, com 102 e Fabinho do Maneco, PRB, com 52. Destaque negativo para este último, que foi o candidato a prefeito menos votado entre todos os 78 municípios capixabas.

Não é certo, porém, relativizar o mérito do próprio Marquinhos, que demonstrou determinação em perseguir seus objetivos desde as eleições de 2008 quando perdeu para o Dr. Adson. Ali, sim, poder-se-ia presumir que, se ganhasse, teria sido por majoritária influência familiar, até porque, jovem demais, era inexpressivo e inexperiente.

Mas soube transformar aquele infortúnio angariando apoio constante e gradual, e como vice do tio (o atual prefeito Ubaldo Martins, irmão de Umberto) nas eleições de 2012, ganhou também certa experiência executiva, muito embora, desde a posse em 2013, vem fazendo pouco “barulho”, talvez pela própria característica da função de vice no sistema político brasileiro, que é quase ao de uma figura decorativa, ou pelo temperamento um tanto discreto, ou por outro motivo qualquer.

Então, por que a relativa pequena diferença em relação ao segundo colocado, não obstante esse forte apoio? No meu entender isso não se deu apenas pela quantidade incomum de candidatos (cinco desta vez), mas por “fadiga de material”, sem olvidar a campanha aguerrida de Gualhano.

Ubaldo se manteve aparentemente neutro, mas essa defecção não seria por si só uma catástrofe porque a família é campeã absoluta na governança do município desde o início da década de 1980, que começou com o próprio Umberto. Este, por sua vez, fez o sucessor. Em 1992, Ubaldo se elegeu; em 2000, 2004 e 2012, idem, idem. Portanto, em oito ou nove mandatos desde então, se não me engano, seis foram dos Messias, sendo quatro somente com Ubaldo.

Este é um desafio para Marquinhos, que tem tudo para governar bem se tiver a vontade de sacudir uma estrutura monótona sem divorciar-se da experiência familiar, notadamente a capacidade de aglutinação, a expertise política. Não por acaso sua vice é uma Batista (a professora Angélica), sobrenome que em tempos pretéritos vivia às turras com os atuais companheiros.

Umberto foi reconhecidamente um bom administrador. Ubaldo também, especialmente na gestão dos recursos. Em seus sucessivos governos, salários e obrigações com fornecedores não sofreram grandes abalos. É também um “amante das pedras”, proporcionando calçamento de logradouros em quantidade exponencial.

Em outros quesitos, vale lembrar que, no Estado, Bom Jesus do Norte é o município primeiro colocado no Ranking Nacional de Eficiência de Gestão, conforme pesquisa divulgada pela Folha de São Paulo em 26/8 do corrente. Por outro lado, enfrenta problemas de infraestrutura urbana. É um dos de mais alta densidade populacional, sintoma da reduzida extensão do território, um traçado urbano simplório e acanhado com a agravante de sua localização fronteiriça ao 2º maior estado da Federação, economicamente falando.

Sangue novo, ainda que com o mesmo DNA pode descortinar a solução dessa e de outras difíceis equações. Nas aeronaves, fadigas de material causam desastres. E a diferença de votos aquém das expectativas de Marquinhos em relação a Gualhano pode ter sido um aviso da necessidade de revisar conceitos para viabilizar voos mais longos com a segurança necessária.

APIACÁ/ES

A vitória de Fabrício do Posto (PP) em Apiacá/ES, que teve 2278 votos contra 1468 de Betinho Miranda (PMN) e 1253 do Dr. Roy (SD) foi resultante do sucesso da aglutinação das oposições.

Fabrício ganhou, mas quem também celebrou – e muito foi o ex-prefeito José Chierici e Kaká, ex-vice-prefeito do próprio Humberto Alves, o atual, na primeira gestão deste, que foi de fins de 2010 a 2012 (o eleito em 2008, José Chierici, foi cassado pela Justiça Eleitoral por compra de votos antes de completar dois anos de governo, cedendo a cadeira ao segundo colocado Humberto Alves de Souza – também de apelido Betinho, tal e qual o seu “afilhado” nesta última eleição, 2º colocado). Kaká inclusive emplacou sua mulher Rosane como vice de Fabrício.

Humberto Alves, depois de se eleger despertando em seus apoiadores a certeza de uma longeva parceria, deu um “cavalo de pau” em sua administração, de uns dois anos para cá. Demitiu secretários, entrou em rota de colisão com a Câmara, contrariou interesses poderosos e isso amplificou descontentamentos.

