Aqui eu guardo meus escritos.
Obrigado pela visita.

Passou pela vida como os passarinhos,/
livre e solto como as aves são./
Sem patrão ou chefe a lhe ditar, mesquinhos:/
vamos, Mané, o lucro é nossa religião./
Sempre na beira de rios, riachos, laguinhos,/
da natureza curtindo tão sublime integração,/
pegava sem predar os seus tantos peixinhos…/
Que regozijo e maior consagração!/
Só o tabaco a acompanhar-lhe, nem sequer boteco./
E deste vício no final seu só tormento/
pois a megera da fumaça nos pulmões fez sedimento./
E nessa hora de emoção e vão lamento,/
em que choramos pelo triste passamento,/
só nos resta desejar: descanse em paz, tio Deco./
(Em homenagem ao meu tio Manoel de Castro Vaillant, falecido em 4/2/17).
Publicado em fevereiro/2017.

Estava dia destes pensando sobre a decisão tomada pela planetária e estonteante atriz Angelina Jolie, que já havia se submetido em 2013 a uma dupla mastectomia (retirada dos dois seios), e agora fez o mesmo com os ovários. “Até aí morreu o neves”, como se dizia tempos atrás quando da falta de novidade, como seria o caso se ela estivesse doente.
Mas não morreu o neves coisa nenhuma, porque ambas as mamas da atriz, bem como seu sistema reprodutivo estavam absolutamente sãos, normais, positivos e operantes, assim como todo o resto do conjunto que a faz tão curvilínea e bela, inteligente e talentosa. Acontece que os médicos lhe haviam dado uma notícia brutal: de acordo com as probabilidades genéticas baseadas em históricos familiares, ela tinha nada menos que 87% de chances de desenvolver câncer de mama e 50% de ovários. E aí, recompondo-se da desolação que informação semelhante causa a qualquer mortal, veio a demonstração da coragem e capacidade de renúncia desta minha nova ídala (não se fala “presidenta” por aí?).
Valente! Mandou às favas a chance de contrair a doença e encara a menopausa precoce — e toda a sorte de inconvenientes que isso acarreta — aos 40 anos. Emocionem-se: pesou na decisão dela não somente a vontade de um viver prolongado, mas de não deixar órfãos prematuramente seus sete filhos (três biológicos e quatro adotados).
Que maior exemplo de amor pode uma pessoa demonstrar? Se é tão difícil conviver com qualquer perda, maior o sofrimento de ficar órfão. E a generosidade admirável levou Jolie a amputar seus órgãos até então saudáveis para que os filhos tenham a chance de adiarem a tristeza da orfandade.
Aplausos, Angelina!
Publicado em abril/2015

Não conhece? Despreocupe-se. Não significa que você seja um apedeuta. Nosso idioma é muito rico e há grande variedade regional, o que complica.
Você sabe o que é um caga-sebo? E um caga-fogo? Veja só: palavras tão grosseiras para designarem um inocente negociante de livros usados e um prosaico beija-flor, respectivamente. Atucanar, no entanto, soa bonitinha, mas significa apoquentar, aborrecer.
— Meu filho, pegue seu pintão, leve a piranheira e bote-as na abertona. Calma, não endoidei. Isto quer dizer: — Meu filho, pegue sua fruta de vez (pintão), leve a planta euforbiácea (piranheira) e bote-as na abertura do porão do navio (abertona). Desculpe, leitor mais sensível. Sei que essa é uma situação inverossímil, mas preciso ganhar a vida. Além do mais, até há pouco tempo não havia gente que defendia o salário-mínimo a R$ 700, repudiava o FMI e defendia a dignidade dos velhos aposentados? Pense bem. Não sou só eu o obsceno!
A complexidade do idioma torna possível esta frase: “O marido dela despicou e praticou uxoricídio.” Tradução: O marido dela vingou-se (despicou) e matou a própria mulher (uxoricídio). Ou esta: “O rapaz abichou e agora é rabunador.” Não tire conclusões apressadas. Certamente o rapaz conseguiu coisa vantajosa (abichar) e prepara cortiça para fazer rolha (rabunador). Esta é mais verossímil ou o cara não pode comprar uma fábrica de rolhas, leitor molévolo?
Também pode ocorrer de alguém propor a outrem (outra ou outras pessoas):
— Vamos abocetar? Que quer dizer, “vamos guardar na boceta?” Huumm…, quase obscena. Então, que tal assim? “Vamos guardar na caixa de rapé?” Ufa…, tá bom, tá bom, rapé é tabaco em pó. (Machado de Assis usa bastante a palavra “boceta” em suas obras.)
