Aqui eu guardo meus escritos.
Obrigado pela visita.
No outono de tanta folha ressequida,/
lembro-me bem da primavera esperdiçada;/
tu me vias com paixão mui incontida/
e eu, basbaque, a julgar que era maçada!/
Quanto sofrer isso me fez, minha querida./
Pior ainda, só o teu, óh!, doce amada,/
que conduziste em tua sina tão dorida/
o torpe engano de pensar foste enjeitada./
O que de útil pode ter tal descoberta,/
que exacerbado amor platônico, de tão grave,/
obstruiu resolução fundada e certa?/
Amargura, apenas. E que fique o alerta:/
nunca ser tão cego e obcecado a procurar a chave,/
sem ver que a porta, muitas vezes, está aberta!/
Data incerta de produção
Impávida, vais levando tua vida ardente/
embalada na candura d´outro menestrel,/
pois é assim a sorte, leviana e excludente,/
negando a quem merece conquistar o seu laurel./
Sê feliz, se for possível sê-lo tão imprevidente./
Trocaste o bardo autêntico por um outro ao léu,/
e pode ser dos que mentem mui sinceramente,/
acenando-te com o paraíso e um lugar no céu./
Tens cautela; podes cair num pranto em vão desatinado,/
surpreendida quando fores por tão danoso engano,/
e te fugires um dia, aos pés, o chão esfacelado./
Então irás sentir a dor do ser amargurado,/
e compungida verás cair a ficha do capricho insano,/
que tornou-te pouco mais do que um fósforo riscado!/
Data incerta de produção

De uns tempos para cá estou meio indiferente pela Seleção Brasileira. Antes, como a esmagadora maioria dos brasileiros, deixava-me influenciar pelas cores vibrantes do escrete, pela alegria contagiante que ocorre em épocas de copas do mundo, associando-me aos carnavais fora de época que costumam despontar nesses junhos quadrienais. Especialmente na juventude, a gente se integrava nas carreatas após as vitórias da Seleção. Observávamos as ruas coloridas, embandeiradas, a emoção coletiva à flor da pele, os vivas aos nossos craques, as discussões acaloradas sobre quem era melhor em cada posição nas equipes, o ódio quase mortal pelos rivais argentinos, coisa e tal. Eu imaginava: se já é assim, quão retumbante seria quando a Copa fosse realizada no Brasil! E que decepção notar que tão arrebatadora expectativa se materializou num muxoxo coletivo, numa impassividade tamanha como se em 2014 a Copa esteja prestes a se iniciar no Círculo Polar Antártico…, sem a presença da Seleção Brasileira!
Continuo torcendo pelo Brasil, festejarei se vier o Hexa. Mas confesso que os argentinos já me são simpáticos. Então, se vier algum resultado adverso para o verde-louro da nossa flâmula, confesso que o receberei com a apatia dos renegados. Este estado de ânimo, noto, no dia a dia, é idêntico ao de milhões de brasileiros, que ao se gabaritarem numa escala maior de esclarecimento, do reconhecimento de que estão sendo manipulados, sendo massa de manobras políticas rasteiras e inconfessáveis, se tornaram invulneráveis à hipocrisia e a dissimulação.
Instintivamente estamos dando uma banana portentosa àqueles que imaginaram que o circo mais galante do mundo dos esportes nos faria ainda mais agradecidos e conformados pelo pão nosso de cada dia, acomodado nas bolsas esmolas. Pensaram, os insanos, que estádios faraônicos nos fariam esquecer a falta de leitos nos hospitais, a violência galopante, a falta de perspectivas no futuro, a Educação em frangalhos, a corrupção em dimensões planetárias. Em vez de mostrarmos fatos edificantes da nossa pátria, mostraremos ao estrangeiro nossas piores mazelas, nossa falta de planejamento, obras inacabadas, infraestrutura caótica, uma demonstração melancólica de incompetência.
Que façam bom proveito do seu Titanic. Infelizmente, ainda que vençamos, já perdemos!
Publicado em maio/2014