Além disso, sua retórica virulenta contra os oponentes, as catilinárias dirigidas principalmente ao grupo de José Chierici potencializaram a já normalmente feroz agressividade entre as facções. Os opositores, com as facas entre os dentes, consideravam uma questão de honra desbancar tão audacioso desafeto.

Deu certo. Embora Humberto Alves tenha gerenciado bem o município (pelo menos até que se prove o contrário), o envolvimento diário nas escaramuças tomou-lhe o tempo de fazer o que melhor ele sabe, que é a política no varejo. O discurso vivaz, grandiloquente, a maestria na enunciação de ideias, a perícia em manusear feitos e números, o sorriso franco, a maneira cativante com que dá um tapinha nas costas, um abraço de paquiderme, parece que foram sacrificados em prol das agressões aos adversários.

Também pesou o desgaste natural de uma gestão continuada, que Humberto tentou reverter mudando paradigmas políticos. Mas pesou a mão. No caso por exemplo de ter perdido a maioria na Câmara por, segundo ele, recusar-se a dar seu beneplácito às costumeiras demandas dos vereadores, e de sacrificar determinados grupos de pessoas para hastear a bandeira da austeridade, esperava que a população, de forma geral, refletisse isso nas urnas em favor de Miranda, o que não aconteceu.

BOM JESUS DO ITABAPOANA/RJ

Em Bom Jesus do Itabapoana, Roberto Tatu, do PR, partido do ex-governador Anthony Garotinho, venceu o candidato da situação Sávio Saboia (PMDB). Tatu teve 10.895 votos; Saboia, 7958. Em 3º, Paulo Portugal (PP), com 1987 e em 4º, Samuel Júnior (PHS), com 1386. O estigma do PMDB do Rio, que viu seu atual prefeito sofrer a humilhante situação de nem chegar ao 2º turno, fez vítima também por estas bandas.

E que se note: Anthony Garotinho, a maior estrela do PR, perdeu em 2014 a eleição para governador e agora perde em Campos dos Goytacazes, sua cidade natal. Atualmente dirigida por sua mulher Rosinha, pela segunda vez porque reeleita em 2012, ali a derrocada foi tão retumbante que seu candidato Dr. Chicão perdeu no primeiro turno para Rafael Diniz, do PPS. Mas teve em Bom Jesus do Itabapoana o prêmio de consolação, com Tatu, que foi apoiado também pelo ex-prefeito Paulo Sérgio Cyrillo, pai do vice eleito Cyrillo Filho.

Destaque na campanha de Tatu para o marketing bem planejado e executado pelo bom-jesuense Marcelinho Almeida, suporte importante para a vitória pela competência no uso das redes sociais, rádio e outras mídias. O vocabulário simples e objetivo atingiu o eleitor de maneira clara, tornando fácil a absorção das mensagens.

Mas de janeiro em diante é que a porca torce o rabo se não for cotó. O novo prefeito terá de se desdobrar para ao menos manter o município nas condições atuais. Tarefa árdua principalmente por força das condições econômicas do Estado do Rio.

Ele herda de Branca Motta uma gestão organizada, apesar dos pesares, constatação fundamentada, entre outros fatos, na reversão do caos administrativo que ela enfrentou em sua primeira gestão, com o detalhe de que naquela época o Brasil estava com sua economia “bombando”.

E Sávio Saboia foi um secretário de Cultura e de Saúde dos mais atuantes e realizadores, o que força Tatu a conseguir gente de igual capacidade ou, de preferência, maior.

Se manter essas condicionantes já será difícil, imagine a pressão que o novo governante sofrerá principalmente por parte dos servidores, há muitos anos sofrendo com ausência de reajustes e que depositaram suas esperanças em Tatu!

Vai ter que usar todo o vigor da juventude, a capacidade de trabalho, a força moral dos quase 3000 votos à frente de Saboia, firmemente unido com as forças que o apoiaram e com a simpatia do Poder Legislativo.

No entanto, tais dificuldades, se superadas, serão o princípio ativo do sucesso de sua carreira política. São em cenários assim que costumam destacar-se os verdadeiros líderes, e Tatu tem essa preciosa oportunidade.

Publicado em novembro/2016

Era falso. E trágico!

Num conhecido país a falsificação das coisas e a falsidade de muitos eram comuns. E trágicas. Fernandes Ventura fora um dos… desventurados. Sua sina começara no momento em que viera à luz em terra brasilis, pois já nos primeiros minutos de vida fora apresentado à falsidade em forma do “que gracinha”, elogio que muitos endereçavam a sua mãe mal disfarçando o repúdio por criança tão feia. 