Olhe que feinhas: viador (viajante); vasca (ânsia); punceta (objeto para cortar lâminas de ferro); bucéfalo (cavalo ordinário); cabaça, fruto da cabaceira; escalda-rabo (repreender); bundo (idioma dos negros de Angola); xeta (beijo atirado com os dedos); putativo (que julga ser o que não é); cualvo (rabo-branco – tradução literal, he, he, he); vulvária (uma erva), e por aí afora.
Senhoraço, palavra viril que lembra homem poderoso? Não. Significa homem de inferior condição, da mesma forma que poetaço traduz o poeta que faz maus versos. Embaixatriz todos sabem, mas e senatriz? Sim, esposa de senador. Só não achei deputatriz, vereatriz…, gentalha!
Engraçado é a pessoa que tem hipantropia (delírio pelo qual o enfermo se julga um cavalo). Se sua filha é temípede, tudo bem, tem pés pequenos. Se você perde no jogo ganha-perde, é um sortudo! Esse é o jogo que ganha quem perde.
Você tem verecúndia porque sua mulher é portadora de pogoníase? Não precisa. Quero dizer, há tratamento para barba na mulher (pogoníase), não carece a vergonha (verecúndia).
E aquele político no meio da multidão? Uma mulher irada se aproximou dele e disse bem alto:
— Fulano de tal? Vote! Todos deveriam torcer o nariz porque “vote” designa repulsa, repugnância.
Pior deve ser o cara chegar em casa com o filho pequeno e este ir logo entregando: — Mãiêê, eu vi o pai tirar os óculos para dar um ósculo naquela mulher. Ósculo = Beijo.
Curiosas são as faisquinhas que saem do esmeril. Chamam-se triboluminescências. Obóveo é tudo que é em forma de ovo invertido. (Só não me pergunte o que é ovo invertido que eu não sei. Teria a gema para fora e a casca para dentro?)
Se num hospital você vir a equipe médica numa trepanação estará presenciando furar o osso (trepanar) de algum paciente. Você já foi vítima do mão-leve (gatuno)? Saiba que há também o pé-leve (sujeito reles). Há o fute (demônio); rizófilo (que gosta de raízes); o que tem efélides (sardas); a tríbade (mulher homossexual); o abezelgado (desenvolto), e o que gosta de tirar uma sorna (soneca).
Eu sou Flamengo e fico sempre vascoso (enjoado) quando o Vasco ganha da gente. Me dá vasca de raiva! A palavra inconstitucionalissimamente, com 27 caracteres, para mim era a maior. Qual nada! Encontrei uma com 28. Um médico de ouvidos, nariz e garganta e que também seja oftalmo, sua especialização é oftalmotorrinolaringologista. Já pensou se ele possuísse mais alguma especialização?
Não-te-esqueças-de-mim é o nome de uma pequena flor; quadrúmano é o mesmo que quadrúpede (como certos políticos); quichiligangue é uma bagatela, que por sua vez é uma quantia de pouco valor. Polca é uma espécie de dança polonesa, e porca tanto pode ser a mulher do porco ou a do parafuso.
Você nunca deve coser (costurar) sua comida nem cozer (cozinhar) sua camisa para não parecer um sandeu (idiota). Tenha pena de um bostelento (que tem feridas) e saiba apreciar uma mulher calipígio (que possui belas nádegas). Evite sínico (chinês) cínico, principalmente se estiver com um bacorinha (chapéu de feltro); pode ser um madraço (malandro).
Veja se não confunda a eufonia (som) das palavras, como aconteceu com um garçom que servia um peixe para uma distinta senhora. Ela apontou o prato e perguntou:
— Pirarucu?
Ele respondeu:
— Tiraro, sim sinhora.
Ah, antes que eu esqueça: minha mãe deve estar com os ouvidos esbuxados (deslocados) e os dedos adelgaçados (afinados) de tanto enfiá-los quase até aos tímpanos com medo de trovões e relâmpagos (astrofobia).
E para terminar, relaxe. Você certamente conhece eubiótica (arte de viver bem) e se me suportou até aqui não é um apedeuta (analfabeto). Espero ter sido um adminículo (que contribui para ajudar) à sua cultura.
Fonte de pesquisa: Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa – O Globo.
