Aqui eu guardo meus escritos.

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Desprezo

Queria te dizer, só sei assim,/
Em versos pontuados de lamentos,/
Ser tu e só, a causa dos tormentos,/
Que me fazem sofrer tanto, ai de mim!/

Sabias, impiedosa, que o orgulho,/
Ponteado com fagulhas de desprezo,/
Fazem em ti o torpe, imperdoável vezo,/
Que transforma teu coração em pedregulho?/

Acordes, desças do etéreo pedestal,/
Fortaleças o espírito recusando-te a ser fatal,/
E não permitas, de minh’alma, a partida./

Nem ignores aferir, cruel amada,/
Minha paixão que não te custas nada,/
Tua atenção que se me vale a vida./

Data incerta de produção

Achar-te-ei

Tu, que povoas meus pensamentos noite e dia/
Não tens forma, nem silhueta, mas em verdade,/
Existe. E eu te encontrarei, por lealdade,/
A uma alma que vai deixar de ser sombria!/

E quando essa hora chegar, ainda que tardia,/
Dos céus há de descer, por ordem da potestade,/
Os augúrios a uma vida intensa, com dignidade,/
Isso eu sempre disse a todos, isso eu sempre me dizia./

E o meu caso, então, terá outro matiz,/
Diferente do bom poeta que escreveu, disseram,/
Os versos tristes pelos quais nos diz:/

“Triste de quem como eu vê que, infeliz,/
teve todas aquelas que o quiseram,/
mas nunca teve aquela que ele quis!”/

Data incerta de produção 

Meu caçulinha

Acorda mais cedo e disfarçando eu manjo,/
À minha cama vem como um tropel,/
Nessa altura da vida, olha o que eu arranjo,/
O sono esbulhado por gente do céu./

A felicidade existe e eu até a esbanjo,/
No filho que é meu tudo, minha fé, meu laurel,/
Tem 2 anos de idade e nome de anjo,/
Meu doce, espevitado, “diabinho” Gabriel./

Imploro a Deus que pela mão o conduza,/
Nas veredas da sorte precursando o ideal,/
Revolvendo os perigos da vida confusa./

E, se não exagero, me conceda o preito,/
Ao soar minha hora na orbe terreal,/
Por ele ter os olhos cerrados no leito./

Produzido em 1999 

Vida

No idílio do amor, na alquimia,/
da carne espasmecida e latejante,/
transfigura-se tudo num instante,/
e irrompe a essência da magia./

Depois…, ora, depois,/
a febre da paixão se arrefece,/
revigorando após em outra messe,/
no torvelinho da unidade a dois./

E assim cumpre a natureza/
sua obra de encanto e beleza,/
dos desígnios de Deus em aliança./

E coroando a perfeição do Pai,/
na ventura de se gritar um “ai”,/
o lindo choro de uma criança!/

Data incerta de produção

Intruso

Quatro paredes, uma cama e os ideais,/
Eram o palco de um amor em torvelinho,/
No ranchinho da tapera, os madrigais,/
Rompiam noites devagar e de mansinho./

Quatro paredes, uma cama, nada mais,/
Eram só o que consistia nosso ninho,/
Onde em ritmos e loucuras saturnais,/
Almas fundiam-se no ápice do carinho./

Quatro paredes, uma cama, eis que então,/
Um intruso invade a choça, de roldão,/
Exigindo seu espaço no cantinho./

E como quem nada queria, mas querendo,/
Alterou o ambiente, que ficou sendo,/
Quatro paredes, uma cama e um bercinho!/

Data incerta de produção