Em meio às falsidades o garoto crescera sem sequer saber a quem chamar de pai, muitos eram os prováveis candidatos que acreditavam cada qual na falsa fidelidade jurada por sua mãe. Adulto, passara por maus pedaços na época das falsificações de remédios: sofrera terrivelmente com a perda do filho, vitimado por uma infecção que o antibiótico falsificado não curou, filho este que não estava nos planos, fora produto de um anticoncepcional falso fabricado com farinha de trigo.

Para apagar a tristeza tomou uma, duas, três doses de uísque falsificado no Paraguai, que lhe causou terríveis dores de cabeça. Procurou um médico e este rabiscou no receituário um indevido laxante, que por ser falso não surtiu os desagradáveis efeitos. “Ainda bem”, pensou, “acho que sou o único ser humano feliz por ter tomado um remédio falsificado”. Descobrira depois que o médico era falso, sua verdadeira profissão era barbeiro.

Fernandes Ventura sentiu necessidade de relaxar. Foi ao Maracanã assistir a um jogo do seu Flamengo que sabia ser, naquela época, falso — aqueles pernas-de-pau podiam ser tudo, menos jogadores de futebol. — Não conseguiu. Foi barrado na roleta porque o ingresso era falso. 

Solicitou um pequeno empréstimo a um amigo que encontrou nas imediações a fim de adquirir outro ingresso. “Não tenho”, foi a resposta que ele sabia ser falsa de um amigo idem. Aborrecido, foi para casa. Pegou mais dinheiro. No caminho de volta ao estádio resolveu alterar o programa; não resistiu aos encantos de uma loura que dava mole e foram para o motel. Lá chegando, descobriu que a loura era falsa, seu “documento” não deixava dúvidas. Mesmo assim, arriscou, precisava descarregar as tensões.

Saiu preocupado do motel porque na hora H a camisinha furou porque
a quadrilha que falsificava os preservativos utilizava bolas de soprar. Já em casa, recebeu a visita da polícia. Procuravam-no para deslindar a lance da falsificação da nota de R$ 100 com a qual pagara a diária no motel. Ficou com mais um prejuízo e foi dormir. 

Martelava em sua cabeça o problema da camisinha. Acordou milagrosamente vivo em meio a toneladas de escombros: o prédio havia desmoronado! Tinha sido falsificado pelo Sérgio Naya, um deputado que falsificava tudo o que podia, de assinaturas até prédios residenciais — usava cimento em quantidades aquém das especificações em suas obras.


A somatização dos perrengues fez desenvolver uma doença de pele em Fernandes Ventura, e ele ficou sabendo que aqui em Bom Jesus havia um ótimo dermatologista. Não resolveu seu problema porque o diploma e o médico eram falsos: A Pomada Minâncora e a água boricada receitadas não ajudaram. Mas isso não foi o pior. A preocupação com a camisinha furada fazia sentido. Contraiu AIDS. E na mesa de cabeceira no quarto do hospital via vários frascos de remédio que ele tomava, mas não faziam efeito pois seu estado só piorava, já estava nos estertores. Pensou: serão falsos?

Eram, mas ele nem chegou a saber. As últimas imagens que suas retinas captaram foram a de um político de nove dedos, ex-metalúrgico, com seu tedioso blá blá blá desfiar pela TV na mesinha de cabeceira sua costumeira retórica e odiosa hipocrisia: “vamos moralizar a política no Brasil.”

Também era falso!

Publicado em agosto/1998

Debutei no ´quinqua´; ou, saúdam com igual ênfase a primavera em flor e o outono de folhas ressequidas, não sei porquê

 

Texto inspirado na crônica de João Ubaldo Ribeiro “Velhinho em folha” – O Globo, 18/1/2004.

Fiz cinquenta, leitores, agora em maio. Cinquentinha! O que posso lhes dizer a respeito, se é que lhes interessa? Que parece ontem eu exultava com um saco de brinquedos que o velho Chico Mendonça (homem generosíssimo que está no Éden, juntamente com o seu xará mais famoso – o Xavier) mandou para nossa casa na Beira-Rio, Bom Jesus do Norte, no Natal, creio que de 1959 ou 1960? Que ainda há pouco um orgulhoso pai saía sorridente da maternidade em Vitoria, encantado com o seu primeiro rebento nascido em 1979? E de outra maternidade em Olinda/PE, igualmente radiante pelo nascimento do segundo filho, em 1981? E de outra mais, no Rio de Janeiro, em 1982, com a única “filha mulher”, encanto dos encantos? E ainda outra, agorinha mesmo, em 1996, cheio de alegria com a raspa do tacho Gabriel?