Um dos fatos marcantes da minha juventude (primos e agregados em profusão) eram as pescarias que fazíamos no Rio Itabapoana e no Valão Barra Alegre, Bom Jesus do Norte/ES, nas regiões mais remotas desses cursos d´água. Pescarias mesmo, com P maiúsculo, bastando dizer que o Tio Deco é considerado um dos mais prolíficos pescadores da região — senão o maior. E como gostava da nossa companhia! Ficávamos semanas, meses no mato, dormindo ao relento e quase sempre nos impondo uma dieta de peixe frito na fogueira com arroz cozido numa panela de alumínio, negra como um corvo. Quando faltava o gênero de primeira necessidade — cigarro — aí não tinha jeito: lá ia um de nós, de bicicleta, muitas vezes a pé até à sede do município vender uns piaus e uns bagres para comprar tabaco, aproveitando para voltar com pães e roupas limpas.
Era um vício a pescaria, semelhante ao do smartphone nas mãos dos adolescentes atuais. Boas, boníssimas recordações! Havia os mais incapazes, como eu, e os talentosos na arte de pescar, como o primo Flamarion que, depois, com 25/30 anos sumiu do mapa e nunca soubemos o que lhe acontecera. Pescávamos de dia, à tarde, à noite. Águas ainda ecologicamente aceitáveis, que serviam para beber (nem sempre fervida) e cozinhar. Anzois perdiam-se muito, mas sempre tentávamos, e às vezes conseguíamos desenroscá-los quando ficavam presos no fundo, mergulhando principalmente quando no valão. Eram preciosos nem tanto pelo lado monetário, mas pela serventia: depois de um tempo o estoque atingia níveis alarmantemente baixos.
À noite, bagres e mandis pululavam, e não raro levávamos ferroadas mil na escuridão (lanternas eram artigos de luxo), unindo-se no mister de crueldade às picadas das furiosas muriçocas que voluteavam em nuvens ao redor de nossas orelhas num frenesi vampiresco impressionante. Quem ousava reclamar da dor levava uma reprimenda do tio Deco.
— Deixa de ser fresco. Seja homem.
Que raiva especialmente dos mandis, que além de concorrerem à isca com peixes mais interessantes, às vezes chegavam nos dando uma dolorosa mostra da relutância em ir para a frigideira. E nem eram saborosos como seu congênere lambari, que além de agradar mais o paladar não tinha o péssimo hábito de causar dor nos comensais.
Todo esse preâmbulo para terem uma noção mais exata da cara de muxoxo que sempre faço quando alguém é espetado por um bagre na praia e faz rebuliço. Exceto as crianças, acho a maioria dos casos, com perdão do politicamente incorreto, uma frescura. Uma das vítimas contemporâneas chegou a dizer que a dor é igual à do parto. Dona Aurinha, minha mãe que pariu 10, sete dos quais ao natural ficaria horrorizada e preferiria ver o diabo em pessoa que um bagre, segundo essa lógica.
Gerações contemporâneas, que não tiveram de conviver com o idealismo dos coturnos e dos fuzis estão meio fraquinhas, muito sensíveis, cheias de ai, ai, ai, não-me-toques. Que a espetada doi, doi, ora bolas. Mas não é necessário chamar Corpo de Bombeiros, paramédicos, processar a Marinha, evocar São Pedro. Não está havendo uma revolução dos peixes com ferrões em riste a atacar o bicho homem, tal como imaginou Hitchcock com seus pássaros. A propósito, nem injeção contra tétano tomávamos, eis que a sábia natureza armava seus entes com os anticorpos necessários à medida da exposição ao risco que ninguém hoje quer correr, tornando-se imunologicamente vulnerável, extremamente sensível. Como disse Guimarães Rosa, “viver é perigoso.”
Fujamos dos bagres, dos mandis e de outros “traíras” como eles. Mas se ocorrer um desagradável encontro não se justificaria tanto escândalo como se fosse com arraias. O espinho caudal delas é serrilhado e revestido de toxina, provocando dor intensa, necrose e infecção. Casos fatais são raros, mas há registros de gangrenas e amputações.
Publicado em abril/2016

Saudade dos tlecs, tlecs, tlecs da velha Remington mecânica e do então suprassumo tecnológico de sua substituta, uma IBM elétrica que maravilhava com seu revolucionário cilindro esférico de metal em lugar das hastes barulhentas de letras das antigas. Consta que ao desenvolver o Word, a Microsoft se inspirou na IBM para seu corretor ortográfico, que na IBM era em forma de fitinhas brancas. Você inseria a fita no erro, teclava a letra indevida e zás: eliminada como num passe de mágica.
O dever de ofício dessas máquinas alcançava maior quantidade de leitores. Agora, no teclado, calco nele, do mesmo jeito, conjuntos de letras que formam frases, orações, períodos. Mas o resultado já não tem a ênfase de outrora, tornando mais penosa a tarefa num país gerido (ou seria melhor, digerido?) a quatro mãos por um sujeito obtuso (o criador) e uma mulher sapiens (a criatura), que parecem ter orgasmos com o ocaso da meritocracia, da cultura, da educação, do conhecimento. Pesquisa da Fecomércio publicada em 1/4 deste ano no G1 aponta que, em 2014, nada menos que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer. O uso da internet, facilitado pelos smartphones é apontado na pesquisa como um dos responsáveis pela queda na leitura, principalmente entre os jovens.
Mas não é só por isso, creio eu. Se um ex-presidente da República se gaba de não gostar de ler, e se muitos analfabetos funcionais são eminências em variadas instituições de comando do país, é impossível tal fato estimular os brasileiros comuns ao hábito saudável da leitura. Ao contrário, obviamente.
É sintomático que os livros de colorir para adultos tenham virado febre no Brasil. “O sucesso é tamanho que as duas obras dessa linha — Jardim Secreto e Floresta Encantada — ambas de Johanna Basford, lideram a lista dos mais vendidos do Publishnews, publicação voltada para o mercado editorial. A primeira vendeu 122.654 exemplares em abril, enquanto a segunda vendeu 109.224. Para se ter uma ideia do quanto esses números representam — sem contar “Plihia”, do padre Marcelo Rossi, também um fenômeno, mas por conta da religião, o terceiro colocado nas vendas — os outros 17 títulos de obras ´convencionais´ componentes da lista dos mais vendidos, juntos, somam 149.075 cópias, enquanto os dois títulos para pintar batem 231.878″, afirma reportagem do UOL, de 5/5.
Uma pena porque, entre outros benefícios, o hábito da leitura previne o Mal de Alzheimer, segundo o neurologista André Matta, professor de neurologia da Universidade Federal Fluminense. “A área do cérebro responsável pela leitura está intimamente ligada à região da memória, assim como às da atenção, da concentração, da visão e da linguagem falada. Quanto mais se estabelecem conexões entre as áreas, mais elas se desenvolvem”, afirma o professor.
Ler, se instruir, desperta também a consciência política, aprimora a capacidade de discernimento para as escolhas, auxilia na detecção de mentiras, hipocrisia e empulhações. Ajuda, enfim, a votar melhor. Epa! Não pretendia ir tão longe. Queiram me desculpar, senhores do apocalipse ético e da desgraça do Brasil.
Bora colorir, pessoal?
Publicado originalmente em setembro/2015