Publicado em fevereiro/1999

Há algum tempo eu li que em algumas cidades brasileiras seriam instalados banheiros públicos individuais, confortáveis, cheirosos, com direito até a música ambiente. Com uma moeda de cinquenta centavos o freguês poderá usá-los por 15 minutos, após o qual a porta se destranca automaticamente depois que uma gravação avisa que o tempo acabou. Imaginando que Bom Jesus/RJ pudesse ter um desses, dei asas à imaginação e produzi este texto de cultura inútil que, no entanto, pode servir para evitar constrangimentos. Como veremos, é sensato andar por aí com algumas moedinhas de cinquenta centavos.
Consta que um homem, cujo fanatismo por uma farra só é menor que a paixão nutrida pelo Vasco da Gama tomou um porre homérico numa noite em que o seu clube foi rebaixado para a Segunda Divisão. No outro dia, puto da vida pelas gozações inevitáveis, comprou o jornal numa padaria do Bairro Lia Márcia, onde mora, e foi para o trabalho no Pimentel Marques. No caminho, passou a se contorcer em dores, intestino em polvorosa.
Aquela feijoada não pegou bem, pensava, ao mesmo tempo em que amaldiçoava até a quinta geração daqueles pernas-de-pau que podem ter brincado de tudo na infância, menos de jogar bola. Os pernas-de-pau, por outro lado, pareciam reagir telepaticamente, liberando à distância poderosas emanações químicas que radicalizavam a cólica intestinal do agora suado e esverdeado torcedor. Não vai dar para chegar ao trabalho, constatava, nesta altura andando meio de lado, até que apareceu tal qual um oásis o seu maior objeto de desejo naqueles trágicos momentos: o banheiro público da Praça Governador Portela.
Tanto melhor que era um daqueles modernos, limpinhos, um oásis na amplitude de contrações e flatos perigosamente úmidos. Em desespero, vasculhava febrilmente os bolsos em busca de uma moeda de R$ 0,50. A muito custo achou uma no bolsinho frontal da calça. Era a única. Depositou-a no compartimento específico. A porta abriu e ele entrou de supetão.
Lá dentro, alívio total. Sentado no trono asséptico, aliviava-se lendo o jornal e ouvindo música. Não reparou no aviso de que uma moeda dava direito a 15 minutos. Extrapolou o tempo na leitura tentando entender como o seu time querido dera tanto vexame. E aquele coro infernal martelando na sua cabeça: “ão, ão, ão, segunda divisão. Uma voz metálica tirou-o da abstração: “tempo esgotado”.
Simultaneamente viu a porta destravar e um vento forte a escancarar. Ele ficou ali, sentado e em pânico sob os olhares de curiosidade dos transeuntes num local de intenso movimento. Uma provecta senhora passou e fez o sinal da cruz. Uma menininha beliscou a mãe:
— Mãeeee, o que ele faz ali?
Um gaiato perguntou:
— Me vende um quilo de pregos?
Um outro:
— E aí cagão?
Teve até um, metido a poeta, que resolveu juntar uma pequena multidão para recitar suas obras-primas literárias:
— Aqui termina a deliciosa obra de um cozinheiro.
E continuava:
— Neste lugar solitário/é onde os fracos fazem força/e os valentes se cagam.
— Quando fores ao banheiro/é favor trazer papel/porque merda não é tinta/e dedo não é pincel.
— Sentado na privada/sinto uma emoção profunda/a merda bate na água/e a água bate na bunda.
E por aí afora.
O torcedor, coitado, a ponto de sofrer um enfarte, observava a aglomeração com um olho entre as frestas do jornal que usava para se encobrir e permanecer no anonimato, tentando elaborar um plano para sair daquela encrenca. E a multidão crescendo, crescendo e excitando o entusiasmo dos que queriam aparecer através da desgraça alheia, como um cidadão pretensamente sério, compenetrado, com ares de orador e um livro debaixo do braço, que emergiu abrindo caminho com autoridade no meio da multidão, para filosofar:
— Vejam um exemplo de despojamento — disse, apontando o dedo para o local onde convergiam todos os olhares. — Este digno ser humano não carrega consigo o sentimento da vergonha quando das necessidades fisiológicas. Quem, de vós, tem a coragem de fazer, de público, um ato tão natural quanto este de cagar? — perguntava, aproximando-se, devagar, do infeliz.
Já na porta, continuava o discurso:
— Percebam vós que até este cheiro… — farejou apuradamente, acenou com um gesto como a pedir um tempo para a platéia e, baixando a voz, fez uma pergunta ao pobre coitado:
— Mesmo com todo esse vento, rapaz — tapou as narinas. — Do que anda você se alimentando?