Não vou filosofar quanto a rapidez do tempo, permitindo-me apenas adaptar uma citação de Léa Waider, fiel em traduzir o que vai em meu espírito ora cinquentenário: “Sou um bicho da noite, do crepúsculo. O barulho me fere a alma; busco a quietude, o contato comigo mesmo e com a natureza.” Espírito, aliás, que espero não desista desta carcaça antes que ela se torne secular (não deixemos as coisas inconclusas, amigo etéreo. Não se esqueça das células-tronco. Elas poderão nos dar um coração novinho, cheirando a tinta, imaculado de tantas emoções…; pulmões sem nicotina; figueiredo sóbrio; e até…, quem sabe…, deixa pra lá).

Dito isto, obrigado a todos pelas dedicatórias evocativas de saúde, paz e longevidade. Deduzo que os votos de parabéns quando se completa 50 não perdem em exaltação para os da mocinha que faz 15, e acho nisso uma contradição do inconsciente coletivo, que é saudar com igual fervor a primavera varonil e o outono de folhas ressequidas. Aos novíssimos amigos da confraria cinquental, eis que me apresento augurando a todos, e a mim também, a proteção da mesma divindade que dedica seus serviços aos cinquentões (em alguns casos, beirando ou até passando dos sessenta) Mick Jagger (que deu conta, com louvor, da estonteante Luciana Gimenez), Gilberto Gil, Caetano, Zico, etc. e tal. Eles estão aí a provar que nem tudo é bico de papagaio, reumatismo ou videogame com os netos.


Vejamos outros fatos positivos. Dia destes me surpreendi analisando com incomum interesse o caixa especial de um banco, mentalizando uma entrada triunfal daqui a 10 anos (passa tão depressa…) num banco qualquer, contemplando com desdém a jovialidade nas filas quilométricas.— Pensam o que?, direi cá comigo — tenho imunidade velhática, não entro em filas!

Da mesma forma, velhinho em folha lá pelos idos de 2019, recebendo da Viúva, sem fazer lhufas, um salário-mínimo, dedicarei aos milhões de desempregados nas filas (moços, mas, ai, que gostosa desforra…, sem dinheiro), nada mais que um olhar indiferente. Sacanearei o hoje nonagenário Camilo Colla, viajando de graça nos seus ônibus… Ah!, quantas oportunidades, quanta experiência enriquecedora me aguarda.

E o Estatuto do Idoso? Prevê até mesada para quando chegarmos à chamada terceira-idade (Jô Soares diz que só há duas idades: viva e morta). Ainda tenho bastante tempo (assim espero) para escarafunchar suas cláusulas e dedicar muita atenção a esta da mesada. Já pensaram, eu, com quatro filhos, se cada qual me dispensar algum? Poderei dar a volta ao mundo na primeira classe do Queen Elisabeth.

Adoção, pasme! Existe cláusula de adoção no Estatuto! Penso que deverá ser tal e qual se faz com as crianças, também vou estudar com interesse isso. Será que a gente vai ficar num lugar tipo internato, à espera de um casal simpático, e de preferência rico, em polvorosa, no pátio, roendo as unhas pela ansiedade de saber qual de nos será o felizardo?

— Aquele ali, branquinho, baixinho e barrigudinho, que gracinha, diria a esposa maravilhada ao marido apático, referindo-se a mim. E eu antegozando a vida deslumbrante que terei dali em diante: férias na Disneylândia, passeio no shopping, aparelho auditivo com joysticks e 10 megas de memória… Hein?

Publicado em maio/2004

Educação em frangalhos. Sem trocadilho com a charge

O analfabeto funcional sabe ler e escrever, mas não sabe estruturar nem interpretar um texto. Muitos conseguem concluir a universidade, mostrando que o saber não é o mais importante para a obtenção de um canudo neste país em que um ex-presidente da República se vangloriava de sua ´apedeutice´. Esta charge, do cartunista estrangeiro Dan Collins retrata um fazendeiro tratando de suas galinhas, também parceiras sexuais. Pois bem: fato nada engraçado é que a charge serviu como ilustração para trabalho escolar de crianças paranaenses com idade média de… 6 (seis) anos! (Aqui)

Há uns dois anos isso ocorreu, fato amplamente divulgado. Foi um erro, claro, não se pode imaginar uma mente tão doentia a ponto de submeter crianças em tenra idade a algo tão escatológico. Por outro lado, mostra a quantas anda o ensino público, tão ruim que fica à mercê de equívocos inacreditáveis, inaceitáveis e grotescos assim. 

Pais, mães, tutores em geral de estudantes da rede pública brasileira já nem se surpreendem mais com a péssima qualidade do ensino. Um exemplo do descomprometimento em ensinar, bem pertinho de nós, bom-jesuenses: depois que acabou a Copa do Mundo — quando os alunos tiveram um mês inteiro de recesso — a Escola Estadual Euclides Feliciano Tardin (Horto) resolveu pintar salas de aula. Resultado: alguns alunos foram dispensados durante duas semanas para não serem prejudicados pelo cheiro de tinta. 

Sejamos justos: não são o Horto ou outras escolas especificamente as culpadas pelo péssimo ensino, é reflexo da política educacional brasileira. Desgraçadamente o nosso país é um dos que destinam mais verbas para a Educação, mas um dos piores na gestão dessas verbas. Qual será o futuro do Brasil com alunos que hoje não encontram estímulo para aprender, e escolas que não têm capacidade para ensinar? 

Publicado em julho/2014

Sexagenário, enfim. Preferência nos atendimentos é uma pequena desforra à gente nova nas filas

Fiz 60. E com exceção de um achaque aqui, outro ali, estou, como dizia o inesquecível João Ubaldo Ribeiro, velhinho em folha. Não sei vocês, velhinho/velhinha, que me leem, mas venho estudando com atenção o nosso Estatuto sancionado em outubro de 2003. Estou maravilhado com o que descobri. Direito a usufruirmos de unidades geriátricas de referência (de re-fe-rên-ci-a, encham a boca ao pronunciar), com pessoal especializado nas áreas de geriatria e gerontologia social, por exemplo. Está lá, no artigo III, do Cap. IV. 

Hein? Nós aqui em Bom Jesus, numa unidade de re-fe-rên-ci-a, sendo atendidos por gente es-pe-ci-a-lís-si-ma? Só falta não reconhecermos a generosidade do parágrafo 3º, Art. V: “É vedada a discriminação do idoso nos planos de saúde pela cobrança de valores diferenciados em razão da idade”. Tão emocionante que me leva até às lágrimas…, snif, snif.

O Cap. V, que trata da Educação, Cultura, Esporte e Lazer dá um banho nesses paisinhos mixurucas tipo Dinamarca, Noruega, Suíça. Vejam isto, cidadãos ingratos, maledicentes: “Os idosos participarão das comemorações de caráter cívico ou cultural, para transmissão de conhecimentos e vivências às demais gerações, no sentido da preservação da memória e da identidade culturais”.

Gostei especialmente da “transmissão de conhecimentos e vivências”, que quer dizer que prestamos para alguma coisa, muito embora não seja essa a percepção, eu diria, da maioria das pessoas jovens que nos tratam, umas com arrogância, outras com aquele infantilismo crônico e emburrecido que pespegava os pimpolhos das priscas eras que bem longe vão.

Disseram-me por alto que nosso Estatuto é tão progressista que até constaria cláusula de adoção, mas infelizmente não achei. Como já escrevi aqui, aos 50 já sonhava com a possibilidade futura de ser adotado, tal como fazem com as crianças, imaginando-me num lugar tipo internato, à espera de um casal simpático (rico, de preferência), em polvorosa junto a outros velhinhos, roendo as unhas pela ansiedade em descobrir qual de nós seria o felizardo.

— Aquele ali, branquinho, baixinho e barrigudinho, que gracinha, diria a esposa maravilhada ao marido apático, referindo-se a mim. E eu, como se as artrites e artroses fossem tônicos musculares, sairia correndo feito um desesperado, dando pulos de alegria ante a visão de expectativas maravilhosas, de brinquedos sensacionais, talvez até um aparelho de surdez com 8 gigas de ram e HD de 1 tera.

Justiça se faça ao atendimento preferencial nos bancos, que funciona (sem ironia, acredite). Dia destes até me surpreendi ao pegar uma senha para atendimento no Banco do Brasil de São José do Calçado. Havia umas 20 pessoas aguardando, razão pela qual calculei que mesmo com a prerrogativa da preferência, teria de aguardar alguns minutos. Saquei meu smartphone e nem bem reiniciei a leitura de “Padre Cícero”, de Lira Neto, a musiquinha no painel anunciou meu número. Levantei-me e passeei os olhos por cima das cabeças esperantes com um pequeno frêmito de desagravo por quantos ali nem se dão ao trabalho de pensar sobre a bênção que é poder envelhecer. 

Produzido em outubro/2014