Ao que uma vozinha sumida, trêmula por trás do jornal, retrucou:
— Te dou cinquenta reais em troca de uma moeda de cinquenta centavos!
Publicado em março/2000
Produzi um conto unindo pedaços de textos de outros autores com os meus próprios. O que vai abaixo é um esboço do “achado”, e até por isso, insípido, valendo, talvez, pela ideia. Quem sabe não produzo um best-seller, com a necessária originalidade paradoxalmente brotada de uma mente preguiçosa?

1) … CABELOS LONGOS iguais aos que José de Alencar, ao descrever Iracema, dizia serem mais negros que a asa da graúna, levemente ondulados. Batom vermelho-sangue, olhos claros, claríssimos, pele sedosa e alva como a face da manhã, um conjunto de perfeição física… /…Aproximadamente 30/35 anos, nessa fase da vida em que a aura de mistério das mulheres se torna mais irresistível e envolvente. Olhei-a; olhou-me. Senti-a; sentiu-me. Olhares profundos, dos que perpassam a alma. Muito tempo, mais de meia hora, olhos nos olhos, quase sem piscarmos. Viajei; viajou. Adrenalina pura. Limalha e ímã…
2) … SÚBITO UMA MÃO avançou sobre mim … / … Percorreu-me a fronte, os olhos, todo o rosto com doçura. Depois uma boca ávida se colou à minha … / … Minha mão percorreu sua cabeleira com tranças, uma fronte lisa, os olhos de pálpebras fechadas, suaves como amapolas. Minha mão continuou buscando e toquei dois seios grandes e firmes, nádegas amplas e redondas, pernas que me entrelaçavam, e mergulhei os dedos em um púbis como musgo das montanhas…
3) … ESTÁVAMOS FANTÁSTICA e divinamente sós; eu a olhava, rósea, polvilhada de ouro, encoberta pelo véu de meu refreado ardor … / … Tudo agora estava pronto, os nervos do prazer inteiramente expostos. Os corpúsculos de Krause entravam na fase de agitação frenética. A menor pressão seria bastante para abrir todas as portas do paraíso…
4) …MAS NÃO HÁ BEM que sempre dure, nem mal que nunca acabe. Louco de paixão, não percebi com o correr do tempo que a recíproca já não era verdadeira. Meu mundo desmoronou ao descobrir a perfídia: ela tinha outros homens. Uma noite prestei mais atenção naqueles grandes olhos verdes e os vi frios e inexpressivos. Nos lábios carnudos, minha sentença de morte: “está tudo acabado entre nós”, ela decretou. Então, conheci a dor e o desespero…
5) … UM DIA — era uma sexta-feira — não pude mais. Certa idéia, que negrejava em mim, abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro, como fazem as idéias que querem sair…. / … A vida é tão bela que a mesma idéia da morte precisa de vir primeiro a ela, antes de se ver cumprida… / … A idéia saiu finalmente do cérebro. Era noite, e não pude dormir, por mais que a sacudisse de mim. Também nenhuma noite me passou tão curta…
Na manhã seguinte, um amigo escreveu:
6) …DO 86º ANDAR do Empire State Building… / … Robert Irskine olha o cenário vertiginoso… / … Lá embaixo, muito embaixo, a vida passa… / … A vida é tão pequenina que o prodigioso prédio subiu até o céu com todas as suas janelinhas… / … E o jovem Robert Irskine… / … atira um último olhar ao oceano distante, um derradeiro adeus aos arranha-céus vizinhos… / … E por fim, pula no espaço, sem asas e sem paraquedas… / … O que eu mais lamento no seu gesto, ó Robert, é você não ter levado nem um lápis e nem papel para registrar suas impressões de viagem… / … A causa dessa resolução pode ter sido a conta do alfaiate. Mas a culpa pode caber, também, a uma “girl” de olhos tão verdes e tão vagos como o mar contemplado lá de cima. As contas do alfaiate e os olhos verdes sempre perseguiram os homens.
BIBLIOGRAFIA
1) “Encontro” (Um dos meus próprios contos, publicado na Status 168, dezembro/2006).
2) “Confesso que vivi” – Livro autobiográfico do poeta chileno Pablo Neruda.
3) “Lolita” – best-seller de Vladimir Nabokov.
4) Eu de novo.
5) “Dom Casmurro” – Clássico de Machado de Assis.
6) “Suicídio em Nova York” – do bom-jesuense Romeu Couto, uma das 70 crônicas do autor selecionadas por Delton de Mattos e publicadas em livro em 2003.
Publicado originalmente em setembro/2010